A vitória do democrata Joe Biden nas últimas eleições americanas foi muito importante não só internamente, mas também como exemplo para resto do mundo, tendo mostrado três coisas: 1) a democracia não pode nunca ser dada como garantida; 2) é possível travar o protofascismo (erroneamente chamado "populismo"); e 3) as democracias têm de saber defender-se..Mas como será a política externa em geral da nova administração americana, liderada por Biden?.A resposta foi dada pelo secretário de Estado Antony Blinken, quando foi ao Senado, há dias, apresentar as suas linhas de força. Pelo menos nesta primeira fase, será a continuidade do trumpismo, talvez piorado. Uma expressão usada por Blinken resume tudo: "Uma posição dura diante de forças antagónicas." Primeiro, a relação com a China. O novo secretário de Estado elogiou a postura de Trump a respeito, condenando a posição de Pequim relativamente aos uiguires, a qual chamou "genocídio". Só fez uma crítica: a suposta "demora em agir em Hong Kong". Ou seja, dois assuntos internos da China..Mais recentemente, entretanto, John Kerry, o czar do ambiente nomeado por Biden, declarou que a cooperação com a China é fundamental para promover as mudanças climáticas no planeta. Quanto à Rússia, Blinken sugeriu que novas sanções poderão ser aplicadas, por causa de um assunto considerado interno pelo país: a prisão de Alexei Navalny..Irão. As negociações, disse ele, sem especificar, "ficarão para mais tarde". Ignorou, deliberadamente, o risco de, sem novas negociações, a linha dura iraniana ganhar as eleições no próximo mês de julho..Médio Oriente. A administração Biden vai manter a embaixada em Jerusalém. Exortou as partes a manter congelada a situação atual, sem "iniciativas perturbadoras". Coreia do Norte. A pressão sobre Pyongyang vai aumentar..Cuba. Não haverá um retorno completo à normalização das relações, como parecia desenhar-se na era Obama. Ou seja, os EUA insistem na pior estratégia para incentivar as mudanças internas de que aquele país precisa. Com a manutenção do bloqueio, a tendência será cerrar fileiras..Venezuela. Os EUA vão continuar a reconhecer Guaidó como "presidente" do país, ficção essa que a União Europeia já abandonou..Iémen. A nova administração, disse Antony Blinken, vagamente vai "pressionar" a Arábia Saudita a pôr fim à sua intervenção na região. Como? Qual será, de facto, a solução para o conflito em questão? Não disse..África. Os investimentos voltarão a ser "linkados" à necessidade das reformas democráticas (impostas de fora?)..Em suma, nenhuma novidade substancial, nenhum "recomeço", nenhuma iniciativa de impacto a favor da paz e do entendimento entre as nações. Detalhe adicional: nenhuma mensagem no sentido do reforço do papel da ONU..Alguns analistas procuram explicar: Biden irá concentrar-se, nos primeiros tempos, em voltar a unir o país, ao mesmo tempo que terá de promover mudanças internas profundas, para resolver problemas como a injustiça racial, a retoma económica, o impulso nas infraestruturas e o desenvolvimento ambientalmente sustentável. Exercício altamente difícil. A administração não poderá, assim, criar muitas fricções dentro do sistema a propósito da política externa..A manutenção da linha dura será, assim, uma concessão à ala mais à direita e conservadora, representada, sobretudo mas não só, pelos republicanos.. Jornalista e escritor angolano, publicado em Portugal pela Caminho