Terapia com anticorpos pode estar à distância de poucos meses

Cientistas holandeses e um instituto de Israel dizem ter identificado anticorpos que neutralizam a ação do novo coronavírus. É o primeiro passo para um tratamento para a doença.

Com poucas horas de intervalo, cientistas da Holanda e o Instituto de Israel para a Investigação Biotecnológica, sob tutela do ministério da Defesa do país, anunciaram esta segunda-feira (4 de maio) ter identificado e testado anticorpos capazes de travar a infeção pelo novo coronavírus Sars-cov-2.

Este é um primeiro passo que os especialistas consideram promissor para uma futura terapêutica, que poderá tornar-se a primeira para a covid-19, se não houver entretanto mais novidades noutras frentes de investigação.

Apesar de todas as incógnitas associadas a um novo agente patogénico, como é o caso do Sars-cov-2, uma terapia baseada nesses anticorpos poderá estar à distância de alguns meses, talvez meio ano.

"Agora vai ser necessário produzir esses anticorpos em grande quantidade, provavelmente por uma empresa, fazer testes de segurança à sua toxicidade, realizar ensaios clínicos em doentes para verificar a sua eficácia e, se tudo correr bem durante todo esse processo, é possível que dentro de seis meses essa terapia já possa estar disponível", estima Marc Veldhoen, investigador na área da imunologia do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (IMM), da Universidade de Lisboa.

"Se houver um novo pico da doença no outono, e se não existirem contratempos nas fases seguintes do desenvolvimento desta terapia - e em ciência nunca se sabe -, é possível que ela já possa estar disponível nessa altura. Isto é importante, porque uma eventual vacina vai levar com certeza mais tempo", sublinha o investigador do IMM, que está nesta altura, justamente, a trabalhar nesta área dos anticorpos para a covid-19.

Marc Veldhoen é, aliás, o coordenador do projeto de desenvolvimento de um teste serológico para avaliar a imunidade à doença, no âmbito do consórcio Serology4COVID, que integra além do IMM, o Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), o IBET- Instituto de Biologia Celular e Tecnológica, o Centro de Estudos de Doenças Crónicas da Faculdade da Nova Medical School (​​​​​​CEDOC-NMS) e o ITQB Nova, ambos da Universidade Nova de Lisboa.

O teste serológico "já está concluído e funciona", adianta Marc Veldhoen. "Estamos agora a aguardar validação por parte do INSA [o Instituto Nacional Ricardo Jorge, que é a instituição de referência] ".

Resultados positivos em laboratório

O estudo da equipa holandesa liderada por Berend-Jan Bosch, da Universidade de Utrecht, que levou à identificação do anticorpo para a covid-19 foi feito em laboratório com células humanas em cultura.

No artigo publicado esta segunda-feira na revista científica Nature Comunications, os investigadores explicam que isolaram os anticorpos a partir de ratinhos geneticamente modificados para produzirem, justamente, anticorpos humanos.

Os investigadores testaram depois em células humanas in vitro a ação dos anticorpos face ao novo coronavírus, encontraram quatro deles com potencial para o inibir e identificaram um que provou impedir a infeção das células pelo Sars-cov-2.

Como explicou o coordenador da investigação, citado pela Nature Communications, "este anticorpo neutralizante tem o potencial para alterar o curso da infeção no hospedeiro infetado, uma vez que promove a eliminação do vírus e protege uma pessoa que, não estando infetada, esteja exposta ao vírus".

"É muito promissor", considera por seu turno o imunologista e investigador Alexandre do Carmo, do instituto de investigação i3S, da Universidade do Porto, sublinhando que esse é, no fundo, "o princípio das terapias em que se administra aos doentes o plasma de doentes de covid-19 já recuperados".

Esse plasma contém os anticorpos dos doentes que superaram a infeção pelo Sars-cov-2, e estudos publicados por investigadores chineses, entre outros, já mostraram resultados positivos da sua administração noutros doentes de covid-19.

O plasma contém, no entanto, diferentes anticorpos, para além daqueles que são neutralizantes da doença. Já um anticorpo que tenha sido identificado como tendo ação neutralizante específica para o novo coronavírus tem potencialidade para uma eficácia maior.

Sobre os resultados da equipa israelita, a informação é bastante mais escassa, dado que os resultados não foram publicados, mas apenas anunciados pelo instituto que os produziu e pelo ministro da Defesa de Israel, Naftali Benet, que qualificou o trabalho como "uma grande conquista".

De acordo com a nota do instituto israelita, "os investigadores liderados pelo professor Shmuel Shapiro concluíram a fase de desenvolvimento do anticorpo", estando uma patente a ser preparada, para posteriores contactos com laboratórios farmacêuticos.

Não foi avançada, no entanto, mais nenhuma informação ou pormenor sobre o processo ou os métodos utilizados., mas é de esperar que uma vez registada a patente possa haver mais novidades.

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