comunidade cigana

"Não tenho de viver com uma carrada de filhos às ordens de um homem"

Da casa de Vera podemos sentir uma revolução que nasce entre as mulheres da comunidade cigana. Querem ser estudantes e independentes, para deixarem de ser só mães, donas de casa e esposas, como tradicionalmente foram ensinadas.

"Quando viram que eu fui trabalhar, as mulheres perguntavam-me como eu tinha conseguido. Diziam 'tu é que tens sorte, ninguém manda em ti'", conta Vera, cigana "orgulhosa", 35 anos. Diz ter estado sempre certa do que queria para o futuro: estudar e ser independente. Quando deu por si, os seus sonhos, que tanta estranheza causaram na comunidade, estavam já a inspirar outras mulheres da mesma etnia a serem mais independentes também. Hoje, há uma revolução que nasce entre elas.

"Começaram a questionar 'se ela consegue, porque não havemos nós de conseguir?'"

O estereótipo de mulher cigana, mãe, dona de casa, dependente do marido e da venda ambulante, saltando de terra em terra atrás de uma banca de roupa, nunca coube nos planos de Vera Santos. Debaixo do seu teto, em Faro, vivem sonhos e a vontade de ser diferente, não importa quantas pessoas deixa para trás - nem mesmo o próprio pai, que tantas vezes ameaçou a vida da filha por ter escolhido ser diferente da maioria das mulheres da comunidade cigana. Importa, sim, quantas consegue levar para a frente.

À sua porta chega todo o tipo de mulheres e os problemas e as dúvidas que carregam consigo. Vera começou por ser apenas quem as ajudava "a preencher os papéis dos abonos dos filhos, o IRS" e até a redigir "respostas ou pedidos à autarquia". Confiam-lhe toda a burocracia. Mas rapidamente passaria a ser também o ombro onde elas choram as suas dores. "Vêm bater-me à porta para falar sobre o que os maridos lhes fizeram. Dirigem-se até minha casa, porque muitas vezes sabem que é o único lugar seguro para dormirem."

Procuram-na, está certa, porque fez algo que "elas não têm coragem de fazer", a de decidir sozinha, mesmo que isso implique ir contra a própria família e os valores de uma comunidade que apelida de "fechada". "Começaram a questionar 'se ela consegue, porque não havemos nós de conseguir?'."

Vera passou pelo atendimento em algumas caixas de supermercado e depois pelas limpezas numa esquadra da Polícia de Segurança Pública (PSP). Atualmente, exerce funções como auxiliar no Hospital de Faro.

Por várias vezes, Vera viu uma arma apontada à sua cabeça e ouviu ameaças de morte por parte do pai. "Ele diz que preferia ter morrido a ter uma filha como eu."

Encontrar na escola a coragem para mudar

Desde cedo, Vera foi testemunha da violência de que eram alvo as mulheres na sua família. "Vi o meu avô bater na minha avó, os meus tios a maltratarem as minhas tias, o meu pai a não respeitar a minha mãe", recorda. Cedo percebeu que não queria que o seu futuro passasse por ali. "Sempre disse que, quando crescesse, isto não aconteceria comigo."

Não é assim em todas as famílias e a generalização é o que enfraquece a imagem da comunidade, faz questão de dizer. Para si, a culpa reside na história, na forma como os ciganos foram largados à parte do resto da sociedade, em muitos casos "guetizados", ficando fechados em si e alheios à evolução que ia acontecendo do lado de fora.

Foi sentada numa sala de aula que Vera decidiu que iria tentar mudar o rumo da história. Lá, percebeu pela primeira vez que nem tudo o que ouvia "era assim tão verdade": "que os homens é que sabiam da vida, que as mulheres não sabiam nada e que a escola não teria interesse nenhum para elas". Acredita que a resistência cigana à educação é consequência do medo que a comunidade tem de que as mulheres "aprendam que há outras formas de viver, além das ordens dos maridos". "Não querem que as miúdas saiam para o ciclo, porque aí saberiam mais do que deveriam saber. Mas eu não tenho de viver casada, com uma carrada de filhos e às ordens de um homem", desabafa.

