Anne Carson e a audácia de pôr em diálogo tradição clássica e literatura contemporânea
Foi a varrer o chão da cozinha e a “ouvir o vento” na sua casa na Islândia que a chamada do Comité Nobel a anunciar-lhe que vencera o prémio da Literatura apanhou Anne Carson. A escritora canadiana foi distinguida “pela sua obra ousada e inventiva que, num diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”, anunciou ontem Ingrid Carlberg, secretária permanente da Academia Sueca.
“Ao longo de toda a sua carreira, Anne Carson conciliou a escrita de poesia com o trabalho de tradução e o ensino em várias universidades. Quase toda a sua produção literária se tem centrado no cruzamento entre a obsessão do filólogo pelas palavras e o desejo do poeta de encontrar novos significados. A própria autora identificou a etimologia das palavras como o ponto de partida de toda a sua obra”, destacou ainda a academia.
Dando os parabéns a Anne Carson por “uma conquista extraordinária e um momento de orgulho para o Canadá”, o primeiro-ministro Mark Carney reagiu ao Nobel no X. E lembrou que “com humor, imaginação e um estilo totalmente próprio, a poetisa canadiana Anne Carson reinterpretou os clássicos. Ela levou histórias antigas a novos públicos e transformou a forma como pensamos sobre a literatura.”
“Orgulho” foi também o sentimento destacado pela Encarregada de Negócios a.i. da embaixada do Canadá em Lisboa. “Os canadianos ficam sempre encantados e orgulhosos ao ver as conquistas dos seus concidadãos reconhecidas a nível internacional, especialmente pelo prestigiado Comité do Prémio Nobel. Como terceira laureada com o Prémio Nobel da Literatura nascida no Canadá, Anne Carson continua a destacar a força e a criatividade dos escritores canadianos, em todos os géneros e ao longo de várias décadas”, disse ao DN Lisa Rice Madan. Antes de Carson, o principal prémio de Literatura mundial já distinguira dois nascidos no Canadá: Alice Munro, em 2013, e antes, em 1976, Saul Bellow, nascido em Lachine, na província do Quebeque, mas criado nos EUA e com nacionalidade também americana.
Apesar de Carson liderar --a par da chinesa Can Xue - as listas de apostas deste ano, quando ouviu o nome da escritora canadiana ser anunciado em Estocolmo o editor João Concha não deixou, mesmo assim, de ficar surpreendido. “Houve alguma surpresa. Quando saiu a primeira tradução de Anne Carson em Portugal, ela não estava, ou pelo menos eu não me recordo de a ver lá, na lista de apostas. Quando isso começou a acontecer, em anos mais recentes, eu não acreditava que pudesse ganhar, porque se trata de uma autora bastante experimental, muito conhecida no mundo anglo-saxónico, mas um pouco arredada de um certo circuito mediático e mais comercial. Portanto há alguma surpresa nesta notícia”, admitiu o fundador da não (edições) .
Esta editora independente publicou vários livros de Carson em Portugal, começando por Autobiografia do Vermelho, seguindo-se A Beleza do Marido, Vidro, Ironia e Deus, Agualisa e Homens nas Horas Vagas.
O ensaio Eros, o amargo e doce foi publicado em Portugal pelas Edições 70 em 2024. A chancela do Grupo Almedina reagiu ao Nobel destacando o facto de esta primeira obra da escritora canadiana ser um dos 100 melhores livros de não-ficção de sempre escolhidos pela editora americana Modern Library.
Já o seu livro Antigotriz foi editado em Portugal pela Companhia das Ilhas com o Teatro da Rainha.
Paixão pelo grego e latim
Nascida em Toronto há 76 anos, foi por causa da profissão do pai, bancário, que Anne Carson cresceu em várias pequenas cidades, onde este ia sendo colocado. No liceu, uma professora de latim acabou por traçar o rumo da futura escritora, ao ensinar-lhe não só essa língua mas também grego durante a hora de almoço.
Assim nascia uma paixão pela Antiguidade clássica, os seus poetas, os seus filósofos e os seus mitos, que não só marcou a formação de Carson (doutorou-se em Estudos Clássicos em 1981) como toda a sua obra literária.
