É oficial: a humanidade nunca esteve tão longe da sua "casa". Às 18h56 desta segunda-feira (hora de Lisboa), a cápsula Orion, da missão Artemis II, ultrapassou a marca dos 400.171 quilómetros de distância da Terra, superando o recorde estabelecido pela acidentada missão Apollo 13 em abril de 1970.A barreira caiu sem sobressaltos técnicos, contrastando com o salvamento desesperado de Jim Lovell e da sua equipa há 56 anos. Mas se a precisão matemática foi a nota dominante da navegação, o momento foi preenchido por uma enorme carga emocional vinda do espaço profundo.Um tributo de crateras: "Integrity" e "Carroll"Logo após a confirmação de que o recorde fora batido, o astronauta canadiano Jeremy Hansen tomou a palavra numa transmissão áudio a partir da Orion: "Ao ultrapassarmos a distância mais longínqua que os seres humanos alguma vez viajaram do planeta Terra, fazemo-lo em honra dos esforços e feitos extraordinários dos nossos antecessores", afirmou Hansen, com uma voz nitidamente embargada.Num gesto que silenciou o Centro de Controlo em Houston, Hansen pediu, em nome da tripulação, para batizar duas crateras lunares que os astronautas conseguem observar a olho nu através das janelas da Orion. A primeira, perto da cratera Ohm, recebeu o nome de Integrity, evocando a solidez e a "inteireza" estrutural da nave que os transporta.A segunda, situada junto à cratera Glushko, recebeu o nome de Carroll, um tributo a Carroll Taylor Wiseman, a falecida mulher do comandante da missão, Reid Wiseman. Carroll, enfermeira de cuidados intensivos neonatais, morreu em 2020 após uma batalha contra o cancro. Enquanto Hansen falava, os quatro astronautas abraçaram-se em órbita, partilhando lágrimas que sublinharam a Humanidade por trás dos números da telemetria.O legado da Apollo 13: sobreviver pela gravidadeO paralelo histórico com a Apollo 13 sublinha uma diferença fundamental de objetivos. Para Jim Lovell, Jack Swigert e Fred Haise, o sobrevoo lunar não foi um triunfo científico planeado, mas um salvamento desesperado. Após a explosão de um tanque de oxigénio que paralisou o Módulo de Serviço, a única esperança de regresso residia na utilização da gravidade lunar como uma "fisga" natural.Essa manobra, conhecida como "trajetória de retorno livre", exigiu que a Apollo 13 contornasse a Lua numa órbita muito baixa, a apenas 254 quilómetros da superfície, para garantir que a gravidade os "cuspisse" de volta na direção correta. Algo que foi retratado de forma muito fiel à realidade no filme de Ron Howard, de 1995, com Tom Hanks no papel de Lovell.Na Artemis II, a NASA optou por uma "trajetória de retorno livre híbrida" significativamente mais elevada. Ao passar a cerca de 6550 quilómetros de altitude, a Orion garante uma margem de segurança maior e permite testar os sistemas de suporte de vida em ambiente de radiação profunda, sem os riscos térmicos de uma passagem demasiado rasante. Esta escolha técnica permite preparar o perfil de voo que será exigido à missão Artemis III — a missão que, finalmente, voltará a colocar botas humanas no pó lunar.Mais recordes no horizonteÉ que o outro recorde a ser batido acontecerá, se tudo correr como previsto, às 00h02 (hora de Lisboa), quando a cápsula terá atingido a sua aproximação máxima à Lua, passando a cerca de 6550 quilómetros da superfície envolta na escuridão eterna do nosso satélite natural. Com este feito, a Artemis II reclama oficialmente o título de missão tripulada que mais longe viajou no espaço, superando largamente os 400.171 quilómetros estabelecidos pela acidentada missão Apollo 13, em abril de 1970.Como é que a Orion chega mais longe da Terra se passa mais "alto" (mais longe da superfície) do que a Apollo 13? A resposta reside na combinação da altitude do sobrevoo com a mecânica orbital. Como a Orion descreve um arco muito mais largo (os tais 6550km contra os 254km de 1970), a sua distância em relação à Terra aumenta naturalmente no ponto mais afastado da curva.A isto soma-se o facto de a Lua estar no seu apogeu — o ponto da sua órbita mais afastado do nosso planeta — precisamente esta manhã, 7 de abril. Ao contornar o lado oculto nesta fase e a uma altitude elevada, a Orion levará os humanos a uma fronteira de 406.707 quilómetros de distância da "casa azul", uma marca que a nossa espécie nunca tinha alcançado. O ponto de distância máxima absoluta está previsto para as 00h07 desta madrugada.O silêncio no lado oculto: o isolamento rádioUm dos momentos de maior tensão será o período de blackout de comunicações, previsto para as 23h44 de hoje. Quando a Orion mergulha atrás do disco lunar, a gigantesca massa de rocha e metal da Lua atua como um escudo intransponível para as ondas de rádio. Durante um período estimado entre 30 e 40 minutos, os quatro astronautas tornar-se-ão, tecnicamente, os seres humanos mais isolados da História, sem qualquer contacto com o controlo da missão em Houston.Este silêncio rádio é uma consequência da física que não nos deixa esquecer os perigos do espaço profundo. É precisamente para mitigar estes momentos de "cegueira" comunicacional que a NASA e os seus parceiros internacionais mantêm o compromisso de desenvolver a estação Gateway. Embora o projeto tenha enfrentado sucessivos adiamentos e já não faça parte do suporte às primeiras aterragens, esta estação em órbita da Lua continua a ser a peça central da infraestrutura planeada para o final desta década, servindo como um repetidor crucial para que nunca se perca o contacto com quem explora o lado que a Terra nunca vê.A ciência do "simples" sobrevooPode parecer paradoxal que a NASA invista milhares de milhões de dólares num voo que não pousa na superfície lunar. Contudo, a Artemis II é muito mais do que um teste de engenharia. Enquanto o programa Apollo se concentrou em locais de aterragem relativamente seguros na região equatorial, o foco científico atual virou-se para o Polo Sul e para as "Regiões Permanentemente Sombreadas" (PSR – Permanently Shadowed Regions).Durante a madrugada está marcado um conjunto de operações com as câmaras de ultra-alta resolução e sensores multiespectrais a bordo da Orion para documentar a geologia lunar com um detalhe sem precedentes. O objetivo é identificar depósitos de gelo de água nestas crateras polares, um recurso que poderá ser transformado em oxigénio e combustível para futuras colónias. Além disso, a observação da Terra a partir desta distância única permitirá à equipa recolher dados sobre a nossa própria atmosfera e medir o impacto da radiação cósmica fora da proteção do campo magnético terrestre.Por que razão há uma face sempre ocultaBasta olhar para o céu todas as noites para perceber que a Lua nos mostra sempre a mesma face. Porquê? O fenómeno, conhecido cientificamente como acoplamento de maré (ou rotação síncrona), é o resultado de milhões de anos de interação gravitacional entre a Terra e o seu satélite. Atualmente, o tempo que a Lua demora a completar uma volta sobre si própria é exatamente o mesmo que demora a orbitar a Terra, escondendo para sempre o seu "Lado Oculto" de quem olha a partir do solo terrestre.Uma vez que a Lua nos mostra sempre a mesma face, dado o acoplamento de maré, a única forma de ver o que os quatro astronautas observarão esta madrugada é fazer o que eles fizeram: ir lá. Que sejam os primeiros de muitos mais – tal como escreveu a tripulação da Apollo 11 na placa que deixou no solo da Lua – “Em nome de toda a Humanidade.”