Esta terça-feira, 31 de março de 2026, o Centro Espacial Kennedy respira uma ansiedade que não se sentia desde os tempos da Apollo. A escassas 24 horas da abertura da janela de lançamento da missão Artemis II, agendada para 1 de abril, os quatro astronautas — Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen — já se encontram na Florida, finalizando os rituais de quarentena e revendo os protocolos de emergência para aquela que será a viagem das suas vidas.O objetivo é simples em teoria, mas hercúleo na prática: levar quatro seres humanos a contornar a face oculta da Lua e trazê-los de volta em segurança. Será a primeira vez, em mais de meio século, que olhos humanos verão o "nascer da Terra" sobre o horizonte lunar de forma direta. Sejamos mais exatos: a última vez que um ser humano saiu da órbita terrestre baixa do nosso planeta (LEO – Low Earth Orbit) foi há 53 anos e três meses, em dezembro de 1972, durante a missão Apollo 17, a última do programa lunar original. De então para cá, apenas nos limitámos a “molhar as pontas dos pés” no grande oceano galáctico, parafraseando uma frase do físico Carl Sagan.E este novo “mergulho” – ainda que em “águas rasas” aqui da vizinhança – protagonizado pela tripulação da Artemis II, não é um evento isolado. Será o teste de fogo para um ecossistema tecnológico que pretende tornar permanente a presença humana no espaço profundo.Um caminho tortuoso assombrado pelo passadoPara chegarmos a este momento, foi necessária uma dose industrial de paciência e rigor técnico. O lançamento, originalmente previsto para novembro de 2024, sofreu um efeito dominó de atrasos que testou a resiliência da NASA e a paciência do Congresso dos EUA.O primeiro grande sinal de alerta veio da missão não-tripulada Artemis I: ao regressar à Terra, o escudo térmico da cápsula Orion – a nave da tripulação – sofreu uma erosão inesperada. Pedaços do material ablativo desprenderam-se de forma irregular, um fenómeno que, se ocorresse com seres humanos a bordo, poderia comprometer a integridade do aparelho na reentrada a 40.000km/h.A NASA passou meses a simular este cenário em túneis de vento e modelos matemáticos, recusando-se a avançar sem compreender cada milímetro da física envolvida. A isto somaram-se falhas críticas nas baterias de reserva e anomalias nos sistemas de suporte de vida (ECLSS), responsáveis por reciclar o oxigénio e remover o dióxido de carbono.Mais recentemente, já em fevereiro deste ano, o "ensaio geral" para a missão (o chamado Wet Dress Rehearsal) revelou fugas de hélio no estágio superior do foguetão SLS (Space Launch System – o aparelho mais poderoso construído pela agência espacial norte-americana desde o Saturn V, desenvolvido por Wernher von Braun e que impulsionou as Apollo até à Lua). O hélio, embora não seja um combustível, é vital para pressurizar os tanques de hidrogénio e oxigénio líquido..A NASA, fiel à sua filosofia de "tolerância zero ao erro", não hesitou: o colosso de 98 metros e 2,6 milhões de quilos de combustível teve de recuar para o hangar (VAB – Vehicle Assembly Building) para reparações de última hora. "Nós só lançamos quando sabemos que vai funcionar", tem sido o mantra de Jared Isaacman, o administrador de uma agência que permanece assombrada pelos fantasmas dos falhanços catastróficos dos vaivéns espaciais, que, ao todo, mataram 14 pessoas. Assim se justificou o mês de espera adicional que nos trouxe até este final de março.Grande reviravolta estratégica: o abandono da estação orbitalEnquanto ultimava a Artemis II para o seu voo inaugural, a administração da NASA anunciou, na semana passada (a 24 de março) uma mudança radical no seu roteiro lunar: a estação orbital Gateway foi oficialmente colocada “em pausa”. A estrutura, que deveria servir de "porto de abrigo" na órbita da Lua, foi considerada um desvio de recursos face à urgência de estabelecer presença física no solo.Desta forma, o Artemis Base Camp tornou-se o foco imediato. A aceleração deste projeto deve-se, em grande parte, a pressão geopolítica: a China, em parceria com a Rússia, tem avançado a passos largos no projeto ILRS (International Lunar Research Station), planeando uma base robótica e humana para 2030.."Nós só lançamos quando sabemos que vai funcionar", tem sido o mantra de Jared Isaacman, o administrador da NASA, uma agência que permanece assombrada pelos fantasmas dos falhanços catastróficos dos vaivéns espaciais, que, ao todo, mataram 14 pessoas..Nesta nova corrida espacial, os EUA não querem apenas "chegar primeiro", querem ocupar os locais estratégicos no Polo Sul lunar, onde crateras em sombra perpétua escondem depósitos de gelo de água.O plano revisto para o Base Camp prevê agora que, a partir de 2028 (no que será a missão Artemis IV), se inicie a construção de uma infraestrutura robusta