"He dia primeiro d’ maio!” é assim que começa a peça A Farsa de Inês Pereira, um espetáculo de Pedro Penim a partir do original de Gil Vicente, que vai estar em cena a partir de amanhã, dia 12, no renovado Teatro Variedades, em Lisboa, onde ficará até dia 2 de março. A Farsa de Inês Pereira relata a história de uma jovem burguesa que pretende casar para fugir ao mundo do trabalho. Pedro Penim, Diretor Artístico do D. Maria II, transformou esta peça clássica do século XVI numa comédia moderna, mantendo a sua génese, português arcaico e crítica social. Pedro Penim refere em conversa com o DN que sente que é uma obrigação do teatro moderno relembrar o património da dramaturgia portuguesa. “Estive a ler algumas das peças de Gil Vicente. Sou muito fã da sua mestria e da habilidade com que ele construiu as peças”..Entre as diferentes obras do universo vicentino, a escolha d’A Farsa de Inês Pereira surgiu devido à sua modernidade e por ser considerada a “peça mais perfeita”, explica. “Surgiu de forma natural. Percebi que havia naquele texto e naquelas personagens vontade de serem reescrever, porque a maior parte das coisas que estão nesta peça são minhas”, acrescenta o encenador. Pedro Penim menciona ainda que incorporou referências de outras peças de Gil Vicente como a Comédia de Roubena, Quem Tem Farelos?, Auto da Índia e Auto da Barca do Inferno.Para o diretor artístico do teatro D. Maria II, a maior dificuldade foi tentar manter-se fiel ao estilo do Gil Vicente, incorporando a modernidade. “Gil Vicente escreveu naquele verso heptassilábico, que obriga a um condicionalismo bastante rigoroso na escrita. Isso fez-me admirá-lo ainda mais. E por isso, foi de longe o maior desafio, porque eu não sabia naquilo que me estava a meter. Quando estava em frente ao computador, a tentar escrever versos que contassem uma história, muitas vezes, lamentei a minha sorte”, disse Pedro Penim, acrescentando que durante o processo de escrita também se sentiu livre. “Mais para frente, na verdade, eu senti também uma espécie de liberdade, quando este condicionalismo já estava, se calhar, um bocadinho mais interiorizado, ou era mais orgânico para mim”..O elenco conta com Stella no papel de Inês Pereira, Rita Blanco como Violante Pereira, mãe da personagem principal, Ana Tang como Brísida Vaz, a casamenteira, Hugo van der Ding como Diogo Bento, um homem rico, Jude João como Branca Bezerra, a vizinha, Sandro Feliciano como o cavaleiro e Bernardo de Lacerda faz de Fernando.A peça estreou em outubro de 2023, em Évora, e já passou por Portalegre, Setúbal, Amarante, Famalicão e Porto. Agora, chega à capital. Pedro Penim revela que o Teatro Variedades pareceu o espaço ideal para este espetáculo. “Esta peça foi pensada para ser adaptável e para poder viajar. Foi concebida para uma digressão e só agora, no fim da carreira, é que vem a Lisboa. Para mim, é uma inversão bastante curiosa e até me dá algum prazer que esse espetáculo tenha andado a fazer uma digressão pelo o país e só no fim é que venha à capital”. Esta peça faz parte de uma trilogia idealizada por Pedro Penim e dedicada à família, que começou com Pais & Filhos, em 2021, e a que se seguiu o espetáculo Casa Portuguesa, em 2022. No entanto, o Diretor Artístico do D. Maria II revela que a ideia inicial não era criar uma trilogia e só surgiu depois da estreia da Casa Portuguesa. “Havia já um diálogo bastante próximo com a peça Pais e Filhos”..Com esta trilogia, Pedro Penim pretende passar a ideia que a família pode ser um lugar seguro, mas também um espaço de violência. “Essas duas possibilidades muitas vezes convivem até nas mesmas famílias. Isto tem um potencial tão grande que não se esgotaria numa só peça. Então, por isso, surgiu a ideia de escrever três peças muito diferentes entre si”.A Farsa de Inês Pereira é considerada a mais “leve” e mais cómica das três. “Mas fala sobre os desafios da família, o que é a família hoje em dia, como é que ela se alterou”, acrescenta.Este espetáculo vai também marcar o arranque da programação de 2025 do teatro Dona Maria II. O edifício no Rossio, em Lisboa, encontra-se em obras de requalificação, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência, levando à criação de um programa de atividade cultural pelo país. A programação em Lisboa irá contar com diversas produções na Sala Estúdio Valentim de Barros, um concerto teatral no Coliseu dos Recreios, seis produções que passaram pelo Teatro Variedades e uma apresentação no Mosteiro dos Jerónimos. Pedro Penim explica que o objetivo é continuar a apresentar espetáculos pelo país. “Acho que há muitos ensinamentos a reter daquilo que aconteceu e nem tudo é possível fazer da mesma maneira. Queremos manter esta ideia de continuarmos a viaja com os nossos espetáculos, mas também várias atividades. É isto nos parece que é uma missão muito clara e um desígnio daquilo que é um teatro nacional”.O preço dos bilhetes é de 12 euros. mariana.goncalves@dn.pt