Foto: Pedro Mostardinha
Planteia, jardim comunitário criado na praça da Casa da Cultura de Ílhavo.

Arte pública só para turista ver? Como envolver a comunidade para tornar as cidades mais humanas

Livro ‘Quando saímos à rua, que lugar queremos encontrar – Arte em espaço público e placemaking’ reúne contributos sobre intervenção em espaços públicos e a importância de envolver a população local.
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A arte em espaços públicos tem vindo a ganhar expressão nas cidades portuguesas, na maior parte das vezes para dinamizar os centros históricos e captar turistas. Trata-se de um setor que envolve muitos e variados agentes, desde artistas, promotores e programadores culturais e autarquias. Para unir todas estas partes e contribuir para difundir as melhoras práticas nesta área, foi criada, em 2016, a plataforma Outdoor Arts Portugal, um projeto promovido pela Bússola, uma estrutura especializada em planeamento, financiamento e execução de projetos de criação artística e em placemaking que lançou o livro Quando saímos à rua, que lugar queremos encontrar – Arte em espaço público e placemaking, um projeto financiado pela DGArtes.

"Percebemos que havia a necessidade de trabalhar este setor que era muito específico, que se chama em Portugal 'artes de rua', que por vezes tem uma conotação negativa e que não é estratégica, é o mero palhaço de rua, o músico de rua, mas há muito mais. Este processo evoluiu, era necessário unir o setor, criar condições de desenvolvimento profissional, por exemplo, capacitação, formações, comunicação internacional dos artistas e, em 2016, está a fazer dez anos, surge a Outdoor Arts Portugal", explica Bruno Costa, coordenador, juntamente com Daniel Vilar, do livro.

Esta publicação segue-se a um outro livro, Manual de Boas Práticas para a Organização de Eventos Artísticos no Espaço Público, lançado em 2021. “Ele já é usado bastante pelos municípios, até em concursos públicos para a seleção de técnicos municipais nas áreas da cultura, tem sido já muito referenciado, e sentimos que estávamos num momento de questionar o setor de uma forma mais abrangente, e de forma a podermos ser mais transectoriais e conectar-nos com outras dimensões, como o urbanismo, ou seja, como a arte pode efetivamente contribuir para o desenvolvimento da cidade”, diz Bruno Costa.

Quando saímos à rua, que lugar queremos encontrar – Arte em espaço público e placemaking reúne perspetivas de diferentes geografias, de Portugal, Reino Unido, Espanha, EUA e Canadá, contando com contributos de profissionais com experiência em urbanismo, curadoria e gestão cultural, nomeadamente de Charles Landry, Ramon Marrades, Tiago Mota Saraiva, Jamie Bennett, Karine Décorne, Sud Basu, Rachel Clare, Luís Sousa Ferreira, e os próprios Bruno Costa e Daniel Vilar. E como pretende ser útil para quem trabalha neste setor, inclui um guia de 14 passos para potenciar o placemaking através das artes.

Mas o que é o placemaking, um conceito que é entendido em Portugal de uma forma ainda limitada, consideram Bruno Costa e Daniel Vilar. “A palavra placemaking tem vindo a surgir no léxico em Portugal mas de uma forma muito associada ao urbanismo, à arquitetura, e em alguns casos arriscaria dizer à decoração urbana. Não está errado, mas nós queremos olhar para isso de uma outra forma, o placemaking associado às artes performativas, como é que as artes performativas conseguem transformar o espaço público num lugar de bem-estar, num lugar de simbolismo, mais direcionado para as pessoas, para as tradições, para as memórias, para a criação de lugares de estar, de participar e de viver, e não só lugares de passagem”, explica Daniel Vilar.

“O livro surge para combater esta perspetiva que há de tornar as cidades cada vez mais postais, com mais eventos que são participados pelas pessoas, mas não pelas pessoas que estão lá, sempre focadas no quem visita, e não no quem mora. Por exemplo, o morador do centro histórico muitas vezes nem sabe qual é que é o propósito nem o critério do evento, portanto não o constrói em conjunto com a entidade”, acrescenta.

