Num bairro com vivendas emolduradas pelas montanhas de Santa Clarita, no condado de Los Angeles, voluntários do partido democrata batem às portas para falar sobre as eleições. “Queria só confirmar que recebeu o seu boletim de voto”, diz um, quando alguém atende a porta. “Podemos contar com o seu voto?”, continua. .As respostas são mistas: alguns já votaram, outros ainda estão a pesquisar, e alguns respondem que estão indecisos. Alguns estão registados como democratas mas dizem que votaram em Donald Trump. Os voluntários agradecem e desejam um bom dia, tomando notas numa aplicação móvel que mostra o mapa dos eleitores registados neste bairro. .Este é o tipo de ação que está a repetir-se um pouco por todo o lado nos Estados Unidos, onde de hoje a exatamente uma semana acontecem as eleições presidenciais “mais importantes de sempre”, segundo dizem comentadores, analistas e políticos sobretudo associados ao partido democrata. .Bater à porta das pessoas para as incentivar a olhar para o boletim de voto ou fazer um plano para votar no dia 5 de novembro é uma iniciativa crucial na reta final da campanha. Não apenas porque a corrida está tecnicamente empatada e qualquer diferença marginal pode decidir o próximo presidente, mas também porque a votação vai determinar também o controlo do Congresso. .Como estão as contas.À semelhança do que tem vindo a acontecer desde agosto, quando a campanha de Kamala Harris arrancou a sério, a candidata democrata que substituiu Joe Biden está à frente nas intenções de voto a nível nacional. O agregado de sondagens da plataforma FiveThirtyEight dá-lhe 48% contra 46,6% de Trump, uma vantagem de 1,4%. Isto significa que é muito provável que Harris obtenha mais votos que Donald Trump, possivelmente milhões mais. No entanto, Hillary Clinton obteve cerca de dois milhões de votos a mais que Trump mas não foi eleita, porque o que abre as portas da Casa Branca são os votos do Colégio Eleitoral, num total de 538. Para se tornar presidente, é preciso que algum deles chegue aos 270. .A maioria das sondagens nacionais mostra uma corrida com diferenças mínimas em que a vantagem de Harris está a diminuir. A TIPP Insights dá 48% para ambos, a YouGov tem Kamala Harris nos 50% face a 49% de Trump, a Emerson College tem os dois com 49% e a mais recente do New York Times e Siena College coloca Donald Trump acima por um ponto, 47% contra 46% de Harris. .Olhando para os sete estados decisivos, onde a vitória pode cair para os dois lados, as contas são complicadas mas os números permanecem estáveis - não houve o mesmo apertar que se notou nas sondagens a nível nacional. Isso é algo invulgar, mostrando que Kamala Harris se mantém competitiva em estados muito difíceis e que Donald Trump arrasou em 2016. .A média das sondagens agregadas pelo New York Times indica que Kamala Harris está à frente no Michigan, Wisconsin e Nevada, com mais um ponto percentual que o oponente. Os dois estão empatados no Nevada e na Pensilvânia e Donald Trump lidera por um ponto na Carolina do Norte e na Geórgia e tem mais dois pontos no Arizona. .Um dos problemas na análise destes números, que leva os analistas com que o DN tem falado a escusarem-se a fazer previsões, é que as sondagens induziram em erro nos últimos ciclos eleitorais. Em 2016, Hillary Clinton era favorita por uma margem esmagadora e concluiu-se que o apoio a Donald Trump tinha sido dramaticamente subvalorizado. Em 2020, Joe Biden chegou à eleição com uma vantagem confortável, de mais de cinco pontos, e no final venceu apenas por 0,9% nos estados decisivos (e mais 4 pontos no voto popular). Se as sondagens em 2024 falharem nas margens de uma forma similar a 2020, Donald Trump vence por mais três a quatro pontos em todos os estados decisivos. .Mas em 2022 as sondagens sobrevalorizaram o apoio aos republicanos nas intercalares e a “onda vermelha” que previam não se concretizou. Se as sondagens hoje falharem como há dois anos, então é Kamala Harris quem vence nos estados decisivos à exceção da Geórgia, onde Trump teria mais dois pontos. .Se os dados que estão hoje plasmados nas sondagens forem traduzidos de forma perfeita para votos no Colégio Eleitoral, Kamala Harris vence com 276 votos no Colégio Eleitoral..