Jogo de espera

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Proponho-lhe um exercício. Se não estiver sentado, sente-se e regresse ao artigo de Wolfgang Münchau. Agora, substitua a palavra "Grécia" por "Portugal", ou "crise da dívida grega" por "crise da dívida portuguesa". Sim, tem razão. Portugal não é a Grécia. Mas, há diversas conjugações de fatores que, ao longo deste ano, podem deixar-nos no papel de gregos aos olhos de uma Europa em desagregação. O mais assustador? Há mesmo muito pouco que dependa de nós, do que podemos fazer enquanto comunidade. São variáveis que não podemos controlar.

Wolfgang Münchau tem toda a razão ao dizer que "esconder a verdade está na base de muito do que está a acontecer de errado na Europa". Desde 2008 que a Europa tem passado demasiado tempo a empurrar problemas com a barriga, ou a varrê-los para debaixo do tapete. As dívidas soberanas são um desses problemas. Portugal não é a Grécia? Imagine agora uma saída dos gregos da zona euro, o FMI a desertar desta confusão e uma Comissão Europeia pressionada pela Alemanha a deixar os gregos entregues a si próprios, sem novo programa e forçados a entrar em incumprimento. Quem está a seguir na fila?

Neste ano de eleições em França, na Alemanha e na Holanda, há outros cenários igualmente inquietantes. Aliás, mesmo sem sobressaltos de maior, os juros da nossa dívida no mercado secundário têm subido bastante nos últimos meses. Obviamente, vamos continuar a ouvir, de Bruxelas e de Frankfurt, que "a dívida pública portuguesa é sustentável". É o equivalente europeu ao Banco de Portugal a garantir que o BES estava sólido, 15 dias antes da queda, em julho de 2014. Continuemos, portanto, a viver a ilusão.

Vamos conhecer, mais dia, menos dia, as conclusões do grupo de trabalho que juntou governo e Bloco de Esquerda para debater o tema da dívida pública. Há de sair dali alguma preocupação, certamente, um diagnóstico do problema ou algumas recomendações inócuas. Mas não vejo que seja possível lermos, preto no branco, a palavra "insustentável" ou "renegociação". Neste campo, da dívida pública, o medo da perceção dos mercados comanda a política. Estamos no domínio do indizível e num jogo de espera, pouco mais resta.

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