A turma de repetentes dos prémios de Hollywood

Quem vai beneficiar com a temporada dos prémios de Hollywood? Nicole Kidman, Andrew Garfield, Lady Gaga, Denzel Washington ou Will Smith são alguns dos muitos nomes mais falados. Antes dos Óscares, é agora que os filmes de prestígio fazem as suas apostas para os primeiros prémios desta temporada. E este ano há congestionamento de talento.

Estamos longe de 27 de março de 2022, data da realização da próxima cerimónia dos Óscares, mas numa altura em que se desvendam alguns dos prémios da imprensa americana é por estes dias que se jogam os grandes trunfos desta temporada. A imprensa americana e os estúdios estão ao rubro com este período no qual se começam a lançar até ao final de dezembro os candidatos a candidatos. Uma temporada de prémios que já parece congestionada e na qual os cinemas portugueses estão com alguma parte dos títulos falados, embora nas plataformas, talvez mais do que nunca, se joguem cartadas fortes. Se a nível da corrida do melhor filme são muitos os títulos apontados, obras como Belfast, de Kenneth Branagh, West Side Story, de Steven Spielberg, O Poder do Cão, de Jane Campion, e King Richard- Para Além do Jogo, de Reinaldo Marcus Green começam a ganhar tração de favoritismo, é conveniente ter em conta que ainda faltam estrear filmes com "hype" fortíssimo como Licorice Pizza, de Paul Thomas Anderson, Não Olhem para Cima, de Adam McKay ou Being the Ricardos, de Aaron Sorkin.

De uma coisa podemos estar certos, esta vai ser uma awards season em que a corrida dos atores vai estar mais escaldante do que nos últimos anos. Trata-se de uma temporada que está a dar grandes interpretações e é por aqui que pode estar o mais aliciante nesta ante-câmara para as nomeações, primeiro dos prémios da imprensa, depois das associações e, finalmente, os prémios da Academia. Mesmo sabendo que muitos dos atores costumam aparecer nestas primeiras andanças dos prémios por uma questão de estratégia de marketing dos filmes ou de meros lobbies da imprensa especializada americana, este específico lote de interpretações está realmente a abarrotar de talento. Mais uma vez, com diversidade geográfica, étnica e de estilos.

As senhoras

Por exemplo, nas senhoras, são muitos os que acreditam na glória de uma irreconhecível Nicole Kidman como Lucile Ball em Being The Ricardos, de Aaron Sorkin, dia 21 na Prime Video. Hollywood continua a gostar de uma boa transformação e há também o valor simbólico: ao premiar-se Kidman está-se a celebrar a memória da bem-amada Ball. Mas a concorrência é de peso... Quem viu Kristen Stewart como Princesa Diana em Spencer, de Pablo Larraín, arrepiou-se com o humanismo da atriz que há dois anos se tinha também metamorfoseado em Jean Seberg. Mas em Spencer é fácil de se perceber que se trata do melhor momento da sua carreira.

Já premiada em San Sebastián, Jessica Chastain em The Eyes of Tammy Faye, parece também segura nestas contas. Outra proeza de transformação, mesmo quando o filme não ajuda. Chastain é muito credível como Tammy Faye, campeã de audiências dos televangelistas.

Cada vez a ver as suas chances aumentar está Penelope Cruz em Mães Paralelas, do amigo Pedro Almodóvar. Cruz é intensa no papel de uma mãe que desconfia que a sua bebé possa ter sido trocada na maternidade. Uma interpretação de um refinamento maduro impressionante!

Se "Pe" parece ter caído nas boas graças do "buzz", Olivia Colman em A Filha Perdida, de Maggie Gyllenhaal, é insuperável, neste caso na pele de uma mãe sem vocação de maternidade. Colman está na moda e não é favor nenhum... Para complicar as contas, Jenniffer Hudson em Respect, a biografia "by the book" de Aretha Franklin, não pára de receber elogios e era quase escandaloso não estar na corrida.

À espreita, e convém mesmo não as tirar destas movimentações, temos ainda Frances McDormand em The Tragedy of Macbeth, do marido Joel Coen; Lady Gaga em Casa Gucci, que mesmo com alguma crítica com urticária com o seu sotaque é nesta altura mais favorita após a vitória no círculo de críticos de Nova Iorque, mesmo com a ameaça de Rachel Zegler, a protagonista de West Side Story, surpreendente vencedora do National Board Of Review. E ainda Cate Blanchett em Nightmare Alley - O Beco das Almas Perdidas, cinema de terror de prestígio do mexicano Guillermo Del Toro.

Nas secundárias, a competição não está tão equilibrada e Ruth Negga nesse intrigante Passing/Identidade, de Rebecca Hall, parece estar à frente das projeções. Uma interpretação nas nuvens da perfeição na pele de uma mulher negra dos anos 1950 que vive uma identidade de mulher branca. Na sua sombra, uma atriz afro-americana pouco conhecida, Aunjanue Ellis, a mulher de Will Smith em King Richard - Para Além do Jogo. Não deslumbra mas a Academia costuma preferir consagrar atrizes emergentes nessa categoria.

