Apresentado numa sessão especial, extracompetição, da edição de 2024 do Festival de Cannes, Aprender, a partir de hoje, 23 de abril, nas salas portuguesas, é um extraordinário objeto de cinema. E tanto mais quanto esta realização de Claire Simon (cineasta francesa nascida em Londres, em 1955) desafia, ponto por ponto, o misto de paternalismo e hipocrisia com que, frequentemente, as crianças são apresentadas no espaço televisivo.Sublinhar a sua condição de “objeto de cinema” está longe de ser uma mera questão formal, muito menos formalista. Isto porque o pequeno ecrã tende a favorecer uma imagem “pitoresca” das crianças, tão superficial quanto determinista. Os mais novos (até mesmo os adolescentes) são mesmo regularmente representados como personagens de uma existência totalmente idealizada em que só podem cumprir um destino redentor, liberto das complexidades que se atribuem ao mundo dos adultos.Ora, “mundo das crianças” e “mundo dos adultos” não existem como duas entidades paralelas, supostamente separadas por uma fronteira nítida e inamovível. O que Claire Simon nos dá a ver é, justamente, um lugar específico — a Escola Elementar Anton Makarenko, em Ivry-Sur-Seine, nos subúrbios de Paris — em que, graças aos meios específicos do cinema, se torna possível observar os impasses e as conquistas, a ousadia e a gratificação que envolve, ou pode envolver, a relação entre “velhos” e “novos”, quer dizer, professores e alunos.O cinema, insisto. Não se trata de colher algumas imagens mais ou menos “divertidas” sobre o quotidiano escolar para, depois, lhes sobrepor uma voz off dominadora, por vezes moralista, sem qualquer relação estrutural com aquilo que estamos a ver. O que Claire Simon filma, ou melhor, o modo como filma é indissociável do tempo de cada acontecimento. Daí um valor primordial que grande parte da informação televisiva vai anulando com os seus loops de bombas a cair e lances polémicos de penalty. Que valor é esse? Pois bem, a duração. Dito de outro modo: a medida humana dos gestos e comportamentos, e também das ideias que por eles circulam.As situações que acompanhamos em Aprender são naturalmente variadas. Assim, por exemplo, assistimos a um exercício em que a professora vai testando a capacidade dos alunos dizerem (e compreenderem) o que é a metade, ou o dobro, de um determinado número. Há também um delirante passeio de barco no Sena em que é pedido aos alunos que identifiquem “aquele” monumento (Notre-Dame). E há momentos de tensão no recreio que suscitam a intervenção de um professor junto da criança agressora, apelando à sua inteligência, sem deixar de lhe dizer que pode ser sujeita a algum tipo de castigo. .Nada disto surge como circunstancial. Aquilo que Claire Simon observa e regista não se confunde com a mera correção da desordem que pode contaminar o dia a dia. Através da discreta sensualidade de uma câmara atenta a todas as variações de rostos e corpos, aquilo que o cinema nos mostra é, em última instância, a definição de uma ordem. A saber: a prática de uma ordem que não cede a qualquer noção “virginal” ou “espontaneísta” do comportamento infantil, antes decorre de uma organização humana que os adultos assumem, sem complexos, como padrão de civilização.Aprender e ensinarO filme de Claire Simon tem suscitado, e por muito boas razões, paralelismos com os métodos documentais do americano Frederick Wiseman (1930-2026), ele que filmou a vida de dois liceus em High School (1968) e High School II (1994). Sem esquecer, claro, a referência de Ser e Ter (2002), de Nicholas Philibert, sobre uma escola primária na zona de Auvergne, na região central da França.São filmes cujas diferenças nos envolvem através do grau de exigência narrativa e depuração moral que rege a aplicação dos meios específicos do cinema. Com eles, e através deles, compreendemos que ensinar não é apenas transmitir o que sabemos, mas também lidar com o que não sabemos — e aprender com isso..Celebrando a utopia de Michael Jackson .'A Mulher Mais Rica do Mundo'. O dinheiro contra o romantismo