O termo placemaking surgiu nos Estados Unidos e tem havido uma apropriação da palavra pelo “urbanismo comercial”, consideram. “Mas o que nós acreditamos, e para aí apontam as definições originais do placemaking, tem muito a ver a ideia de devolver o desenho urbano à comunidade. Por exemplo, de que forma uma câmara municipal, no contexto português, vai transformar uma praça. Ou seja, o presidente decidiu que a vai transformar, mas não fechou o processo no município, convida a comunidade a participar ativamente no codesenho do espaço, isto num prisma arquitetónico”, exemplifica Bruno Costa. A questão é “como é que podemos tirar partido das técnicas que estão totalmente enraizadas nas artes participativas para criar mais-valia neste contexto de transformação do espaço e tornar as coisas ainda mais humanas".

Para que estes processos resultem, há entidades que têm que estar alinhadas: “A câmara municipal tem uma importância muito grande, porque tudo parte das políticas do município; depois tem o agente intermediário que é o mediador, aquela entidade que vai fazer este jogo entre o institucional e as comunidades, e depois as comunidades em si”, diz Daniel Vilar.

Um bom exemplo do envolvimento da comunidade na definição do espaço público, apontam, é o projeto Planteia, uma intervenção na praça anexa à Casa da Cultura de Ílhavo promovida pelo 23 Milhas, o projeto cultural daquele município, que transformou o espaço com os moradores da zona, criando um jardim com canteiros, com mais de duas centenas de plantas.

"Quando o município construiu a Casa da Cultura de Ílhavo criou um espaço estéril, sem vida, portanto, foi preciso criar vida e o placemaking, com as suas ferramentas, vai adaptar-se a cada sítio, podem ser ferramentas urbanísticas, artísticas, e de outras disciplinas, que transformem aquele espaço num lugar. E nós dizemos que se transformou num lugar quando ganhou vida, vivência e tem escala humana", diz Daniel Vilar.

O público-alvo de Quando saímos à rua, que lugar queremos encontrar – Arte em espaço público e placemaking, dizem os coordenadores do livro, são os decisores políticos, as pessoas ligadas ao urbanismo, ao design, e também os artistas que trabalham o espaço público.

Para que a arte pública não seja estéril, defendem, as autarquias devem ouvir a comunidade, compreender os espaços e promover, com o autor, a "escuta ativa do território".

"E nós acreditamos que muitos dos autores estarão perfeitamente abertos a isto, porque faz parte do objetivo artístico chegar ao público. Por vezes é mais uma questão institucional, incluir um passo intermédio que pode não representar grandes custos. Quando o autor trabalha ou conhece o espaço, faz a visita técnica, ouve as pessoas ou promove uma reunião para perceber como é que elas compreendem o espaço, passamos para uma nova camada, do decorativo para o simbólico, e para aquilo que tem significado e ajuda a construir uma comunidade", sublinha Bruno Costa.

E muitas vezes, acrescenta Daniel Vilar, "são estes processos de comunidade que dão voz a muitas tensões que existem em lugares que de outra forma não são ouvidos e refletidos. Portanto, muitas vezes estas expressões artísticas acabam por ser a voz de quem habita aquele sítio e tornam-se quase como formas simbólicas e emblemáticas da expressão de tensões".

Advogam a criação de sinergias nas câmaras municipais entre as áreas do urbanismo e da cultura, pois os orçamentos municipais estão "hiper segmentados". "Em detrimento de olharmos para o departamento de Cultura e o departamento de Urbanismo isolados, com os seus orçamentos, como é que se podem começar a criar sinergias e o orçamento da Cultura contribuir para o Urbanismo, e o mapeamento do Urbanismo, se for feito com agentes artísticos, também contribuir para a mediação cultural", propõe Bruno Costa. O desafio, considera, é "maximizar os recursos e criar as sinergias interdepartamentais. Como é que nós conseguimos encontrar os equilíbrios e a sinergias com os recursos que são sempre limitados. Daí este livro dirigir-se tanto aos que trabalham em urbanismo, como aos políticos, como à cultura", observa.

O livro Quando saímos à rua, que lugar queremos encontrar – Arte em espaço público e placemaking encontra-se disponível em todas as bibliotecas públicas e é disponibilizado online gratuitamente em www.outdoorarts.pt.

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