Apesar da desproporção de meios, a resistência ucraniana continua, mais de um mês depois do início da guerra. Este impasse no terreno pode levar a Rússia a subir o tom e recorrer a armas e táticas mais mortíferas? Temo que a manutenção do conflito perdure, não ultrapassando o patamar convencional que temos assistido. Neste momento, a Rússia, e Putin especificamente, têm três incentivos para essa continuidade. Primeiro, porque a NATO não se envolverá na defesa dos ucranianos. Segundo, porque a Ucrânia serve de antecâmara e até ensaio a um conflito maior, entre duas tipologias de ordem internacional. A Liberal e a Autoritária, onde o que está em causa não são modelos de organização social ou económica global, mas esferas de influência e privilégios de poder, sejam norte-americanos, chineses ou russos. Por último, porque as sanções, seletivas aliás, não demonstram qualquer efetividade em refrear regimes autoritários..Surgiram notícias de que Vladimir Putin estará a receber informações erradas por os seus assessores terem medo da sua reação à realidade no terreno. Cada vez mais isolado, há alguma hipótese de o presidente russo sofrer algum tipo de traição interna? Podemos dividir a questão em duas dimensões. Uma, sobre as notícias que refere. Os serviços de inteligência que efetuam essas avaliações, têm um natural interesse estratégico ou tático em criar perceções de divisão em Moscovo, que podem ou não corresponder à realidade. Tal como é reconhecido na literatura das Relações Internacionais, as lideranças de regimes autoritários não estimulam espaço ou competências para a divulgação e análise de indicadores negativos sobre a realidade ou meras opiniões que contrariem a forma como o líder "vê" o mundo. Já a segunda dimensão leva-nos à eventual traição a Putin. O regime do Kremlin é uma construção personalista de múltiplas dependências e obediências. Julgo não existirem condições suficientes para destituir Putin, por dois motivos. Um conjuntural, a sua popularidade. Outro, estrutural. E este acredito ser o mais significativo. A política externa da Federação Russa, já desde Ieltsin, tem uma perceção enraizada da ameaça ocidental pela expansão institucional da NATO e da UE. Nós lemos os discursos de Putin como se se tratassem de uma realidade paralela. Mas têm uma profunda aceitação na sociedade e na elite russas, até pela natureza autoritária do regime. Na reduzida eventualidade de Putin ser traído, como diz, acredito mais na hipótese dos "ultras" do Kremlin o fazerem, do que de uma hipotética ala "reformista", cada vez menos representada no processo de decisão..As negociações na Turquia pareciam ter feito alguns avanços, mas a violência no terreno e o alegado ataque ucraniano contra um depósito de petróleo na Rússia ameaçam fazê-las descarrilar de vez. Até que ponto é que os dois lados têm de ceder para se entenderem? Num mundo ideal onde o comportamento dos Estados fosse guiado por imperativos éticos e normativos, apenas a Rússia deveria ceder, sendo a agressora. Mas estamos num mundo onde a competição por segurança e poder representam a "moeda" do sistema internacional. Quem faz a história são as grandes potências, que têm capacidades para isso. Repare que a Ucrânia a ceder, seja na neutralidade ou na Crimeia e no Donbass, abdica de soberania. Por outro lado, parece-me incompreensível, analisando a forma como Putin perceciona a NATO, que seja equacionado um acordo onde existam garantias de segurança como as que a Zelensky solicita. Seria na sua essência uma réplica do artigo 5 da NATO sem Kiev estar na aliança. Não creio assim que exista qualquer boa-fé negocial por parte do Kremlin, até porque as grandes potências só obedecem à moral e ao direito internacional quando estes não colidam com o seu interesse nacional. Já se nos lembrarmos dos objetivos iniciais que Putin elencou, a "desnazificação" e a "desmilitarização", esses podem ser reformulados na narrativa russa pela neutralização por um lado de elementos ucranianos tidos como radicais, e por outro pela não adesão à NATO e as cedências territoriais de Zelensky..A Turquia está na melhor posição para servir de mediador neste conflito? Julgo ser relativamente indiferente o papel do mediador. A Ucrânia e a Rússia só estabelecerão e cumprirão um acordo que inclua grandes potências como os EUA (ou países da NATO) e a China. Por razões distintas. Para a Ucrânia, pela necessidade existencial de garantir a sua sobrevivência, e para isso terá que formular um acordo onde tenha quem lhe garanta que vai em seu auxílio se atacada. Creio, no entanto que nenhum país da NATO subscreverá isso. Para a Rússia, também por questões de segurança, mas essencialmente por considerações de prestígio. A Rússia necessita de se sentir novamente uma Grande Potência, temida mas também reconhecida..Tendo em conta as ambições imperialistas de Putin, é de esperar que procure alargar o domínio sobre outras ex-repúblicas soviéticas? Reparemos nas dificuldades que as forças armadas russas têm tido na Ucrânia. Pensar que Putin - mesmo que com informação deficiente - possa ambicionar uma recuperação por via militar do espaço pós-soviético, nomeadamente o integrado na NATO e na UE, é irracional, ponderando benefícios e custos. Se contudo incluirmos nesse "domínio" de que fala, instrumentos de influência, desestabilização, pressão ou mesmo ameaça, mais do que expectável, é uma realidade presente, e não apenas no espaço da antiga URSS..helena.r.tecedeiro@dn.pt