Esteve no Porto no âmbito da Porto Academy, para uma conversa com Eduardo Souto de Moura sobre o tema da arquitetura enquanto infraestrutura. Como surgiu esse convite? Respondi a um convite muito simpático, que junta vários arquitetos, de diferentes gerações, e muitos jovens. Foi isso que me interessou nesta troca de ideias. Para além, claro, da continuidade do diálogo com Eduardo Souto de Moura. Gosto muito do Eduardo, gostamos muito um do outro, por isso foi uma conversa entre amigos.Como nasceu essa relação? Conhece bem a obra de Souto de Moura?Conhecemos bem o trabalho um do outro, mesmo à distância. Souto de Moura tem um estilo bastante radical, eu também. Estas são características, não só de personalidade, mas também de design, de pensamento, que são muito próximas. Os nossos caminhos cruzaram-se no projeto do metropolitano de Nápoles. O Eduardo, com o Álvaro Siza, criou a estação chamada Municipio, que está ligada ao mar, à estação marítima, e eu criei a estação de metro ligada ao comboio, que ficava a algumas centenas de metros de distância. Os nossos caminhos cruzaram-se com frequência em Nápoles..Referiu os dois maiores nomes da arquitetura portuguesa, Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura. Claro que conhece a obra destes dois grandes nomes, mas como vê a nova arquitetura portuguesa? Algum outro nome de que goste?Nova arquitetura, talvez não, mas tenho uma ligação com Carrilho da Graça, com quem viajei para o Prémio Mies van der Rohe na América do Sul. O Prémio Mies van der Rohe sempre foi muito interessante porque o júri viaja; visita todos os projetos finalistas durante uma semana, por isso passámos tempo juntos que é obviamente muito agradável, mas também muito intenso em termos de discussão. Carrilho da Graça é também um arquiteto português que admiro muito e que é um amigo.Quando pensamos no Porto, pensa-se num arquitecto francês, Gustave Eiffel, e na Ponte D. Maria Pia. Quase 150 anos depois da construção desta ponte, o nome de Eiffel continua ligado à cidade do Porto. Esta é a maior herança que um arquiteto pode deixar ao mundo?Sim, o que fazemos, para o bem e para o mal, deixa vestígios, e esses vestígios, se se mantêm relevantes - e quando digo relevantes, quero dizer relevantes em relação às nossas culturas e sociedades -, são obviamente um legado. Para um arquiteto, é o legado mais belo.Em 1989, venceu o concurso para a Biblioteca Nacional de França aos 36 anos. É raro um arquiteto atingir o auge tão jovem. Isso foi positivo para a sua carreira? Em 2021, disse numa entrevista ao Le Monde: “Colocaram-me um rótulo: ‘demasiado jovem, demasiado rápido, demasiado forte’”...A Biblioteca é uma aventura de cinco anos. Foi uma aventura construir um dos maiores edifícios culturais da Europa, dado que a Biblioteca tem mais de 300.000 m² de área construída. Tem aproximadamente o triplo do volume do Centro Pompidou, para lhe conferir uma dimensão mais visível acima do solo. Portanto, a Biblioteca absorveu-me completamente durante anos. Depois, como em França o sucesso nem sempre se traduz no maior carinho dos nossos compatriotas, foi considerado que era “demasiado rápido, demasiado intenso, demasiado grande, demasiado novo”, etc. Todos estes adjetivos fizeram-me sair de França. Foi uma oportunidade fantástica, uma vez que pude construir a minha vida no estrangeiro por mais dez anos. E depois, o regresso a França, porque, afinal, longe da vista, longe do coração. E acabaram por aceitar o jovem arquiteto que decidiu viajar um pouco pelo mundo. Assim, em 2008, o Centro Pompidou dedicou-me uma grande exposição individual. E os franceses puderam redescobrir - ou descobrir - que Dominique Perrault não era apenas sinónimo do arquiteto da Biblioteca de França, mas que existiam outros projetos que, ao longo de várias décadas, surgiram e até foram construídos..Além, então da Biblioteca de França, o Dominique fez o velódromo e a piscina olímpica de Berlim, a ampliação do Tribunal de Justiça e das Comunidades Europeias no Luxemburgo, o centro olímpico de ténis de Madrid, o campus da Universidade Feminina EWHA em Seul, só para dar alguns exemplos. Quando olha para todos estes projetos, há algum que