Mario Nandayapa Quartet é constituído por pai e três filhos
Mario Nandayapa Quartet é constituído por pai e três filhosFOTO: Leonardo Negrão

Ao ritmo dos Nandayapa, uma família mexicana com a marimba nos genes

O Mario Nandayapa Quartet deu concertos em Lisboa e Vila Nova de Milfontes, mostrando a versatilidade de um instrumento com grande tradição em Chiapas.
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“Nunca houve uma situação de ‘por seres mulher não podes’. Pelo contrário: se gostas, experimenta. Quando comecei, contavam-se pelos dedos as mulheres que tocavam marimba”, conta Tania Nandayapa, que com o pai Mario e os irmãos Mario Jr. e Daniel formam o Mario Nandayapa Quartet, que este mês esteve em Portugal para a participar na festa nacional do México. Extraordinários em palco a tocar Marimba. 

São herdeiros de uma tradição de marimbistas que tem cerca de um século e que nasceu em Chiapa de Corzo, terra no estado de Chiapas, o mais ao sul do México, quando o marceneiro e músico Norberto ofereceu ao filho Zeferino uma pequena marimba e criou um génio. “O meu pai transcendeu com a marimba. Foi ele que a levou praticamente a várias partes do mundo”, explica Mario. 

Zeferino Nandayapa foi depois estudar Direção de Orquestra no Conservatório Nacional de Música, na Cidade do México, e isso levou-o a incluir elementos clássicos na marimba, de forma tão fascinante que se tornou um embaixador musical do México. A sua composição mais célebre é Fantasia Profana, tanto na versão para marimba como na versão para marimba e orquestra sinfónica, explica Mario, que ele próprio recebeu de Zeferino uma pequena marimba para tocar quando era ainda muito jovem. O mesmo aconteceu depois com Mario Jr., Daniel e Tania, conta Patricia, a mãe dos três, que não é música mas os acompanha por todo o lado, “como fotógrafa e arquivista”. Recordando o fascínio dos filhos pela marimba desde muito pequenos, escutando concertos, Patricia conta: “Diziam-me: como é possível manteres três crianças sentadas a ouvir o pai? Eu achava que não têm de ser irrequietas por natureza. Depende do que lhes ensinamos.” 

Sobre os filhos manterem esta paixão pela marimba, Mario diz sentir “uma grande satisfação e orgulho. É muito especial vê-los decidir continuar neste caminho e, ao mesmo tempo, levar o nosso trabalho mais longe, contribuindo com as suas próprias ideias e perspetivas”.

Os mexicanos têm o seu Dia Nacional a 16 de setembro, relembrando o momento em 1810 em que Miguel Hidalgo gritou pela independência face a Espanha. No domingo 13, no Mercado da Ajuda, em Lisboa, uma festa da comunidade, com a presença do embaixador Bruno Figueroa, celebrou a data com muita música, gastronomia e bebida, tudo áreas em que os mexicanos dão cartas.

O Mario Nandayapa Quartet tocou clássicos mexicanos como Bésame Mucho, de Consuelo Velázquez, Huapango, de José Pablo Moncayo; La Bikina e Qué Bonita es mi Tierra, ambos de Rubén Fuentes. “Se falarmos também das peças tradicionais que fazem parte do nosso repertório, devemos incluir Cielito Lindo, de Quirino Mendoza y Cortés”, acrescenta Mario.  

A versatilidade da marimba é tanta que o repertório pode ser adaptado à audiência. Por exemplo, no sábado 12, no âmbito do Festival Terras Sem Sombra, em Vila Nova de Milfontes, o Mario Nandayapa Quartet interpretou Tocata e fuga em ré menor, BWV 565, de Johann Sebastian Bach e Dança ritual do Fogo, de Manuel de Falla. Quem esteve no Forte de São Clemente, aberto ao público por generosidade do casal de proprietários americanos Leigh e Richard Schell, pôde também ouvir Fantasia de Chiapas, outra famosa composição de Zeferino Nandayapa, homenagem à terra que o viu crescer.

Patricia com o marido Mario e os filhos Mario Jr., Tania e Daniel
Patricia com o marido Mario e os filhos Mario Jr., Tania e DanielFOTO: Leonardo Negrão

A Cidade do México é hoje a casa da família Nandayapa, mas a ligação a Chiapas é fortíssima. E evidente no apelido. “Quer dizer Rio Verde na língua chiapaneca, falada pelo povo Soctón”, explica Mario Jr. Apesar de Chiapas ser associada aos Maias, os Sócton eram um povo diferente, com uma cosmovisão muito própria. “Os Maias vêm da selva, daí a mentalidade do jaguar. Nós, que vivemos na planície, temos a mentalidade do rio e da natureza”, acrescenta Daniel. 

A conversa está a ser feita numa sala da embaixada mexicana e a família é boa conversadora. Partilham muitas histórias. E riem-se quando reconhecem alguns episódios engraçados contados por um deles. Patricia, emocionada, relembra um concerto no Japão em que no final o público está em lágrimas e vendo-a na assistência, e percebendo quem era, as pessoas a abraçam. “Não percebia o que me diziam, mas foi muito emocionante”.

Impressiona, quando se assiste aos concertos, a espécie de bailado que o quarteto de marimbistas executa enquanto toca, uma sincronia absoluta, que exige saber quando mover o corpo, onde pôr as baquetas. “Mais do que o piano, somos como um órgão: uma voz nas mãos, outra nos pés. Por isso é tão bom adaptar Bach ao ensemble”, diz Daniel.  

Sobre se uma marimba pode ser tocada a solo e se pode ir além dos quatro elementos, Mario diz: “Um tocador de marimba pode apresentar-se a solo. Numa marimba grande como a nossa, podem participar até sete pessoas. No entanto, relativamente poucos tocadores ou grupos de marimba trabalham com estas duas configurações: desde um único músico até um conjunto tão grande”. 

A marimba do Mario Nandayapa Quartet, explicam-me, é construída principalmente de madeira. As teclas são feitas de Platymiscium dimorphandrum, popularmente conhecido por hormiguillo; os ressonadores são feitos de cedro, e a estrutura é feita principalmente de pinho, com incrustações e elementos de mogno, cedro e outras madeiras. O hormiguillo é uma árvore que cresce em Chiapas, e foi com a sua madeira que Norberto Nandayapa deu origem a esta tradição familiar.

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