que incluirá habitats modulares – estruturas pressurizadas que permitirão estadas de 30 a 60 dias, equipadas com laboratórios de geologia e biologia; microrreatores de fissão nuclear, para garantir energia ininterrupta, mesmo durante a noite lunar de 14 dias terrestres, quando os painéis solares são insuficientes para manter o aquecimento; e o desenvolvimento de dois veículos, o LTV (um rover aberto para missões curtas) e o LPR (uma "autocaravana" pressurizada que permitirá aos astronautas explorarem centenas de quilómetros sem necessidade de usarem fatos espaciais constantemente).Elon Musk: O aliado concorrenteNeste longo trajeto, o papel de Elon Musk e da sua SpaceX é ambivalente. A empresa privada de exploração espacial é o braço tecnológico que garantirá o Starship HLS (Human Landing System) – o veículo que fará o transporte entre a órbita e o solo. Dito de outra forma, sem Musk, a NASA tem o carro, mas não tem o elevador para chegar à garagem lunar.Contudo, as ambições do multimilionário transcendem os contratos governamentais. Em fevereiro, Musk surpreendeu ao afirmar que o seu foco tinha deixado de ser, para já, a chegada a Marte e se tinha virado para a Lua, mas reafirmou que quer construir uma "Cidade Lunar" como um degrau necessário para a colonização do Planeta Vermelho..Existe aqui uma "coopetição" (cooperação + competição) fascinante. A NASA utiliza a eficiência da SpaceX para manter o programa Artemis vivo (...), enquanto Musk utiliza a legitimidade e o financiamento da NASA para construir a frota que, um dia, poderá tornar a agência espacial apenas um de muitos “clientes” a passar pela Lua.. Para o fazer, Elon Musk está a usar os biliões de dólares dos contratos Artemis para financiar o desenvolvimento da Starship, uma nave que pretende lançar em massa, independentemente das quotas da NASA. E com vantagem: uma vez que o Space Launch System (SLS) da agência espacial norte-americana utiliza tecnologia dos anos 80 e uma filosofia tradicional, e é bem mais caro para pôr em órbita – cada voo tem um custo (excluindo a cápsula Orion) na ordem dos 2,5 mil milhões de dólares. Já a Starship de Musk, ainda que com uma potência inferior, será capaz de chegar à Lua um custo atual de cerca de 100 milhões. E cada foguetão é reutilizável, ao contrário do aparelho da NASA, que vai totalmente para o lixo…Existe aqui uma "coopetição" (cooperação + competição) fascinante. A NASA utiliza a eficiência da SpaceX para manter o programa Artemis vivo perante um Congresso cético com os custos, enquanto Musk utiliza a legitimidade e o financiamento da NASA para construir a frota que, um dia, poderá tornar a agência espacial apenas um de muitos “clientes” a passar pela Lua.NASA vs. SpaceX: Duas escolas, um destino comumHá um rigor quase monástico na NASA que contrasta quase irritantemente com a cultura da sua principal parceira comercial, a SpaceX. Enquanto a agência governamental opera sob a filosofia Safe Life – onde cada componente é certificado para “nunca falhar” durante a sua vida útil –, a empresa de Elon Musk prefere o método iterativo: Fail Fast, Learn Faster (falha depressa, aprende ainda mais rápido).Para a SpaceX, a explosão de um protótipo Starship no Texas não é vista como um fracasso, mas como uma sessão de recolha de dados em alta velocidade. Esta agilidade permitiu à empresa de Musk desenvolver capacidades de reutilização que a NASA considerava impossíveis há uma década. No entanto, nesta missão Artemis II, as duas filosofias fundem-se numa simbiose necessária. A NASA fornece a segurança comprovada da cápsula Orion e a potência bruta do SLS para a saída da Terra, mas sabe que a logística das fases seguintes dependerá da arquitetura disruptiva da SpaceX. É um casamento de conveniência entre a cautela institucional e a audácia empreendedora.Está muito em jogo esta quarta-feiraQuando os motores RS-25 do SLS ganharem vida na quarta-feira, dia 1 de abril, muita gente poderá achar que é mentira, tanto esta promessa foi adiada. Mas não será apenas a reputação da NASA que estará na rampa de lançamento. Estará o futuro de uma economia lunar que promete extração de recursos, turismo espacial e uma nova plataforma para a ciência profunda.Se a Artemis II for bem-sucedida – como esperam todos os que percebem que a Humanidade, para ter futuro, precisa transformar-se numa civilização espacial –, a porta para a permanência definitiva no espaço estará aberta. É que se falhar, o recuo poderá ser de décadas não apenas para os EUA, mas para o Ocidente em geral, ficando o caminho livre para outras potências globais.A contagem decrescente começou. A Lua, silenciosa e expectante, aguarda o regresso dos seus primeiros visitantes do século XXI..Pessoa, Saramago, Camões e Agustina já estão no espaço. Portugal lança novos satélites