lhe toque mais?Eu diria que... há períodos. A minha geração é privilegiada, porque nasceu com encomendas públicas, com concursos lançados pelo Estado, mas também por todas as cidades de França, e assim tivemos acesso a encomendas públicas, o que não era possível aos arquitetos da geração anterior. Durante a última parte do século XX, trabalhámos de facto em grandes projetos públicos. Os projetos que referiu são projetos públicos, em que o cliente trabalha para o bem comum. Não estão a construir para si mesmos, mas para o bem comum. E é certo que a arquitetura é de interesse público e a sua dimensão cultural é de interesse geral. Portanto, estes são conceitos muito importantes do ponto de vista da posição do arquiteto e também do engajamento político. Porque não se trata de filiação partidária, mas sim de uma encomenda. É um país inteiro, uma cidade ou uma metrópole que dá o exemplo. Os edifícios que surgiram neste período são, obviamente, muito importantes e icónicos. Mas houve outros períodos. Construí muitas instalações desportivas. Não sei bem porquê. São projetos emocionantes. Envolvem sempre grandes espaços e grandes multidões. Nas cidades, são locais muito emblemáticos. Temos tido muito sucesso com estas instalações desportivas. Isso também é algo bastante entusiasmante. E também estamos a construir torres. Atualmente, estamos a construir duas torres em Viena. Uma torre completamente revestida de painéis fotovoltaicos, como projeto arquitetónico. Não se trata de painéis fotovoltaicos simplesmente colocados sobre um edifício como cobertura. Esta é uma experiência muito interessante. Trata-se de um edifício com 180 metros de altura, portanto, uma enorme construção, inteiramente revestida de painéis fotovoltaicos. Outro projeto em curso em Viena é uma torre mais pequena, feita de madeira, com cerca de 120 metros de altura. Também aqui, trata-se de um exercício algo inovador, pois existem muitas construções em madeira. Mas os edifícios de madeira com mais de 100 metros de altura representam um feito bastante singular. Por isso, ainda estamos no campo da experimentação, a explorar novas possibilidades, a construir com estruturas diferentes. E há, obviamente, a questão do planeamento urbano, com o desenvolvimento de grandes projetos urbanos, incluindo o da Aldeia Olímpica de Paris. Este projeto foi muito importante para definir, de certa forma, o que poderia ser um novo bairro na Grande Paris. Há ainda o projeto para a Île de la Cité, que na altura foi uma encomenda do presidente François Hollande, focada em como regenerar esta ilha, que está inteiramente sob controlo público - o Estado para os edifícios e a cidade para os espaços públicos. Estes são temas absolutamente fascinantes, sobre os quais já trabalhámos bastante. Ou seja, há temas e, dentro destes temos também os transportes que, tal como o desporto, faz parte de um bem público. Neste âmbito, construímos a estação de metro Garibaldi em Nápoles e, mais recentemente, em Villejuif, construímos uma estação a 50 metros de profundidade, com luz natural que chega quase até às carruagens do metro. Portanto, os transportes, e os transportes públicos em particular, vistos como espaço público é um conceito relativamente novo. Atualmente temos um projeto muito grande em curso, o maior projeto que já realizámos, com este importante hub no coração de Seul, que contará com três linhas de comboio, estações de metro e muito mais. É um local que será inaugurado em 2030, com um fluxo de 700 mil a um milhão de viajantes por dia. É algo à escala de uma megalópole asiática..Vários desses projetos de que falou estão ligados à sua especialidade, o “groundscape”. Explique-nos um pouco esta ideia de paisagem subterrânea, de integrar os espaços de vida na terra?Isso surgiu de uma forma algo orgânica, sendo a Biblioteca Nacional de França um ponto de referência, uma vez que é um edifício que está em grande parte inserido no solo. Na verdade, há três projetos que constituem as raízes desta paisagem do solo. A Biblioteca Nacional, onde a arquitetura envolve a natureza - uma natureza esculpida no solo, uma espécie de jardim do Éden. Depois, Berlim, onde é exatamente o contrário: a arquitetura está no coração da natureza, no meio de um grande pomar, pelo que os edifícios desaparecem neste vasto espaço verde. E depois EWHA, a universidade na Coreia, onde a arquitetura desaparece por completo, e a arquitetura é, na verdade, a ferramenta para construir uma paisagem.Outra imagem de marca da sua obra é o recurso à malha metálica nos edifícios?