Mais de 75% dos professores com sinais de esgotamento

Estudo coordenado pela historiadora e investigadora Raquel Varela revela que o fator idade pesa mais do que aspetos como a situação contratual ou a distância entre a escola e a residência no desgaste e realização pessoal

Mais de três em cada quatro professores portugueses (76,4%) "apresentam sinais de esgotamento emocional", sendo que destes 20,6% atingem níveis "preocupantes", 15,6% valores "críticos" de esgotamento e 11,6% "estão em esgotamento emocional pronunciado". As conclusões constam do Inquérito nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal, coordenado pela investigadora Raquel Varela, da Universidade Nova, cujas conclusões são apresentadas nesta sexta-feira numa conferência internacional sobre o tema promovida pela Federação Nacional dos Professores (Fenprof).

O mesmo estudo revela que 42,5% dos docentes exibem nível de realização pessoal abaixo dos 50 pontos em 100. O que equivale a dizer que perto de metade dos professores portugueses não se sentem realizados nas funções que exercem.

O inquérito, que abrangeu 18 420 professores (90% do público e 10% do privado) aponta para uma "correlação fortíssima entre exaustão emocional (IEE) e a idade dos docentes" sendo que, "a partir dos 55 anos", o indicador "atinge valores próximos de 70 [em 100]". Já a classe "abaixo dos 40 anos" não chega aos 50 pontos.

"A classe centrada nos 60 anos tem mais IEE do que o esperado e a classe centrada nos 40 anos está ainda invulgarmente fresca", resumem.

Há muito poucos professores jovens nas escolas portuguesas

O problema, que conduz aos níveis globais muito elevados de IEE, é que Portugal tem uma das classes docentes mais envelhecidas entre os países da OCDE, com 61 vezes mais professores acima dos 50 anos de idade do que abaixo dos 30, como revelou o Perfil do Docente 2015/16, divulgado no ano passado pela Direção-geral de Estatísticas da Educação e da Ciência.

A correlação entre a idade e o desgaste emocional dos docentes é tão acentuada que se sobrepõe a fatores tradicionalmente apontados como causas do desgaste dos professores, como a situação contratual precária e a distância entre a escola e a zona de residência. De facto, apontam os autores do estudo, que envolveu uma equipa multidisciplinar de várias universidades e centros de investigação portugueses, os professores que estão perto de casa e integram os quadros de escola ou agrupamento, bem como os que já alcançaram patamares superiores da carreira, têm níveis de IEE bastante superiores superior aos colegas em situação mais incerta. Nomeadamente os contratados que, segundo as respostas dadas, "não estão em exaustão". A explicação é que a estabilidade profissional chega numa altura em que os docentes "têm mais idade".

Outro indicador que demonstra o peso do fator idade é o desejo de terminar a carreira: "Há uma fortíssima dependência entre o desejo de reforma antecipada e o IEE nos professores", diz o estudo.

Lisboa e Ilhas com "taxas baixas" de desgaste

Além da questão do envelhecimento da classe docente, há outros aspetos fortemente associados ao IEE, nomeadamente a "burocracia", a "indisciplina", a "falta de acompanhamento dos alunos" e a "falta de liberdade criativa".

Por regiões, o Centro - particularmente envelhecido - e Norte exibem taxas de IEE "muito elevado", o Sul valores "acima da média" e a Grande Lisboa, Açores e Madeira "taxas baixas".

Por subsistemas, as escolas públicas têm um nível de IEE "muito maior" do que o das privadas.

Finalmente, as qualificações também se refletem no desgaste, com os mestres a revelarem níveis de IEE bastante inferiores aos dos colegas que são apenas licenciados ou bacharéis. Neste caso, contudo, volta a refletir-se o fator idade, já que os docentes com mais habilitações literárias são, regra geral, os mais novos.

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