A economia de Taiwan apresenta bons números, mas existe desigualdade salarial e uma crise na habitação.
A economia de Taiwan apresenta bons números, mas existe desigualdade salarial e uma crise na habitação.EPA/DANIEL CENG

Futuro da relação China-EUA vai hoje a votos em Taiwan

Sondagens dão vantagem ao candidato do DPP, William Lai. Pequim avisou ontem que as Forças Armadas estão prontas para impedir quaisquer planos de independência.
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Mais de 19,5 milhões de eleitores em Taiwan vão hoje às urnas escolher entre três candidatos quem será o próximo presidente da ilha, mas também os novos deputados. O tema central da campanha foi a relação com a China, sendo que, segundo os analistas, o resultado destas eleições irá também ajudar a definir como será a relação entre Pequim e os Estados Unidos de agora em diante. Com os independentistas do DPP, atualmente no poder, à frente das sondagens, a pressão chinesa tem-se feito sentir de várias formas, tendo Xi Jinping deixado o recado no seu discurso de final do ano de que a reunificação com Taiwan é uma “inevitabilidade histórica”. 

“Se ganhar o Partido Democrático Progressista (DPP), é provável um aumento das tensões entre Pequim e Taipé, que tem consequências negativas para as relações entre Pequim e Washington. Se ganhar o Partido Nacionalista (Kuomintang) é possível uma pausa nas tensões entre Pequim e Taipé”, defendeu Carlos Gaspar, professor catedrático e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-NOVA), em declarações recentes ao DN. 

Uma opinião partilhada por Luís Tomé, professor catedrático e diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa. “As eleições em Taiwan podem precipitar fatores negativos na relação da China com os Estados Unidos e uma tensão muito grande se ganharem os independentistas do DPP novamente.”.

Ainda esta semana, Pequim apelou aos Estados Unidos para não “se intrometerem” nas presidenciais de Taiwan e disse opor-se “firmemente” aos laços entre Taipé e Washington, que anunciou o envio de uma delegação à ilha após a votação. Os Estados Unidos “não devem interferir nas eleições na região de Taiwan, sob qualquer forma, de forma a evitar danos graves nas relações sino-norte-americanas”, disse Mao Ning, porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês.

Paz nas relações com a China

No debate conjunto que os três candidatos à presidência realizaram no final de dezembro a mensagem comum foi o desejo de manterem relações pacíficas com a China.

William Lai, atual vice-presidente e considerado favorito, afirmou estar disposto a dialogar com as autoridades chinesas. “Desde que haja igualdade e dignidade nos dois lados do estreito de Taiwan, a porta de Taiwan estará sempre aberta”, disse o independentista do DPP, frisando que está disponível para cooperar com Pequim no sentido de “melhorar o bem-estar das pessoas dos dois lados do estreito de Taiwan”.

Considerado mais amigável com Pequim, o Kuomintang apoiou, no passado, a unificação com a China, mudando de posição nos anos recentes, à medida que o eleitorado se foi identificando mais como taiwanês, por oposição a chinês. No mesmo debate, o seu candidato, Hou Yu-ih, defendeu “democracia e liberdade” para Taiwan, e, embora recusando a unificação com a China, destacou a importância de manter relações pacíficas com Pequim.

O terceiro candidato, Ko Wen-je, do Partido do Povo, sublinhou que as pessoas dos dois lados do estreito “são da mesma raça e têm a mesma história, língua, religião e cultura, mas, nesta fase, têm diferentes sistemas políticos e modos de vida”, fazendo depender o diálogo com Pequim da preservação da democracia que existe em Taiwan.

Mesmo apesar de estas mensagens pacificadoras, o Ministério da Defesa chinês deixou ontem mais um aviso de que as Forças Armadas do país estão em elevado estado de alerta e prontas a tomar todas as medidas necessárias para impedir quaisquer planos para a “independência de Taiwan”. Uma resposta à mais recente atualização de Taiwan da sua frota de caças e os planos de Taipé para comprar mais jatos aos Estados Unidos.

Nos últimos meses, a China, que teme que a vitória de Lai seja um passo para a independência, tem sugerido aos eleitores de Taiwan que a votação de hoje é uma escolha entre a paz e a guerra.

