Memórias de Moçambique: como se faz a história?
Memórias de Moçambique: como se faz a história?

"À Mesa da Unidade Popular". As palavras de que se faz a história

Com 'À Mesa da Unidade Popular', Isabel Noronha e Camilo de Sousa revisitam a herança do processo de independência de Moçambique: um filme sobre a urgência de lidar com as ilusões e desilusões da história.
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Convenhamos que, em Portugal, o conceito de “filme político” e, mais do que isso, as matrizes de abordagem da instância política têm vindo a ser vulgarizadas através do triunfo de um pobre imaginário televisivo. A redução da história a um jogo de contrastes maniqueístas está na moda, a ponto de algumas formas de abordagem dos 50 anos do 25 de Abril se esgotarem em proclamações pueris da “liberdade” como uma espécie de marca publicitária - a complexidade dos tempos vividos sob a ditadura fica reduzida a pó, ao mesmo tempo que a consolidação da democracia se confunde com o pitoresco de uma banal banda desenhada.

Lembrar esta conjuntura social (e as formas de perceção que promove) é importante para percebermos as singularidades de um filme como À Mesa da Unidade Popular, uma produção de Pedro Borges com realização de Isabel Noronha e Camilo de Sousa. Por uma vez, a história - neste caso, a evocação da independência de Moçambique e dos tempos atribulados que se seguiram - não é uma narrativa encerrada em meia dúzia de “símbolos” mais ou menos simplistas, antes uma dinâmica de acontecimentos, pessoas, ideias e desejos sempre aberta a alguma forma de questionamento e reavaliação.

De que se trata, então? Pois bem, de um fluxo de conversas e depoimentos organizado em torno do objecto que o título nomeia. Tal como se escreve nas notas de imprensa do filme: “A Mesa da Unidade Popular fazia parte da mobília que, no período pós-Independência, o Estado moçambicano pretendia atribuir a todas as famílias e reunia a ideia socialista de igualdade e justiça social com o conceito de Unidade Nacional, pressuposto básico da Frelimo para o desenvolvimento harmonioso do País. Hoje, voltamos a sentar-nos a essa mesa, para revisitar o processo de construção de uma Nação e a utopia de uma sociedade mais justa.”

Esquematizando, À Mesa da Unidade Popular organiza-se a partir das memórias de um conceito em que, para o melhor e para o pior, o político se confundiu com o mitológico. A saber: a celebração do “Homem Novo” como princípio básico do desenvolvimento de Moçambique depois da independência de Portugal (proclamada a 25 de junho de 1975). As pessoas entrevistadas refletem as respetivas ilusões e, sobretudo, as muitas desilusões (há mesmo quem aplique a palavra “traição”) ligadas às tragédias da guerra civil.

Não é, entenda-se, um documentário que reduza o presente a um eco linear de tais memórias. Aliás, o presente em que o filme se enraiza envolve componentes emocionais que não se confundem com um qualquer “emblema” ideológico: estamos perante um “tempo novo” em que, no mínimo, passou a ser possível revisitar os traumas do passado, recolocando em perspetiva os contrastes e contradições da sua herança.

O trabalho cinematográfico não se esgota, assim, numa “reprodução” de imagens do passado, sempre intensas, por vezes perturbantes, mas escassas ao longo do filme. Mais que tudo, À Mesa da Unidade Popular aposta na reconquista das palavras, na urgência do dizer, como método de libertação da própria história - eis um labor genuinamente político.

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