Continuou sentada na mesma mesa da escola até ao 4.º ano, o limite que o pai impôs para a sua escolaridade. Mas sempre soube que ali voltaria. E voltou, já com 30 anos, mãe de duas crianças e um casamento ao qual tinha posto termo há pouco tempo.

"As mulheres pediam-me para eu não fazer isto, porque depois se saberia na comunidade e nenhum cigano iria querer casar comigo."

No entanto, a decisão não foi bem recebida por alguns membros da família. Por várias vezes, Vera viu uma arma apontada à sua cabeça e ouviu ameaças de morte por parte do pai. "Ele diz que preferia ter morrido a ter uma filha como eu", lamenta. Nem mesmo a restante comunidade, homens e mulheres, soube digerir o que Vera representava. "As mulheres pediam-me para eu não fazer isto, porque depois se saberia na comunidade e nenhum cigano iria querer casar comigo", conta, recordando que é exatamente este tipo de pensamento que luta por contrariar.

Garante que não lhe restava mais do que "duas simples opções": "Ou ficava à guarda deles e vivia para sempre submissa ou saía da comunidade e fazia da minha vida o que sempre sonhei, sem deixar as outras para trás. Se eu mostrasse medo, não teria tudo o que tenho hoje."

Todas as decisões que tomou, tão distantes do estilo de vida a que a comunidade estava habituada, fizeram nascer a curiosidade da restante família, que ainda tenta compreender o desconhecido. Fazem-lhe perguntas, "muitas", até sobre as tatuagens que decidiu pintar no corpo. "Quando os meus primos me viram com tatuagens, perguntaram-me se poderiam fazer igual e onde. 'Isso dói? Vens connosco, prima?'." Esta mulher cigana é um mundo novo para todos os que a olham, mesmo os que não o fazem pela primeira vez.

Apesar de entristecida pelas consequências familiares das suas decisões, confessa que o seu objetivo de vida não passa por "agradar" o pai, mas pelas "mulheres desta comunidade". É por elas que repete diariamente que "esta foi a decisão mais acertada".

No entanto, reconhece que "a pobreza destas mulheres nunca estará extinta, porque muitas resistem neste estilo de vida e ensinam as filhas a resistir também". Basta olhar para a própria mãe de Vera para ver o reflexo disso mesmo. "A minha mãe passa a vida a dizer à minha filha para não ser como eu, que tem de casar com um cigano e ficar com ele." Mas Vera não retrocede nem por um segundo: "Faria tudo outra vez."

Em 19 anos, o número de jovens de etnia cigana nas escolas portuguesas duplicou.

Cada vez mais ciganos nas escolas

A tradição ditou, durante anos, o número de jovens de etnia cigana nas escolas - baixo, cada vez mais à medida que o nível de escolaridade sobe. Mas Bruno Gonçalves, também ele cigano e uma das principais figuras da comunidade envolvidas no associativismo nacional, não tem dúvidas de que a tendência já é outra: "Há mais ciganos nas escolas, sobretudo com graus de escolaridade maiores."

Os números comprovam-no. Um estudo nacional sobre as comunidades ciganas, divulgado pelo Ministério da Educação em 2018, indica que o número de jovens de etnia cigana nas escolas duplicou em 19 anos. Enquanto no ano letivo de 2016-2017 havia pelo menos 11 018 matriculados no ensino obrigatório, há quase 20 anos eram metade disso, 5921.

Bruno garante que "haverá muitos mais" não contabilizados nas estatísticas, pois há jovens que, "por força do preconceito, dizem que não são ciganos". Acontece, explica, "principalmente em zonas onde a representação da comunidade cigana não é assim tão grande, onde podem facilmente passar despercebidos".