É muito interessante, porque é um trabalho que temos vindo a desenvolver desde o tempo da Biblioteca Nacional, ou seja, há 30 anos. É um trabalho que deu um novo material para a arquitetura, completamente inédito. A ideia era construir divisórias, paredes, que não sejam opacas, mas flexíveis. Esta é uma das minhas críticas à arquitetura: a sua dimensão autoritária. Quando se constrói um muro, exerce-se autoridade, separa-se, cria-se um interior e um exterior, mesmo sem intenção. O que me interessa é fazer esta crítica do muro, que se liga à questão do groundscape, já que aí não há muros, é a própria terra. É outra relação. E o tecido metálico é uma parede com esta dimensão têxtil. Acredito firmemente no regresso do têxtil à arquitetura. Porque precisamos desta arquitetura nómada, desta arquitetura provisório, desta arquitetura que pode ser instalada em ambientes interiores, como um cenário teatral, mas também em ambientes exteriores, como um abrigo. Precisamos destes espaços, que sejam flexíveis, adaptáveis e abertos. E acredito que a rede metálica é um dos materiais que permite estas construções arquitetónicas, ou seja, estruturas sólidas com resistência estática real. São edifícios, mas que se comportam como estruturas nómadas e flexíveis..Mencionou há pouco a controvérsia. A polémica faz parte da vida de um arquiteto? É preciso abalar um pouco os preconceitos para criar algo novo?A arquitetura é uma arte lenta, pelo que, desde o momento em que começamos a trabalhar num projeto - desde a conceção inicial, as primeiras ideias, os primeiros esboços - até ao momento da entrega e inauguração reservamos pelo menos dez anos. O Tribunal [de Justiça da União Europeia no Luxemburgo] é um projeto que desenvolvemos ao longo de 20 anos. Estamos a trabalhar no grande hub de Seul há 15 anos, e será inaugurado daqui a cinco anos. Assim, quer o arquiteto goste quer não, deve ver para além da encomenda que lhe é feita, pois necessita de ter uma visão que se estenda para além dos dez, 20 ou 30 anos. Obviamente, este tipo de visão, quando surge nas notícias, gera sempre um certo entusiasmo e, ao mesmo tempo, também desperta paixões.Sempre quis ser arquiteto? O pequeno Dominique gostava de desenhar edifícios?Não, o pequeno Dominique não tinha o mínimo interesse pela arquitetura, e o Dominique adulto também não, uma vez que o Dominique adulto queria ser pintor. E finalmente entrou para a faculdade de arquitetura, pensando que, graças a ela, teria dinheiro para comprar tintas. O que não estava totalmente errado, mas é preciso tempo para isso. E os estudos de arquitetura exigem muito tempo, por isso, quanto mais avançava nos estudos de arquitetura, menos pintava e menos tempo tinha para pintar. Assim, o artista transformou-se em arquiteto.Mas o pintor ainda está aí? Imagina-o a reaparecer no futuro?O artista continua presente do ponto de vista do olhar, absolutamente. Do ponto de vista dos seus amores, isso também é certo. Mas o artista já não está presente do ponto de vista da energia. Ser artista é produzir, é trabalhar na própria arte todos os dias. E eu trabalho na minha arte todos os dias, mas não é a pintura.Algum arquiteto que o tenha inspirado?Inspirei-me muito mais nos artistas. Os artistas de land art foram para mim fontes de inspiração. O trabalho de Christo sobre a ausência do objeto também. Para mim, a questão da ausência de arquitetura é uma forma de procura estética, mas também filosófica. O trabalho de Richard Long nas suas intervenções nas montanhas, onde uma linha de pedra revela a dimensão da montanha. Ou ainda Michael Heizer, com o seu trabalho na terra, nos sulcos. Tudo isto fala-me mais do que a arquitetura e, logo, mais do que os arquitetos..Mario Cucinella, o arquiteto italiano que pôs os operários da nova fábrica da Ferrari a ver o verde das colinas