Um cineasta que gosta de vulcões - eis uma boa frase para definir o alemão Werner Herzog (nascido em Munique, em 1942). Não apenas pelas sugestões metafóricas que nela possamos detetar, sobretudo porque se trata de uma definição literal: veja-se o seu documentário Into the Inferno/Para o Inferno (2016), aventura de alguém que, para satisfazer o seu gosto, andou por vários continentes a filmar... vulcões. Com o mesmo entusiasmo com que nos deu a ver, por exemplo, as ancestrais pinturas de Chauvet, no Sul de França, em A Gruta dos Sonhos Perdidos (2010). Enfim, não admira que, perante as maravilhas naturais que tem filmado, Herzog se interesse e, mais do que isso, preocupe com a nossa relação com a verdade. Com chancela da editora Zigurate, traduzido por Mário Prado Coelho, aí está um breve e sedutor livrinho que espelha a sua visão. O título cruza a subtileza poética e o aviso pedagógico: O Futuro da Verdade.Se quisermos estabelecer algum paralelo mais direto com a filmografia de Herzog, deveremos citar Eis o Admirável Mundo em Rede (2016). Nesse documentário sobre as maravilhas e pesadelos da internet, podíamos compreender que a questão da verdade pouco ou nada tem que ver com o infantilismo televisivo dos programas baseados em “relatórios” sobre a verdade heroicamente descoberta - começaram, aliás, com os imbróglios da vida política, agora até alguns canais mais sérios tratam de crimes passionais, mais ou menos obscenos... Herzog é ainda mais sério: aquilo a que chamamos verdade não é separável da questão da produção de verdade como um labor que marca todas as ações humanas. Porquê? Porque todos nós, mesmo os mais incautos, mas também os mais cínicos, somos narradores. . Herzog começa por citar Fitzcarraldo (1982), porventura o seu filme mais lendário. A história do homem que decide subir uma montanha com um barco (para quem não viu, importa dizer que esta descrição não podia ser mais objetiva...) evolui como a saga de um narrador que luta para que a sua existência coincida com as convulsões da sua própria narrativa - o que quer dizer também que o Fitzcarraldo do filme (interpretado por Klaus Kinski) é “apenas” um duplo do próprio cineasta. Como ele escreve, vogamos numa aventura em que “já não há uma demarcação clara entre a imaginação e a realidade”. De tal modo que Herzog, além de lembrar que não se considera uma exceção, acrescenta que se descobre “impelido por um objetivo distante que reluz, por uma oculta verdade latente.”No tempo da internetDaí que o livro seja todo ele pontuado por pequenas histórias colhidas nas mais diversas origens (a começar por esse mini-conto moral que é O Porco de Palermo). Seja como for, tais histórias surgem como matérias de trabalho: “As minhas reflexões refletem apenas observações e experiências pessoais no âmbito do meu trabalho prático, e - expressado com a prudência necessária - da minha experiência artística do mundo.” Para lá dos factos citados, todas as histórias que se contam envolvem a delicada questão dos sentimentos que as acompanham. Serão verdadeiros ou falsos, tais sentimentos? Herzog discute a questão a partir do acidente que vitimou Diana, Princesa de Gales, em 1997 - o respectivo capítulo chama-se “Axiomas sentimentais” e, através de uma lógica tão desconcertante quanto consistente, desemboca em Giuseppe Verdi e A Força do Destino.Afinal, neste tempo em que a internet é um facto “colossal”, importa repensar as relações clássicas entre as mensagens e os mensageiros. As palavras de Herzog não podiam ser mais justas, quer dizer, possuem a justeza da verdade: “Quando hoje em dia, em fracções de segundo, são transmitidas informações pelo planeta, quem determina a narrativa tem muitas vezes um papel mais decisivo do que a própria realidade subjacente.” .Quem foi Maria, a que visitou Lúcia?