Estão convocadas para este sábado duas manifestações que nascem do mesmo acontecimento, mas promovidas por duas fações que defendem perspetivas opostas. Num lado, está o protesto avançado pelo movimento Vida Justa contra a forma como morreu Odair Moniz, de 43 anos, baleado, no início da semana, por um agente da PSP na Cova da Moura, Amadora; no outro, está a reação do Chega, em defesa das forças de segurança e contra os “bandidos”. A PSP, em comunicado, garante que “não tolerará os atos de desordem e de destruição praticados por grupos criminosos”..De acordo com a informação divulgada pelo Chega, os cartazes do partido na manifestação terão mensagens como “Bandidos Sem Lei, Polícias Sem Medo” ou “Polícias Sim. Bandidos Não!”.Os trajetos, tal como os pontos de partida e de chegada já não serão os mesmos, desde que, ontem, o movimento Vida Justa decidiu alterar o itinerário da sua manifestação. Porém, não o fez sem antes, através de um comunicado, “condenar a decisão das autoridades de permitir que o Chega termine a sua contramanifestação no mesmo local da manifestação”..Inicialmente, a manifestação sob o mote “Sem Justiça não há Paz” estava prevista culminar na Assembleia da República, o mesmo local que o Chega escolheu para acabar a sua manifestação, marcada posteriormente..Agora, começará no Marquês de Pombal e terminará nos Restauradores. A do Chega, começa na Praça do Município e tem como meta a Assembleia da República..O Vida Justa, no documento, diz estar ciente de “que o Chega, que defende que Portugal estaria melhor se os polícias matassem mais pessoas, está interessado em criar incidentes, mas a manifestação dos bairros é pacífica e responsável, mesmo quando as autoridades não o estejam a ser”..Infografia: Rui LeitãoPercursos de ambas as manifestações..O comunicado refere-se às palavras do líder parlamentar do Chega, Pedro Pinto, que, durante um debate na RTP3 com o seu homólogo do BE, Fabian Figueiredo, defendeu que, se os polícias “disparassem mais a matar, o país estava mais na ordem”..Para além disto, também o líder do partido, André Ventura, utilizou epítetos, como “rascaria” e “bandidagem pura”, para se referir a quem protagonizou, ao longa da semana, tumultos como reação à morte de Odair Moniz, que passaram por quatro autocarros incendiados na Grande Lisboa, que provocaram pelo menos um ferido com gravidade, vários carros vandalizados e caixotes do lixo carbonizados..Como consequência das palavras dos deputados do Chega, um grupo de cidadãos, incluindo a antiga ministra da Justiça Francisca Van Dunem, decidiu avançar com uma queixa-crime (ver mais na página 9)..Polícia e partidos nas ruas.Sobre a manifestação promovida pelo Vida Justa, BE e PCP confirmaram ao DN a sua presença, com o segundo partido a garantir a participação com uma delegação liderada pelo vereador da Câmara de Lisboa João Ferreira. O Livre vê esta manifestação como uma iniciativa da sociedade civil, pelo que não terá nela representação oficial. No entanto, também promete presença de membros do partido no protesto, mas a “título pessoal”, explicou fonte do partido ao DN..O DN também contactou o gabinete do presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, para perceber se haveria iniciativas no sentido de fechar lojas, de alterar percursos ou horários de transportes públicos, mas fonte do executivo municipal só disse que não tinha “nenhuma indicação nesse sentido”..De acordo com um comunicado da PSP, as únicas artérias da cidade que estarão condicionadas são as que estão relacionadas com os percursos das duas manifestações..A polícia também promete “garantir o exercício do direito de manifestação por parte dos cidadãos que integrarem estas ações em diversos locais” de Lisboa, acrescentando que “a ação policial será exercida por polícias de diferentes valências do COMETLIS [Comando Metropolitano de Lisboa] e terá o apoio permanente de meios da Unidade Especial de Polícia da PSP”..A PSP deixa, no entanto, uma palavra de repúdio a “grupos criminosos” que “integram uma minoria e que não representam a restante população portuguesa que apenas deseja e quer viver em paz e tranquilidade”..Na Cova da Moura.Já passava das 5.00 horas de dia 21 quando Odair Moniz, de 43 anos, foi baleado por um agente da PSP no Bairro Alto da Cova da Moura, na Amadora, acabando por morrer, às 6.20, no Hospital de São Francisco Xavier. O primeiro comunicado da PSP indicava que “o suspeito, ao visualizar uma viatura policial” fugiu e resistiu “à detenção” e tentou agredir os polícias com uma “arma branca”. O comunicado da PSP acrescenta que, “esgotados outros meios e esforços”, um dos agentes utilizou a arma de fogo “em circunstâncias a apurar em sede de inquérito criminal e disciplinar”. Depois, o Ministério da Administração Interna confirmou a abertura do inquérito. O porta-voz do movimento cívico Vida Justa, Flávio Almada, em declarações à Lusa, contestou a versão da PSP, lembrando que “não é a primeira vez” que algo assim acontece..Reações sucedem-se.Na madrugada de 22, há desacatos no Bairro do Zambujal, na Amadora, onde vivia Odair Moniz. O SOS Racismo acusa a PSP de estar “inegavelmente infiltrada pela extrema-direita racista”. O agente da PSP responsável pelo disparo é constituído arguido e o BE pede que seja transferido para funções administrativas. O líder do Chega, André Ventura, diz que não se devia “constituir este homem arguido. Devíamos agradecer a este polícia o trabalho que fez de parar um criminoso.”.Tumultos.As contestações começam no Zambujal, com um autocarro incendiado, estendendo-se depois a outros bairros da Grande Lisboa, com mais focos de incêndio. Partidos reagem e utilizam os seus argumentos uns contra os outros. Governo promete reforçar segurança pública.