Maria Inês Pereira: "Vai correr tudo bem, vamos todos ajudar-nos"

A enfermeira chefe do Serviço de Medicina 2 do Hospital Curry Cabral deixa aqui o seu testemunho sobre como tem sido viver o combate à covid-19.

Maria Inês Pereira tem 36 anos. É enfermeira há 14, especializou-se na área de saúde mental e psiquiatria, com mestrado na matéria, fez pós-graduações em Cuidados Continuados e Paliativos e em Gestão em Saúde e há dois anos que foi nomeada para as funções de chefia no Serviço de Medicina 2 do Hospital Curry Cabral, um dos polos que integra o Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central (CHULC). Maria Inês deixa aqui o seu testemunho sobre como uma equipa de profissionais de saúde se adapta e sobrevive no combate à covid-19.

"Bora lá equipa"

Em tempos de Pandemia, marcados por uma transformação súbita, confrontar a perenidade das questões éticas com o impulso da mudança, assumiu uma enorme importância, ao desafiarem-se os valores estabelecidos até aqui.

Na nossa prática, estas questões alcançam um valor infinito por se encontrarem intimamente relacionados com a vida e dignidade humanas - as nossas e daqueles de quem cuidamos.

Deparámo-nos bruscamente com uma necessidade de reestruturação dos nossos serviços e reorganização das nossas tarefas por forma a dar resposta aos novos desideratos. Alguns aspetos foram tão elementares como o "vestir/despir" ou "onde comer", mas basilares na nossa segurança.

Aqui, não houve tempo para grande reflexão face à complexidade do fenómeno... Bebemos o conhecimento que havia e avizinhava-se uma batalha daquelas que nunca travámos, sendo necessário também iniciar uma empreitada contra nós próprios.

Ciente das nossas capacidades, mas cheia de receio das nossas limitações, estimular a participação da equipa nos mais diversos processos, promovendo momentos de partilha, discussão, criação, negociação e tomada de decisão, foi uma autêntica demanda.

Recordo os tempos de preparação, planeamento e treino - foi só há 2 meses, agora tornou-se parte de nós. Revivo os primeiros contactos de cuidados, as mãos de ALGUÉM a tremer enquanto calçava luvas - eu ajudava a apertar a bata e a ajustar a viseira, pus a mão sobre o seu ombro e disse "vai correr tudo bem, vamos todos ajudar-nos", lançámos um suspiro e "Bora lá Equipa!"

A frase de comando e de determinação que se tornou vital nos momentos mais difíceis, e que nos tem motivado e assegurado de que estamos juntos.

Não há dúvida de que os comportamentos dos profissionais e o estabelecimento de relações positivas influenciam a eficácia das organizações. Este estado de emergência obrigou-nos a dirigir mais o foco aos profissionais enquanto pessoas, encarando-as como um ativo estratégico e isto tem sido fundamental.

E qual a base das organizações, senão os sistemas humanos que as constituem?..
Nesta fase de transição, entendemos que tudo mudou e percecionamos que nada vai ser como era antes (e um antes que é tão próximo).

Também apreendemos muito do nosso melhor enquanto equipa e existe uma certeza no futuro, que se prende com o caminho que formos caminhando, que todos desejamos ser felizes e fazer a coisa certa.


BORA LÁ EQUIPA!

(*) Enfermeira nomeada em funções de chefia da Medicina 7.2 do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central

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