A biografia da escritora islandesa Yrsa Sigurdardottir faz lembrar os seus romances policiais ao disfarçar aquilo em que ela se tornou: assume-se como engenheira civil mas é conhecida como a atual rainha do policial nórdico; parece uma mulher cândida mas o que faz aos seus personagens é de uma grande violência; a escrita dos policiais foi antecedida por inocentes livros para crianças.O novo livro agora traduzido para português, Não Podes Fugir, Não Podes Esconder-te, está muito distante desses cinco livros infantis do passado. Explica: “Após ter escrito esses livros, estava cansada do género e decidi parar. No entanto, passado um ano, senti necessidade de voltar a escrever, só que desta vez para um leitor mais maduro. Foi uma decisão fácil porque escolhi escrever os livros que gostaria de ler, os de ficção de crime.” Acrescenta: “Eu não sou fã de crime nem daquilo que por norma esses romances descrevem: homicídios. Dito tudo isto, tenho de confessar que sou uma grande fã de ficção de crime.”Diga-se que o início deste Não Podes Fugir não é para qualquer leitor, pois é preciso ter estômago para as descrições brutais de um cenário em que toda uma família é morta. A autora revela a razão deste policial: “Lembrei-me de uma situação destas que aconteceu na Alemanha (1922) e que continua a ser um mistério por resolver, quando seis membros da família Gruber foram brutalmente assassinados numa quinta na Baviera. O que fiz foi transplantar esse crime para uma fazenda na Islândia, onde alguém executa uma família inteira sem uma razão aparente, só que no meu livro o crime é resolvido.”Será que na Islândia acontecem muitos assassinatos e crimes? Yrsa responde: “Agora, há mais do que antes. A criminalidade está a aumentar, mesmo que a comparação seja entre dois antes e oito no ano passado. Geralmente, o assassino conhece a vítima e raramente é uma violência sem uma razão muito específica. É muito comum ser um vizinho e devido a desavenças.” O que não é assim tão comum foi a particularidade que Yrsa colocou na sua mulher-polícia: ser negra. Diz: “Acharam que não seria credível na Islândia e até que eu seria crucificada. Falei com uma mulher que tinha sido levada para a Islândia ainda muito nova e ela pediu para eu o fazer porque ninguém escrevia sobre personagens assim. Ainda me questionei sobre como abordar a questão e o que fiz foi falar com mulheres negras jovens que vivem na Islândia.”É hora de perguntar à escritora se os seus policiais fizeram com que o crime aumentasse na Islândia? Responde à ironia: “Não, até porque os crimes na ficção geralmente são muito mais elaborados do que os perpetrados por um assassino verdadeiro, que age na maioria das vezes sem um planeamento antecipado.” Falando de plano, como é que Yrsa estrutura um livro: “Começo com um conceito mas sem saber qual vai ser exatamente a história; neste caso era a de uma família assassinada. Aí, escrevi o primeiro capítulo, em que alguém se confronta com o acontecido. A seguir, no segundo capítulo, aparece a polícia… ao décimo capítulo já sei o que quero fazer do livro, quem era aquela família, quais as ligações deles com outras pessoas. O livro vai então seguindo por três linhas diferentes mas que se unem no final.”A escrita de Yrsa Sigurdardottir confirma-se neste policial como das mais conseguidas no chamado policial nórdico através de um registo que seduz o leitor por via de um suspense constante e em que, por exemplo, num capítulo descreve uma situação que os investigadores não entendem e no seguinte ela é explicada ao leitor pela voz de um membro da família. Ou seja, o leitor vai frequentemente avançado em relação ao desenvolvimento da investigação, mesmo que não lhe sejam dadas informações que façam perder o interesse pela narrativa. Há duas razões para esta forma de estimular a leitura estar presente: primeira, diz Yrsa, “Este é o meu 17.º livro”. Segunda, acrescenta: “Além de ser uma forma divertida de escrever, o fazer acontecer algo inesperado e a seguir oferecer a explicação, evita que seja preciso esperar pelo fim para explicar tudo ao leitor. Daí que os meus finais não sejam tão extensos como os de muitos autores que necessitam do último capítulo para esclarecer tudo o que ficou por dizer.”A que se deve esta forma de escrever? Yrsa Sigurdardottir dá algumas pistas: “Eu leio desde que era criança e por isso fui entendendo o modelo que vários livros seguem para contar a sua história. Depois, porque sou engenheira e continuo a trabalhar num setor que é muito complicado, sei olhar para um projeto complexo e confirmar que está tudo no lugar certo. A partir daqui, planear um crime para um livro não é nada difícil. Como o mais complicado já foi montado na minha cabeça, o que falta é escrever. Que é um trabalho muito solitário e obriga-nos a conviver muitos meses com os personagens. Entretanto, vou enviando um capítulo de cada vez ao meu editor, a quem acontece o mesmo processo que ao leitor, o não saber exatamente qual é o rumo do livro.”A escrita dos romances costuma ter uma periodicidade semelhante: dez meses cada; o título só é encontrado quando está a terminar; não escreve em qualquer estação do ano, antes tenta começar os livros no verão. Serão estes os ingredientes que fazem com que seja chamada de rainha do crime nórdico? Yrsa começa por referir: “A Islândia é uma cultura escandinava mas não é geograficamente escandinava.” Depois, faz a história do género naquela parte do mundo: “É bom ter uma marca como esta do policial nórdico porque o leitor sabe o que irá ler, apesar de cada escritor ter o seu estilo. Um dos primeiros autores foi Henning Mankell, depois veio Stieg Larsson e o seu sucesso foi muito importante para todos os escritores nórdicos.” .NÃO PODES FUGIR, NÃO PODES ESCONDER-TEYrsa SigurdardottirQuetzal512 páginas CRUZEIRO DO SUL PARA DESCOBRIRÉ uma das melhores notícias do ano no mundo editorial português, o início de uma nova coleção da Editorial Caminho para divulgar nomes da literatura muito conhecidos, mas pouco ou nada publicados em Portugal. A orientação ainda é um pouco desconhecida, sendo os três primeiros livros de autores africanos - Egito, Quénia e Nigéria -, no entanto, o que se refere na apresentação é que a Cruzeiro do Sul terá “o foco em autores de geografias emergentes e pouco publicados em Portugal”. Uma situação está certa, é desta vez que os leitores portugueses deixam de saber que Ngugi wa Thiong’o tem uma obra que mereceu estar frequentemente nas listas de candidatos ao Nobel e que não a podiam ler em tradução nacional. E o romance escolhido, Um Grão de Trigo, é a melhor introdução; uma história que tem como pano de fundo a colonização inglesa e um protagonista cuja crise interior cresce com a aproximação do fim do domínio britânico. Uma obra que poderá dizer muito aos leitores do último país com um império colonial. .UM GRÃO DE TRIGONgugi wa Thiong’oCaminho440 páginas Em Busca, de Naguib Mahfouz, autor mais traduzido para português, é também uma obra inédita e considerada das mais importantes no conjunto da sua obra. A história de um jovem em busca da identidade após uma descoberta familiar. O terceiro volume desta coleção será o aclamado Os Pescadores de Chigozie Obioma. Uma sugestão: Chinua Achebe, um outro esquecido. .EM BUSCANaguib MahfouzCaminho183 páginas .Cozinhar a vingança em fogo lento