Ao longo da sua carreira, Carson desenvolveu uma obra onde se destaca também a sua forma de jogar com as palavras. Um método de escrita que segundo Anders Olsson, presidente do Comité Nobel, “dá origem a obras lúdicas e irónicas que transitam não só entre a poesia clássica e moderna, mas também entre diferentes géneros e formas de arte.”
Além de escritora, Anne Carson é também tradutora. Entre as suas traduções do grego clássico, consideradas obras autónomas, destacam-se If Not, Winter, uma interpretação dos fragmentos poéticos de Safo, e tragédias como Electra e Antigona, de Sófocles, e Bakkhai, de Eurípides.
Publicado em 1986, o ensaio Eros, o amargo e doce lançou, segundo a Academia Sueca, as bases da sua obra posterior. Nele, Carson explora a conceção do amor na poesia de Safo, marcada pela coexistência da dor e prazer.
Este conceito de confronto de diferentes vozes e perspetivas, atravessa também obras como Economy of the Unlost, em que cruza a obra do poeta grego Simónides de Ceos, do século VI a.C., e a do poeta Paul Celan, e Homens nas Horas Vagas, em que estabelece relações entre Tucídides e Virginia Woolf.
Na década de 1990, Carson publicou Vidro, Ironia e Deus, que inclui Ensaio do Vidro, um longo poema sobre a perda e o amor não correspondido. E em 1998 chegou às bancas Autobiografia do Vermelho, apontado como uma das suas obras mais importantes. Nela recupera o mito grego de Gérion, o monstro morto por Héracles, transformando-o numa personagem sensível que vive uma história de amor com o herói que acabará por destruí-lo.
Foi esta a primeira obra de Anne Carson que João Concha quis publicar em Portugal. “Eu comecei por editar o meu livro preferido”, confessa ao DN. E como co-tradutor dessa obra (com Ricardo Marques) admite que “foi provavelmente das coisas mais difíceis de traduzir com que já me cruzei. Para que o português soasse idiomático e, ao mesmo tempo, respeitando o tom do original, foi preciso um trabalho exigente e demorado.”
Apesar da dificuldade, João Concha admite que “não será dos livros de Carson mais difíceis de traduzir”, uma vez que “o registo formal do Autobiografia do Vermelho é mais ou menos uno, do princípio ao fim, é um romance em verso.” E o editor deixa a devida homenagem a Tatiana Faia e Rui Cascais Parada, cada um tradutor de dois livros de Carson.
Publicado em 2001, A Beleza do Marido “narra uma discussão mordaz e sarcástica com um marido infiel, cujos vinte e nove episódios começam, cada um, com versos do poeta romântico John Keats”, recorda num texto publicado no site do Nobel, o presidente do Comité. Para Anders Olsson, outra obra “inesquecível” de Carson é Nox, na qual homenageia o irmão Michael, que morreu na Dinamarca em 2000 após anos de afastamento, através de uma obra que combina fotografias, cartas e textos, apresentada numa caixa com páginas desdobráveis em acordeão.
Entre as obras mais recentes estão Float, de 2016, composta por 22 pequenos livros sobre diferentes temas que podem ser lidos por qualquer ordem, e Wrong Norma, de 2024, que reúne textos de diferentes géneros e explora as relações entre literatura, artes e outras disciplinas.
Fã confesso da agora Nobel, João Concha explica que o que o seduz na escrita da canadiana é “a conjugação de uma certa capacidade de não dizer ou de dizer não dizendo. Ou seja, ela conjuga um tom às vezes elíptico com um tom cortante. E, portanto, esse efeito do inesperado é muito forte. Há passagens muito surpreendentes. Eu acho que dificilmente alguém ficará indiferente, goste ou não da experiência de leitura, à escrita da Anne Carson”.
Quanto a expectativas de vendas agora que a autora venceu o Nobel, o editor confessa: “as edições de Anne Carson por cá tiveram pouca atenção. A receção crítica foi escassa, salvo honrosas exceções” e “parece que foi preciso um Nobel para que as atenções se virassem para a Anne Carson em Portugal.”
O vencedor do Nobel recebe 12 milhões de coroas suecas - mais de um milhão de euros - e na cerimónia em Estocolmo a 10 de dezembro, ser-lhe-à também entregue uma medalha em ouro e um diploma.