Belfast, o grande favorito, também tem duas atrizes que podem beneficiar do arrasto do sucesso do filme: a revelação Caitriona Balfe e a consagrada Judi Dench. Muitos são também os que depositam as fichas em Kirsten Dunst em O Poder do Cão; na maravilhosa Marlee Matlin em Coda, filme que a Apple Tv comprou no Festival Sundance e que é uma surpresa de todo o tamanho; e Jessie Buckley, fabulosa em A Outra Filha.

Denzel vs Will

Renhida está também a luta nas interpretações masculinas. Tal como nas senhoras, já se pressente que será um ano a convocar a diversidade, tendo dois atores afro-americanos mais do que garantidos: Will Smith em King Richard- Para Além do Jogo e Denzel Washington em The Tragedy of Macbeth. No caso de Smith, que entretanto venceu o National Board of Review, todos os elogios vão soar a escassos para aquilo que ele faz nesta história do pai de Venus e Serena Williams. De Denzel Washington, reza quem já viu, que este seu herói de Shakespeare é interpretado com uma fúria muito própria e a Apple está a vender muito bem o prestígio deste seu tesouro.

Pela calada, ninguém dava nada por ele ... mas aí está em força Andrew Garfield, em Tick, Tick...Boom!, que dá vida e corpo a Jonathan Larson, o criador de Rent. Quem não valoriza um ator que é um frenesim de vida, que canta e dança como se não houvesse amanhã? Nesta altura do campeonato, já era estranho esta sua interpretação não ser alavancada até às últimas, tal como é o caso de Benedict Cumberbacht, cowboy no Montana a descobrir o seu instinto sexual em O Poder do Cão e já a ganhar favoritismo após a distinção de melhor ator no círculo de críticos de Nova Iorque.. Ou seja, dois britânicos muitíssimo bem encaminhados, mas há ainda Oscar Isaac em The Card Counter- O Jogador, de Paul Schrader. Uma interpretação a fazer lembrar o Robert De Niro dos primeiros tempos...

Com menos hipóteses mas a justificar curiosidade estão : Peter Dinklage, em Cyrano; Leonardo DiCaprio, em Não Olhem Para Cima; Joaquin Phoenix em C"mon, C"Mon e Javier Bardem em Being the Ricardos.

Os atores de elenco

Nas interpretações secundárias o quadro apresenta mais incertezas, embora depois de Casa Gucci haja já um "feeling": o músico e ator Jared Leto é já um favorito automático como o patético Paolo Gucci, o membro do clã Gucci com menos talento. Uma daquelas interpretações que convoca uma certa teatralidade, nomeadamente através de uma transformação física perigosa - se Leto não tivesse percebido o fundo da personagem, o seu jogo "clownesco" ficaria até ridículo. Mesmo assim, há que ter cuidado pois Jamie Dornan e Ciarán Hinds em Belfast estão à frente para uma certa imprensa americana, sendo que é escusado lembrar que quem está nos filmes mais favoritos melhores hipóteses terá.

Também aqui há revelações, como sucede com Troy Kotsur, surdo-mudo que é comovente em Coda - mesmo que não chegue até ao fim nesta caminhada, é alguém que vai beneficiar com esta temporada dos prémios. Não era igualmente imprevisível que JK Simmons em Being the Ricardos estivesse de novo nestas corridas, ele que venceu a temporada dos prémios de 2015 com Whiplash.

E se O Poder do Cão, de Jane Campion, cair nas boas graças das associações, dois dos seus atores não protagonistas também podem sonhar: Jesse Plemons, o "novo" Philipp Seymour Hoffman, e Kodi Smit-McPhee, este sim estupendo no papel de um jovem "queer" no Velho Oeste americano.

Injustiçados

Por falta de lobbies ou por falta de investimentos dos seus produtores, há uma série de atores que não estão a ser falados para esta temporada. Alguns deles mereciam... Veja-se o caso de Adam Driver, perfeito em Annette, de Leos Carax, embora aí a culpa seja do carácter demasiado "indie" deste musical triste com música do Sparks. Mas Driver está também em plano superior em O Último Duelo, de Ridley Scott e talvez demasiado discreto em Casa Gucci, do mesmo realizador.

Outro dos flagrantes casos de uma ausência nestas listas dos presumíveis favoritos é Dakota Johnson, surpreendente em A Outra Filha. A filha de Melanie Griffith e Don Johnson estará a pagar a imagem algo negativa criada pelo sucesso dos filmes da saga Grey...

O próprio Tom Hanks no bem simpático Finch também é um dos casos de esquecimento grave. A sua interpretação neste drama de "sci-fi" produzido por Robert Zemeckis merecia certamente mais alarido, tal como Ed Harris, americano exilado na Grécia nesse precioso A Filha Perdida.

Matt Damon, que é a estrela de Stillwater (em janeiro chega a Portugal nos videoclubes) e de O Último Duelo, é excelente em ambos, mas deverá pagar a fatura da omissão pelo facto desses filmes não terem levado quase ninguém aos cinemas. A própria Halle Berry, estrela e realizadora de Ferida, outra aposta da Netflix, é bem capaz de ficar ignorada, mesmo com transformação física inatacável - fica-se com a ideia que a sua campeã de luta livre é demasiado decalcada de Michelle Rodriguez em Girlfight e de Hilary Swank em Million Dollar Baby.

dnot@dn.pt

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