Presidente da Transtejo: "Quando os barcos falham, falham primeiro no Seixal"

Os seixalenses sentem-se os parentes pobres da travessia do rio. A Transtejo admite que eles têm razão.

Ana Paula Silva já não tem mais desculpas para oferecer. É auxiliar de ação médica do Hospital Egas Moniz, às oito tem de chegar ao seu posto para substituir a colega do turno da noite, mas esta semana chegou sempre depois das nove.

"O meu caso não é o pior, ontem estava aí um miúdo desesperado porque ia falhar uma frequência na faculdade e na segunda era uma senhora que tinha consulta com o bebé." Nos últimos dias, metade das travessias do Tejo foram suprimidas a partir do Seixal e os utentes estão revoltados.

"É que é sempre a nós que calha a fava no bolo-rei."

A frase é comum entre os três mil passageiros que diariamente tomam aqui o catamarã para viajar entre o Seixal e o Cais do Sodré. Esta semana, foi pior do que é costume. Principalmente na terça: à hora de ponta, de manhã e ao fim da tarde, várias travessias foram canceladas.

Das seis às nove da manhã os horários prometem 16 viagens entre margens, mas só se cumpriram oito. O mesmo à tarde, entre as 16h30 e as 19h30. Muita gente foi apanhada desprevenida e dezenas de pessoas chegaram mesmo a invadir um dos barcos, o que obrigou à intervenção da Polícia Marítima.

"Um dos problemas é que só colocaram um cartaz a avisar das perturbações na segunda-feira, quando as pessoas já tinham ido para os seus trabalhos", diz Rita Lisboa, que há dois anos e meio trabalha no café da estação, o regresso a Bordo. "Hoje, muita gente pegou nos carros ou apanhou o comboio, encontrou uma alternativa. Outros vieram para aqui três barcos mais cedo. É o costume."

Eram oito da manhã e já não havia pão para servir sandes, nem no café da estação nem a bordo das embarcações - que têm também um pequeno bar.

No pequeno quiosque que existe no exterior do terminal fluvial, Inês Carvalho também ouvia os protestos atrás do balcão: "As pessoas acham que isto acontece sempre no Seixal e é uma injustiça. Tínhamos aqui dois barcos e um foi desviado para Cacilhas."

A presidente da Transtejo admite que os seixalenses têm razão. "Como é a carreira que tem menos passageiros, acabamos por desviar daqui as embarcações quando é preciso compensar alguma avaria", diz Marina Ferreira.

"A nossa manta é curta e, quando os barcos falham, falham primeiro no Seixal. Porque a gestão que temos de fazer é difícil. Se supríssemos viagens em Cacilhas, Barreiro ou Montijo, onde há mais utentes, haveria mais gente prejudicada."

Problemas atrás de problemas

Dos cinco cacilheiros que a Transtejo tem ao seu dispor para fazer a rota entre o Cais do Sodré e Cacilhas, nenhum estava operacional no início desta semana.

O Seixalense e o Sintrense estão em reparações até ao Natal, o Madragoa está avariado há meses sem que haja financiamento à vista para repará-lo, o Dafundo viu impugnado o concurso para a sua reabilitação e por lei não pode circular. Restava o Campolide, que avariou no domingo.

Mobilizaram-se o São Jorge, com capacidade para mil lugares, e o Aroeira - para compensar as falhas. Mas era pouco para as encomendas.

Dos sete catamarãs que em teoria apoiam as rotas do Montijo e do Seixal, quatro estavam em funcionamento. Então a Transtejo retirou um ao Seixal e mobilizou-o para Cacilhas. Os seixalenses ficaram com barcos quase de hora a hora nas alturas de maior tráfego.

"Há ainda oito catamarãs no Barreiro, mas esses estão afetos à Soflusa, outra empresa. Além disso, é a carreira com mais movimento", diz Marina Ferreira.

Na última década, a frota que atravessa o Tejo tem sofrido reduções constantes. A atual presidente admite-o: "Os navios foram avariando e ficaram encostados. Ainda por cima, nos anos de austeridade, a palavra de ordem era a privatização."

Duas embarcações perfeitamente operacionais foram vendidas. A atual administração, que assumiu funções em 2017, também vendeu um navio. "Foi para a sucata, já não tinha operacionalidade. Temos de ver que uma boa parte dos nossos barcos tem mais de 45 anos."

Há dois barcos, o Lisbonense e o Almadense, que são relativamente novos. Têm sete anos, estão normalmente ao serviço da linha Belém-Porto Brandão-Trafaria e, no entanto, sofrem avarias constantes.

"Vieram com defeitos de construção do estaleiro da Figueira da Foz e estão cheios de problemas", diz Marina Ferreira. Os motores são demasiado pesados, consomem muito combustível, fazem mais ruído do que seria expectável.

"Foi uma falha total. Tanto que o estaleiro teve de pagar uma indemnização à Transtejo por incumprimento do contrato. Quase todos os nossos barcos estão velhos, e os mais novos que temos são um enorme poço de problemas."

Empurrados para o comboio

Antes de os catamarãs serem introduzidos no Tejo, em 1997, a Transtejo tinha alugado uma série de embarcações escandinavas para que os utentes não fossem prejudicados pela antiguidade da frota portuguesa. Marina Ferreira diz que essa solução não é agora exequível.

"O problema é que, em quase todos os catamarãs do mundo, os embarques fazem-se pela popa ou pela proa. O Tejo tem correntes específicas e seria sempre preciso fazer obras de adaptação. Aqui, os desembarques acontecem pela lateral da embarcação."

A sua explicação é esta: o investimento nesses alugueres não seria diferente daquele que o primeiro-ministro anunciou na terça-feira. António Costa, recorde-se, prometeu 18 milhões de euros imediatos para que as reparações pudessem arrancar.

Em abril, o ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, tinha também anunciado a abertura de um concurso para aquisição de novos novas embarcações até ao final do verão - 50 milhões de euros para comprar dez novos barcos.

A promessa foi adiada. Agora, no entanto, o governo diz que quer o concurso aberto até ao final de janeiro. Se a intenção se confirmar, os novos navios deverão chegar ao Tejo em 2022.

Entretanto, a manta vai ter de continuar a esticar. Na quarta-feira, já sabendo que havia supressões nas carreiras do rio, muitos seixalenses preferiram ir de carro ou comboio para Lisboa. Ao fim da tarde, após um barco ter sido reparado, a normalidade foi retomada.

"Às vezes parece que nos querem fazer ir de comboio", diz Ana Paula Silva, a auxiliar de ação médica que tem chegado todos os dias atrasada ao hospital. "Só que os preços são o dobro e todos temos de fazer contas à vida."

Paga 50,75 euros de passe, para poder tomar o barco e depois os transportes na capital. A mesma opção, tomando o comboio no Fogueteiro e usando a rede em Lisboa, fica-lhe a 112,10.

Então a sua opção é continuar a tomar o barco do Seixal, mesmo que o barco continue a atrasar-lhe a vida. "A minha sorte é que já estou nos quadros. Já viu o que seria de mim se estivesse com contrato a prazo. Acabava despedida com tanto atraso. Tenho colegas assim mas, vá lá, têm sorte." Sorte? "Pois, não vivem no Seixal."

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