A Síria afirmou ontem esperar a criação de “parcerias estratégicas” com a Ucrânia, que, por seu turno, se mostrou aberta a estabelecer novos laços com Damasco nesta fase pós regime de Bashar al-Assad, que tinha a Rússia como um dos seus grandes aliados. Intenções demonstradas durante a visita do líder da diplomacia ucraniana ao país, a primeira de uma delegação de Kiev em muitos anos..“Haverá parcerias estratégicas entre nós e a Ucrânia nos níveis político, económico e social, e parcerias científicas”, declarou o recém-nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros da Síria, Asaad Hassan al-Shibani, citado pela Reuters, ao lado ucraniano Andrii Sybiha. “Certamente o povo sírio e o povo ucraniano têm a mesma experiência e o mesmo sofrimento que suportamos ao longo de 14 anos”, prosseguiu Shibani, numa aparente referência à guerra civil da Síria, entre 2011 e 24, e a invasão da Ucrânia pela Rússia. Já Andrii Sybiha recordou que esta “é a primeira visita de uma delegação oficial ucraniana à Síria em muitos anos”, o que, “demonstra a nossa disponibilidade para abrir um novo capítulo nas relações bilaterais com a Síria”. .O líder da diplomacia de Kiev adiantou ainda que foram traçados planos para uma potencial cooperação entre os dois países, incluindo o estabelecimento de produção industrial e alimentar, intercâmbios de tecnologia e colaboração em segurança cibernética e proteção de informações, dizendo esperar “ver uma maior participação de produtos sírios nas nossas importações”..“Estamos prontos e aguardando os passos do lado sírio. A restauração da presença diplomática permitirá aumentar o comércio, a cooperação nos domínios da ciência e tecnologia, da cultura e da educação”, observou o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano..Sybiha - que esteve também reunido com o novo líder sírio, Ahmed al-Sharaa, e o primeiro-ministro, Mohammed аal-Bashir - mostrou ainda a sua convicção “de que a eliminação da presença russa na Síria na perspectiva estratégica contribuirá para a estabilidade não só do Estado sírio, mas também de todo o Médio Oriente e África, mesmo que este processo leve tempo”. “Os regimes russo e de Assad apoiaram-se mutuamente, porque a sua base é a violência e a tortura. Estamos prontos para partilhar a nossa experiência na recolha de provas, investigação e trabalho para levar à justiça os criminosos de guerra pelos crimes que cometeram”, sublinhou..E informou que hoje a Síria receberá 500 toneladas de farinha ucraniana no âmbito do programa humanitário Grãos da Ucrânia, e que esta “é a primeira entrega de ajuda humanitária gratuita. Estamos prontos para entregar mais”..Durante o regime de Bashar al-Assad, a Síria importava os seus alimentos da Rússia, no entanto, o fornecimento de trigo russo foi suspenso devido à incerteza com que é olhado o novo governo de Damasco e atrasos nos pagamentos, segundo a Reuters. A chegada ao poder dos rebeldes também colocou em causa a presença militar russa no país, nomeadamente uma base aérea e uma instalação naval, sendo que Moscovo já disse que pretende uma negociação com Damasco sobre este tema. .Al-Sharaa, o novo líder sírio, disse numa entrevista este domingo que a Síria partilha interesses estratégicos com a Rússia, mas não deu mais detalhes. Anteriormente havia referido que as relações entre os dois países deveriam servir interesses comuns..ana.meireles@dn.pt