Crescentes desigualdades sociais

Além da relação com a China, o futuro presidente de Taiwan vai ter de lidar também com outras questões internas. A ilha tem a sua economia em terreno positivo, mas apresenta uma crescente desigualdade, alimentada por salários baixos e elevados preços da habitação.

A economia da ilha cresceu 2,3% no terceiro trimestre, enquanto a bolsa de valores atingiu em dezembro o nível mais elevado em quase dois anos. Já a taxa de desemprego caiu em novembro para 3,3%, o valor mais baixo desde 2000, e a inflação é de 2,9%.

Embora tenha havido um crescimento na área da tecnologia, os salários estagnaram nos serviços, setor que representa a maioria da mão-de-obra em Taiwan. Cenário acompanhado por um problema de habitação, área em que os preços estão fora de controlo, e que o governo tem procurado combater com mais benefícios sociais, promoção do arrendamento e redução da especulação imobiliária, mas sem grande sucesso, nomeadamente junto dos mais jovens.

Quem são os três candidatos a presidente

EPA/RITCHIE B. TONGO

William Lai
Partido Democrático Progressista (DPP)

O independentista William Lai, de 64 anos, começou a carreira política como deputado e depois presidente da Câmara de Tainan, no sul da ilha, antes de se tornar primeiro-ministro de Tsai Ing-wen, a atual presidente, entre 2017 e 2019. Há quatro anos, desafiou Tsai, sem sucesso, nas primárias do DPP, antes de se tornar vice-presidente. Pequim acusa Lai de ser um “separatista”, termo do Partido Comunista Chinês para aqueles que não apoiam a noção de que Taiwan pertence à China.

Nesta campanha, tem prometido seguir a linha de Tsai nas questões relacionadas com a China e fazer o seu melhor para manter o status quo do território, uma independência de facto mas não formal. “Gostaria de reiterar que Taiwan já é uma nação independente e soberana e, portanto, não temos necessidade de declarar a independência de Taiwan”, disse Lai há cerca de um ano, quando assumiu a liderança do DPP. No passado, chegou a identificar-se como um “trabalhador pragmático pela independência de Taiwan”.

EPA/RITCHIE B. TONGO

Hou Yu-ih
Kuomintang (KMT)

Foi agente da polícia e subiu na hierarquia até se tornar diretor-geral da Agência Nacional da Polícia em 2006. Tornou-se presidente da Câmara de Nova Taipé em 2018 e foi reeleito no final de 2022, com uma vitória esmagadora, graças à sua fama de moderado e eficiente. Nascido em 1957 na vila de Chiayi, no sudoeste da ilha, Hou passou a infância a ajudar na banca de carne de porco da família num mercado local. Tem um doutoramento em Prevenção do Crime e Correções pela Universidade Central da Polícia.

Até à sua candidatura presidencial, Hou manteve-se afastado da direção do partido e evitou pronunciar-se sobre questões relacionadas com a China. Desde então, expressou apoio a uma versão do “consenso de 1992”, que está em conformidade com a Constituição chinesa, referindo-se à política de longa data do KMT de que Taiwan faz parte da China, mas discordando de Pequim sobre o que significa essa “China”, ou seja, não é pró-Pequim, mas apenas a favor de laços mais estreitos.

EPA/RITCHIE B. TONGO

Ko Wen-je
Partido do Povo de Taiwan (TPP)

Ko fundou o TPP em 2019 com o objetivo de atrair os eleitores insatisfeitos com o governo do DPP e não dispostos a apoiar o KMT. Nascido na cidade de Hsinchu, no norte da ilha, em 1959, Ko foi cirurgião durante três décadas, até ter concorrido para autarca de Taipé, em 2014, derrotando de forma esmagadora o candidato do KMT, apesar de ser um estreante na política - governou a capital de Taiwan por dois mandatos, até 2022.

Apoiou anteriormente a candidatura de Tsai à presidência, mas, nos últimos anos, afastou-se da sua posição de apoio ao DPP e declarou-se como “terceira força”, acusando os independentistas no poder de serem demasiado “pró-guerra”. Defende uma maior colaboração económica com a China, alegando que as duas partes têm muito em comum em termos de cultura, religião e história. No entanto, a nível político, considera que a noção de “uma só China” é atualmente impossível, referindo-se à posição de Pequim de que Taiwan é uma província chinesa. 

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