A Floresta de Estelas de Xi’an: uma biblioteca escrita em pedra
Tendo constatado que o papel era suscetível à deterioração, aos ataques de insetos e à destruição em tempos de guerra, os antigos chineses gravavam alguns dos seus textos mais importantes em pedra. Cada estela parecia um enorme livro de pé sobre o chão. Hoje, os visitantes leem as inscrições como se folheassem livros antigos e pesados, nos quais se conservam tanto tradições intelectuais chinesas como histórias vindas de terras distantes através da Antiga Rota da Seda.
Esta biblioteca de pedra teve origem em 1087, durante a Dinastia Song do Norte. O funcionário local Lü Dazhong verificou que numerosas estelas da Dinastia Tang se encontravam abandonadas em zonas baixas, expostas à chuva e ao vento, em risco de se perderem. Para preservar estes preciosos testemunhos históricos, mandou reunir e transferir as estelas para a área em redor do Templo de Confúcio. Assim nasceu a Floresta de Estelas de Xi’an. Nos séculos seguintes, foram sendo continuamente recolhidas novas inscrições, enriquecendo cada vez mais esta extraordinária “coleção”.
Entre os seus tesouros mais importantes encontra-se um conjunto de clássicos confucionistas: os Clássicos em Pedra de Kaicheng.
Durante a Dinastia Tang, a impressão ainda não se tinha generalizado e os livros eram copiados sobretudo à mão. Quanto mais os textos eram copiados, mais frequentes se tornavam as omissões e os erros, levando à distorção gradual dos textos clássicos. Isto era particularmente importante no caso dos clássicos confucionistas, que abordavam questões relacionadas com a vida, a aprendizagem e as relações com a família, os amigos e a sociedade. Estes textos exerceram uma profunda influência sobre a China durante mais de dois mil anos, tendo sido ainda fundamentais na formação dos letrados e nos Exames Oficiais.
Por essa razão, as autoridades decidiram gravar 12 clássicos confucionistas em mais de uma centena de estelas e expô-los publicamente. Seria algo semelhante à publicação, nos nossos dias, de uma edição oficial cuidadosamente revista, com a diferença de que esta versão estava gravada em pedra. Estudiosos de várias regiões deslocavam-se a Chang’an (atual Xi’an) para, caráter por caráter, comparar os seus manuscritos com as inscrições e corrigir eventuais erros.
Os Clássicos em Pedra de Kaicheng funcionavam, assim, como um grande manual de estudo ao ar livre e, ao mesmo tempo, como uma forma extremamente segura de preservar o conhecimento. Numa época sem imprensa moderna, nem internet, era uma solução simples, mas extraordinariamente duradoura.
Estas estelas, porém, não eram apenas suporte textual. Os próprios carateres nelas gravados eram também obras de arte. A Floresta de Estelas é, por isso, um verdadeiro museu de caligrafia chinesa.
Na China, a escrita não serve apenas para transmitir informação: a caligrafia é, por si só, uma arte visual altamente valorizada. As obras de grandes mestres como Ouyang Xun, Yan Zhenqing e Liu Gongquan chegaram até às gerações posteriores através da gravação em pedra. Na história da caligrafia chinesa, a importância destes nomes pode ser comparada à de Camões na história da literatura portuguesa. Ao percorrer a Floresta de Estelas, é possível apreciar estilos muito diferentes de escrita chinesa. Ao longo de mais de mil anos, inúmeros amantes da caligrafia deslocaram-se até lá para copiar e estudar os traços gravados nas estelas.
Mas a coleção desta biblioteca não se limita à cultura propriamente chinesa.
A antiga Chang’an situava-se no extremo oriental da Rota da Seda terrestre. Por esta vasta rede que ligava a Ásia à Europa, chegavam à cidade mercadores, enviados e religiosos de diferentes crenças, vindos da Ásia Central e Ocidental. Algumas das suas experiências acabaram também gravadas em pedra, tornando-se capítulos muito particulares desta biblioteca.
Um dos exemplos mais representativos é a Estela da Propagação na China da Jingjiao de Daqin (Império Romano). Jingjiao (literalmente “religião luminosa”) era o nome dado, na China da Dinastia Tang, ao cristianismo nestoriano. No topo da estela, a cruz cristã aparece combinada com a flor de lótus, símbolo tradicional associado à pureza na arte chinesa. O texto principal está escrito em carateres chineses, enquanto nas laterais aparecem inscrições em siríaco, língua utilizada na Ásia Ocidental. A sua inscrição relata detalhadamente a história da difusão do cristianismo nestoriano na China durante a Dinastia Tang e o acolhimento que recebeu dos imperadores chineses.
A estela mostra de forma muito direta como uma cultura vinda do exterior, depois de entrar na China, se fundiu com símbolos e formas artísticas locais. Reflete também o ambiente social relativamente aberto da Dinastia Tang perante povos e ideias vindos de fora.
Este tipo de testemunho intercultural não constitui um caso isolado. A Floresta de Estelas conserva igualmente um epitáfio bilingue, em chinês e persa, que regista aspetos da vida de uma família de origem persa na China Tang. Estas inscrições mostram que o encontro entre diferentes civilizações não era apenas uma história excecional, mas sim parte da realidade quotidiana da antiga Chang’an.
Curiosamente, a utilização da pedra para preservar a memória coletiva não foi uma escolha exclusiva da China. No centro de Lisboa, numa fachada junto ao Largo da Madalena, encontram-se antigas inscrições romanas conhecidas como as Lápides das Pedras Negras. Isto mostra que comunidades separadas por enormes distâncias confiaram à pedra os vestígios do seu tempo, deixando-os para serem lidos e interpretados pelas gerações futuras.
Desde a Dinastia Song do Norte até aos nossos dias, a Floresta de Estelas de Xi’an atravessou quase mil anos. Clássicos confucionistas, obras de caligrafia e marcas deixadas pelos contactos ao longo da Rota da Seda permanecem reunidos nesta biblioteca de pedra. Esta biblioteca escrita em pedra continua ainda hoje a abrir, página após página, a sua longa história a cada visitante. E mesmo quem não consegue ler os carateres antigos pode perceber como a cultura chinesa foi preservada e transmitida através da pedra, e sentir como diferentes civilizações aqui se encontraram.
INICIATIVA DO MACAO DAILY NEWS