É um quebra-cabeças para as campanhas, que nesta reta final vão fazer um blitz de eventos nos sete estados decisivos, tentando captar a atenção dos eleitores indecisos. Muitos deles hesitam entre votar ou ficar em casa, mas há ainda quem admita votar num ou noutro, mostrando conflito entre fatores incompatíveis. Por exemplo, querem impostos mais baixos e têm saudades da economia sob Donald Trump, mas não querem uma proibição nacional do aborto nem uma deportação maciça de imigrantes. .Há ainda eleitores que estão desconectados de todo o discurso político e da campanha e demasiado preocupados com o dia-a-dia para prestarem atenção, algo que é complicado pelo facto de as eleições serem a uma terça-feira que não é feriado e onde não há tolerância de ponto para ir votar. .Campanhas dão tudo por tudo.Campanha de Trump esgotou o Madison Square Garden em Nova Iorque.Foto: EPA.Depois de um comício esgotado no Madison Square Garden em Nova Iorque, onde milhares de pessoas ficaram à porta, Donald Trump esteve ontem na Geórgia e estará hoje na Pensilvânia, tentando galvanizar os apoiantes. Este último é um estado onde Kamala Harris tem mostrado alguma vantagem nas sondagens e crucial para o seu caminho até à Casa Branca. Mas o senador democrata pela Pensilvânia John Fetterman disse ao New York Times que o apoio a Donald Trump no seu estado é “surpreendente” e comparou-o ao tipo de loucura em torno da cantora Taylor Swift. .“Qualquer pessoa que conduza por aqui consegue ver a intensidade. É surpreendente”, afirmou o senador. “É o tipo de coisa que ganhou vida própria. Há aqui qualquer coisa de muito especial. E isso não significa que eu a admire.” O senador frisou também que apoiantes ávidos do ex-presidente, tal como Elon Musk, conseguem galvanizar os eleitores de uma forma que os democratas não têm conseguido. Por outro lado, a tentativa de assassinato de Donald Trump, que aconteceu ali mesmo na Pensilvânia em julho, aprofundou a ligação entre ele e os apoiantes no Estado. .Depois de passar por Allentown, Donald Trump viajará até à Carolina do Norte e no mesmo dia passará pelo Wisconsin. No dia de Halloween estará no Nevada e depois regressará ao Wisconsin e para uma paragem na Virgínia. Enquanto isso, os filhos Eric Trump e Donald Trump Jr. estarão no Michigan e Pensilvânia, a nora Lara Trump irá ao Arizona e Nevada e o candidato a vice-presidente J.D. Vance passará pelo Wisconsin e Michigan. .A campanha de Kamala Harris também estará de agenda cheia nos últimos sete dias. A candidata e o seu vice-presidente, Tim Walz, passarão por todos os estados decisivos, tendo começado ontem pelo Michigan. Foi a décima vez que a democrata visitou o estado desde o final de julho, altura em que se tornou candidata pelo partido. É um eleitorado de colarinho azul que ainda está a recuperar da perda de grande parte da sua indústria automóvel e que em 2016 deu a vitória a Trump, tendo guinado à esquerda para Biden em 2020. .Hoje, Harris está em Washington D.C. para um discurso no Ellipse que deverá atrair uma audiência de mais de vinte mil pessoas, enquanto o candidato a vice-presidente Tim Walz vai à Geórgia. Amanhã, Harris volta ao Wisconsin para um comício que inclui concerto da banda Mumford & Sons. Na quinta-feira, Halloween, a campanha ruma ao Arizona, onde a banda mexicana Los Tigres Del Norte atuará em apoio da candidatura. Harris segue depois para Las Vegas, Nevada, onde receberá o apoio da banda Maná com a intenção de apelar aos eleitores de origem hispânica que ainda estão indecisos. .Foto: EPA/WILL OLIVER.Quem vai controlar o Congresso?.Além do esforço dos candidatos presidenciais, há ainda uma batalha intensa pelo controlo do Congresso. Também aqui há muito poucas certezas e bastante ansiedade, porque as margens estão mais apertadas do que o habitual. .O consenso em eleições americanas é que o partido que ganha a Casa Branca também ganha pelo menos a Câmara dos Representantes (para depois possivelmente a perder nas intercalares dentro de dois anos). Mas neste momento é difícil olhar para resultados históricos como bússola. Os republicanos controlam a câmara baixa do Congresso nesta legislatura, tendo 220 congressistas contra os 212 dos democratas (e há três lugares vagos). .O algoritmo da plataforma FiveThirtyEight prevê que os republicanos têm ligeiramente mais possibilidades de vencer, 52 em cada 100, contra 48 em 100 dos democratas. No início de setembro, eram os democratas que estavam por cima, com 2,6% de vantagem. De 475 assentos na câmara baixa, apenas cerca de 30 não têm tendência definida. São estes que vão decidir quem controla a Câmara que é agora liderada por Mike Johnson. .No Senado, o cenário é ainda pior para os democratas por causa do mapa de assentos que estão em disputa. Estes são cargos que duram seis anos, ao contrário dos da câmara baixa (que vão a eleições de dois em dois anos). Há 34 lugares em disputa e os republicanos estão melhor posicionados para vencer em número suficiente para virar o controlo, que agora pertence aos democratas com 51 senadores contra 49 republicanos. Os conservadores só precisam de ganhar dois lugares se Trump perder ou um lugar se Trump ganhar, porque nesse caso J.D. Vance terá sempre o voto de desempate. .Ou seja: há uma possibilidade real de que Donald Trump vença na próxima semana e os republicanos tomem controlo total do Congresso, entregando a verdadeira onda vermelha que não aconteceu em 2022. Olhando para os números, a vitória democrata será uma maior surpresa que o contrário.