O diretor da CIA, William Burns, e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, discutiram na quarta-feira “a possibilidade” de suspender as operações militares em Rafah, na Faixa de Gaza, em troca da libertação de reféns pelo Hamas, informou um funcionário do governo de Telavive à AFP. Em paralelo, as conversações sobre um cessar-fogo continuaram no Cairo enquanto as forças israelitas bombardearam a cidade mais a sul do enclave e tropas terrestres efetuaram “ataques seletivos”. .“Os dois discutiram a possibilidade de Israel suspender a operação em Rafah em troca da libertação dos reféns”, disse o funcionário israelita sob condição de anonimato, sobre a reunião do chefe do executivo israelita com o ex-embaixador norte-americano. No mesmo dia, duas fontes israelitas disseram ao site Axios que a decisão tomada por Washington de parar a transferência de de 3500 bombas para Israel, tomada devido à hipótese de as forças israelitas avançarem com a invasão à cidade para onde mais de um milhão de pessoas procurou refúgio, põe em risco as negociações que decorrem na capital egípcia..O presidente norte-americano advertira há cerca de dois meses que uma operação em larga escala em Rafah era uma “linha vermelha” a não ultrapassar. Além de manifestarem irritação pela decisão norte-americana e de esta ter sido divulgada aos meios de comunicação, as fontes israelitas explicam que as negociações para garantir um acordo para a libertação dos reféns e um cessar-fogo temporário saem prejudicadas, uma vez que o Hamas sente que a pressão se encontra em Israel e não na organização islamista. .No entanto, a administração norte-americana - a braços com protestos pró-palestinianos cada vez mais ruidosos na base eleitoral dos democratas - reafirmou as advertências. “Temos sido muito claros. Israel não deve lançar um ataque de grande envergadura contra Rafah sem ter em conta e proteger os civis que se encontram nesse espaço de batalha”, disse o secretário da Defesa, Lloyd Austin..Pouco depois foi a vez do porta-voz do Departamento de Estado se pronunciar. “Quando se veem os resultados da campanha [israelita] até à data, vê-se que morrem demasiados palestinianos. Há já algum tempo que temos consciência de que os resultados são inaceitáveis”, disse Matthew Miller aos jornalistas antes de deixar no ar a hipótese de se seguirem mais suspensões na transferência de equipamento militar. “Suspendemos um carregamento. Estamos a reavaliar outros sistemas de armas. Não vou entrar aqui nos pormenores.” .Por fim, o principal aliado de Israel deu também uma nota de relativo otimismo através da assessora de imprensa da Casa Branca. “As conversações estão a decorrer. Uma avaliação atenta da posição dos dois lados sugere que eles devem ser capazes de suprimir as lacunas restantes, por isso vamos continuar a apoiar esse processo”, disse Karine Jean-Pierre. As negociações foram retomadas no Cairo, depois de o Hamas ter anunciado na segunda-feira que tinha aceitado uma proposta de cessar-fogo dos mediadores do Egito e do Qatar, e de Israel ter rejeitado essa proposta. As conversações decorreram “com a presença de todas as partes”, segundo os media egípcios..A situação humana continua a agravar-se em Gaza. Israel anunciou a reabertura da passagem de Kerem Shalom, no sul do enclave, mas a agência da ONU para os refugiados palestinianos desmentiu a informação, enquanto os Médicos Sem Fronteiras apelaram para a reabertura urgente da passagem em Rafah, tal com a administração Biden. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o maior hospital de Rafah deixou de funcionar porque o pessoal recebeu ordens para retirar, e os restantes só têm combustível para três dias..As forças israelitas afirmaram ter realizado “ataques direcionados para o lado de Gaza da passagem de Rafah, na parte oriental de Rafah”, e que atingiram mais de cem alvos em toda a Faixa de Gaza. Num desses ataques terão matado um alto dirigente do Hamas, Ahmad Ali, entre os 55 mortos causados no último dia..cesar.avo@dn.pt