As nossas vidas davam um 'Big Brother'

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As nossas vidas davam um 'Big Brother'

Fechados em casa. A conviver todos os dias com as mesmas pessoas. Recolhidos do exterior e da vida ativa. Qualquer semelhança entre o que se passa em nossas casas e na casa do Big Brother não é pura coincidência.

Quando o primeiro Big Brother apareceu, na TVI (em 2000), os portugueses olharam-no com espanto. Era o início da TV Realidade, a entrada no mercado em força de uma empresa de origem holandesa, a Endemol, e o programa mostrava uma espécie de experiência social que consistia em colocar muitas pessoas juntas dentro de uma casa, e a serem vigiadas por câmaras a toda a hora. Era uma experiência orwelliana. Fez furor, em todos os meios, e mudou para sempre a TV em Portugal - foi, aliás, nessa altura que a TVI ultrapassou a Sic pela primeira vez, mantendo a liderança até ao ano passado.

Nessa altura, os portugueses que seguiram o programa, fizeram-no também com uma certa curiosidade do que poderia ser uma experiência destas. O que não imaginavam era que 20 anos depois estariam eles próprios a viver uma situação com muitas semelhanças - e com a agravante de ser... realidade. E é isso o que estamos também a descobrir por nós mesmos, agora, fechados em casa devido à pandemia de coronavírus.

Naquela altura, faz 20 anos, em apenas três meses viu-se gente a discutir, a emocionar-se, a desabrochar (como o tímido Zé Maria de Barrancos, quem se lembra?). Um concorrente a dar um pontapé noutra. Sexo em direto (entre Marco Borges e Marta Cardoso, que acabaram por casar, tiveram um filho e se divorciaram). Num minuto tudo estava bem e no seguinte, pum. Que casa de doidos, pensávamos. Mal sabíamos o Big Brother que nos esperava a todos nesta quarentena de covid-19.

"Em traços gerais, aquilo que o programa e a nossa situação têm em comum é o facto de qualquer confinamento poder ser fonte de stress e dificuldades, mesmo para quem o escolhe voluntariamente", resume o psicólogo Vítor Rodrigues. Passar tempo connosco é bom para o autoconhecimento mas gera sofrimento.

"De resto, os protagonistas do Big Brother escolhem estar lá e são selecionados para isso, nós ficamos em casa por força das circunstâncias, mergulhados na incerteza", sublinha o psicoterapeuta. Por outro lado, naquela casa, quem lá entra lucra, em dinheiro, fama e autovalorização. Para a maioria dos que estão a passar por este isolamento, ele significa transtorno, e pior, problemas económicos. Além, claro, dos mesmos atritos e revelações.

Voluntários à força

Para o sociólogo Nuno Manuel Dias, a maior diferença é esta: o regime de voluntariado em que os concorrentes se dispõem a entrar na casa do Big Brother e a ficar sujeitos a vigília permanente. "Houve aspetos muito interessantes nessas experiências iniciais, há duas décadas, que resultaram na banalização da reality TV e numa mudança do nosso entendimento daquilo que deve ser visto", diz o investigador em diversidade e coesão social do ISCTE. "Mudou a forma de nos relacionarmos com a ideia do que é público ou privado, do que pode ser mostrado, e esse foi um salto tremendo na transformação social."

Bem escrevia George Orwell no seu livro 1984, que dá nome ao programa: "Big Brother is watching you" (o Grande Irmão está a ver-te). A sociedade que descrevia era vigiada pelas autoridades numa ordem totalitária. "Não havia, é claro, maneira de as pessoas saberem se estavam a ser observadas em dado momento. Com que frequência ou através de que sistema a Polícia do Pensamento ligava cada linha individual não podia senão ser objeto de conjeturas. Era até concebível que observassem toda a gente em permanência", escrevia o autor.

Fosse como fosse, os tais polícias do pensamento de Orwell tinham acesso à linha de uma pessoa sempre que quisessem. Havia que viver no pressuposto de que cada som estaria a ser escutado, cada movimento vigiado (como no Big Brother da TVI, em que o Grande Irmão é o apresentador). O anti-herói Winston Smith bem tenta rebelar-se contra o sistema mas é preso, torturado e devolvido à suprema vigilância.

"O que não nos impede a nós de agarrar a oportunidade de nos desenvolvermos como pessoas e, espero, de encontrar melhores vias para a sociedade e a economia ao reaprendermos a dar importância ao que é importante e não comercializável, como a vida, a amizade ou a compaixão", relativiza o psicólogo Vítor Rodrigues.

Uma saga sem fim

O Big Brother somou quatro edições com anónimos e mais três com famosos, fazendo da TVI líder de audiências. No mesmo ano em que Marco e Marta passavam de desconhecidos a figuras públicas, também Célia e Telmo protagonizaram cenas tórridas em frente às câmaras, com o país a assistir. Ao saírem da casa mais vigiada do país casaram-se, tiveram dois rapazes e são o único casal ainda junto desde o programa de há 20 anos. A eles seguiram-se Sérgio e Verónica no Big Brother 2 (com uma filha), Pedro e Lara no Big Brother 3 (que hoje são inimigos, segundo relatos das revistas sociais) e Lourenço e Liliana (igualmente do Big Brother 3 e já separados).

O formato é tão intenso, e teve tanto sucesso, que em 2010 a TVI estreou um novo reality show baseado nesta dinâmica de concorrentes isolados em casa e vigiados 24 sobre 24 horas: Secret Story - Casa dos Segredos, com 13 edições até junho de 2018. A 30 de novembro de 2019, a estação de Queluz anunciou o regresso do Big Brother para março de 2020 - mas acabou por cancelá-lo indefinidamente na sequência do coronavírus. "O tempo é de ser responsável sem concessões", justificou o diretor de programas, Nuno Santos. "O BB 2020 é e será o programa do ano, mesmo num excecionalmente difícil para a comunidade, contudo é imperioso que se reúnam, sem exceção, todas as condições necessárias que algo desta dimensão acarreta."

Porquê este fascínio?

Mas será que depois de estarmos todos em confinamento, de ter passado por essa experiência, alguém vai ter paciência para olhar para aquelas vidas fechadas da mesma maneira? Em tom lúdico e não dramático? O psicólogo Vítor Rodrigues acha que sim. ​​"Em crianças, aprendemos que precisamos de existir na mente de outros para subsistir e que é melhor descobrir por observação do que caindo nós mesmos." Mais tarde, em adultos, a criança interior ainda quer dar nas vistas e aprender por observação. "É como se os que se fazem observar sentissem o seu valor medido pelo que os outros sabem deles, enquanto o público satisfaz a curiosidade de espreitar a privacidade alheia sem ser considerado intrusivo", resume.

Um reflexo dos tempos que correm, em que vemos surgir novas figuras, novas perspetivas económicas e até a monitorização do eu como possibilidade de carreira, acrescenta o sociólogo Nuno Manuel Dias. "Em casa tentamos manter a normalidade com as redes sociais, postamos sobre tudo o que vamos fazendo, e nem damos conta de que o confinamento acentua a nossa exposição num espaço ainda mais aberto do que se andássemos na rua", diz.

Longe vai 1984, mas nunca estivemos tão perto de experimentar o Big Brother de Orwell como agora, fechados entre quatro paredes. O covid-19 tornou-nos concorrentes à força dos nossos próprios reality shows.

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