Se Portugal fosse Coimbra, ascenderia aos lugares de topo do ranking mundial

Educação

Se Portugal fosse Coimbra, ascenderia aos lugares de topo do ranking mundial

O relatório PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) mostra que há diferenças entre regiões, capazes de fazer o país cair na tabela mundial ou mesmo levá-lo até ao topo.

Uma região não faz o país. Se fizesse, Portugal ou estaria muito pior ou muito melhor cotado no relatório internacional PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), divulgado esta terça-feira. O estudo avaliou os conhecimentos dos alunos de 15 anos de 79 países e economias diferentes. E, na Leitura, a principal das três áreas-chave analisadas (além desta, Matemática e Ciência), Portugal atingiu o 24.º lugar no ranking internacional. Mas as diferenças regionais são tantas, que só a região de Coimbra poderia levar o país ao topo e o arquipélago dos Açores ao fim da tabela.

Feitas as contas, caso Portugal fosse desenhado apenas à imagem dos resultados da região de Coimbra, subiria cerca de 15 lugares na literacia de leitura, do 24.º para os primeiros dez. Ficaria, assim, ao nível de países como a Coreia e a Irlanda, mesmo abaixo da Finlândia, uma referência mundial no campo da educação. A região de Coimbra foi aquela que registou a melhor média nesta área de análise (516 pontos) - próximas destes dois países, com 514 e 518 pontos, respetivamente -, 24 pontos acima da média nacional (492).

Mas também foi a melhor na Matemática (523), ao nível de Estónia - em 8.º lugar no ranking, foi o país da OCDE com melhores resultados em Leitura e Ciências, bem como o terceiro em Matemática. Na Ciência arrecadou 517 pontos, igualando Hong Kong no 9.º lugar.

"Não é fácil de explicar" o fenómeno, diz o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE). Mas "já é tradicional ter a região de Coimbra no topo". "Diz-se que é nesta região que se fala melhor português, onde os alunos costumam ter melhores resultados académicos e que as famílias são academicamente e culturalmente mais bem formadas. E o ar da mais antiga universidade deve dar alguma ajuda", explica Manuel Pereira. Além disso, em 2018, era em Coimbra que estava a segunda melhor escola do país de secundário (Colégio da Rainha Santa Isabel), a melhor pública a nível nacional (Escola Secundária Infanta D. Maria, Coimbra) e nove das escolas do top 100 desta lista.

A Área Metropolitana do Porto está entre as cinco melhores regiões do país nas três áreas. Ao contrário do que acontece com a Área Metropolitana de Lisboa.

Açores pior na leitura

Por outro lado, se apenas se contabilizasse os dados do arquipélago dos Açores, a região portuguesa que alcançou o menor desempenho na Leitura, com 443 pontos, o país desceria na tabela até aos piores lugares. Ficaria ao nível, por exemplo, da Sérvia, com 439 pontos na área da Leitura. A região autónoma ficou ainda entre as piores nacionais em Matemática (446) e Ciência (454), com o Alto Alentejo a ocupar o último lugar. Segundo o representante da ANDE, "para os Açores há as razões do costume: uma zona muito isolada, com famílias economicamente desfavorecidas e muito numerosas". Tudo influenciará os resultados. "Assim como o Alto Alentejo é uma região mais isolada e com muito pouca população. E tem vindo a perder população de uma forma brutal.", lembra Manuel Pereira.

Mas a região autónoma da Madeira, com características sociais e geográficas semelhantes aos Açores, ficou a apenas um ponto da média nacional, com 491 pontos. O que pode ser explicado pela dimensão da amostra. O PISA escolhe uma amostra aleatória estratificada de escolas, onde são selecionados cerca de 40 alunos em cada uma (também aleatoriamente), desde que sejam elegíveis para a prova: têm de ter 15 anos e frequentar, pelo menos, o 7.º ano de escolaridade. Como alerta o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), responsável por coordenar a versão portuguesa do PISA, há "erros de estimação estatística ou erros-padrão que estão associados a qualquer imputação de resultados provenientes de amostras de menor dimensão, como por exemplo, as unidades territoriais" que "em regra, serão mais elevados, condicionando a fiabilidade das estimativas obtidas".

Já a Área Metropolitana do Porto (A. M. Porto) está entre as cinco melhores regiões do país nas três áreas. Ao contrário do que acontece com a Área Metropolitana de Lisboa (A. M. Lisboa), que em Matemática até fica abaixo da média nacional (490 contra 492 pontos), "ainda que Lisboa até costume ter dos melhores resultados académicos", lembra o presidente da ANDE.

"O Porto tem ganho alguma pressão demográfica nos últimos anos, mas não se compara a Lisboa. Nomeadamente na zona suburbana, onde existe bastante pressão social, com famílias operárias, desfavorecidas, que chegam a casa tarde e a más horas, e deslocadas também. Tudo isto influencia", esclarece. Aliás, Lisboa regista mesmo uma das maiores taxas de chumbo e abandono escolar do país, ao lado do Algarve.

Portugueses continuam acima da média da OCDE, mas descem a ciências

A nível nacional, a edição 2018 mostra que, apesar de os jovens portugueses de 15 anos (amostra do estudo) terem descido ligeiramente no ranking que avalia a sua literacia (na leitura, na ciência e na matemática), continuam acima da média da OCDE e a ser daqueles que registam uma maior evolução positiva, num ranking liderado pelos países do sudeste asiático.

O estudo internacional, divulgado de três em três anos desde o ano 2000, traça um retrato sobre o desempenho dos alunos de 15 anos de 79 países e economias diferentes. Ao todo, a nível mundial, contou com a colaboração de cerca de 600 mil estudantes, representando cerca de 32 milhões de jovens nesta faixa etária. Em Portugal, foram 5932 alunos e 5452 professores, entre 276 escolas de todas as regiões do país.

Cada um participou numa série de questionários que avaliaram os seus conhecimentos em três áreas-chave - Leitura, Ciência e Matemática, sendo a Leitura a área principal desta edição - e a sua relação com a escola. A grande maioria dos alunos de 15 anos participantes no estudo (57,4) encontrava-se no 10.º ano de escolaridade - um número superior ao registados nos últimos anos, em que havia uma maior distribuição por outros anos. Já 17,2% ainda estava no 9.º ano, 7,2% no 8.º ano e 2,4% no 7.º ano. Há ainda 15,7% destes que se encontravam em em áreas de formação e educação vocacionais ou profissionais.

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