Por ser um dos grandes impulsionadores portugueses e atual gestor do programa Operacional de Promoção da Educação (OPRE) - financiado pelo Alto Comissariado para as Migrações, que já ofereceu bolsas de estudo a muitos destes jovens, como medida para evitar o abandono escolar precoce - Bruno considera-se familiarizado com a realidade desta comunidade. Acredita mesmo que foram os programas de promoção da educação que fomentaram a sua presença no ensino português. "Aí é que começam a aparecer mais jovens, é que começámos a captar mais. Trabalhamos os pais, trabalhamos os jovens e foi um pouco por aqui que aumentou a sua presença no ensino superior", recorda.

Mas não só: "Há ainda o dilema económico." Estes jovens "começam a ter necessidade de ter mais estudos para alcançar uma melhor vida, para entrar no mercado laboral". Aquela que é tradicionalmente considerada a sua principal atividade económica, a venda ambulante, já "não é rentável" e tem os dias contados, o que faz que os ciganos "procurem outras alternativas".

Apesar do aumento da sua representatividade no ensino português, ainda se registam grandes fossos entre os níveis de escolaridade. O pré-escolar parece ser o mais concorrido: 62% das crianças que entraram para o 1.º ciclo em 2016 tinham-no frequentado. Já no 1.º ciclo estavam 5879 crianças matriculadas, mas o número desce drasticamente deste para o 2.º ciclo, onde há registo de apenas 30 78 matriculados. O fosso aumenta na passagem para o 3.º ciclo, com 1805, e para o secundário, com apenas 256 jovens ciganos.

E os que chegam às universidades continuam a ser poucos, mas o número também cresce. Bruno Gonçalves acredita que atualmente sejam "à volta de 80", quando "há dez anos seriam cerca de 30".

Ele mesmo é um destes exemplos e a sua história é bem diferente da de Vera. Apesar de ser filho de pais com pouco ou nenhum grau de escolaridade - o pai é analfabeto -, foram eles quem mais estimularam a sua dedicação aos estudos. "Tinha uma mãe mais irreverente do que as outras mulheres na comunidade, que queria um pouco mais de nós do que o normal, mesmo nas tarefas de casa", conta. Estudou até ao 8.º ano, quando teve de desistir para "ser mais um a ganhar para a casa". Foi auxiliar os pais na venda ambulante e regressou aos estudos já adulto, com 22 anos, para fazer o 9.º ano na programa Novas Oportunidades. Mais tarde, já casado, concluiu o 12.º ano e há três anos entrou no ensino superior. É hoje licenciado em Animação Socioeducativa pela Escola Superior de Educação de Coimbra.

"Crescemos a saber que há portas que nunca são abertas para nós. Há quase um mundo paralelo no qual os ciganos não podem entrar."

Também Cátia Montes Marisa, tantas vezes mencionada por Vera Santos como "um exemplo para as mulheres ciganas", se revê nesta história. Diz ser a única estudante universitária da sua faculdade - atualmente, com 32 anos, está no terceiro e último ano da licenciatura de Educação Social na Universidade do Algarve. "A minha história é diferente porque eu sou cigana e estou na universidade." É assim que se apresenta.

Ser cigano e ser estudante, principalmente no ensino superior, ainda é algo "pouco comum" entre a comunidade. E está certa do porquê: "Crescemos a saber que há portas que nunca são abertas para nós. Há quase um mundo paralelo no qual os ciganos não podem entrar. Não só por haver familiares que são contra o seguimento na educação - especialmente nas comunidades que estão mais guetizadas -, mas porque percebem que o mundo laboral não irá aceitar tão bem um cigano como outra pessoa." E, por isso, consideram que ir mais longe nos estudos, tendo em vista o mercado laboral, não é um esforço que valha a pena. Ela mesma admite não saber se o investimento que está a fazer nos estudos lhe valerá um lugar no mercado, acima de todos os preconceitos - embora se confesse "otimista".

Ainda que seja a única cigana na instituição de ensino que frequenta diariamente, está consciente de que a presença da sua comunidade no ensino superior é um fenómeno muito além da sua história individual. Mesmo sem conhecer os números, Cátia garante que "há cada vez mais ciganos que estão a recusar-se a ficar eternamente à sombra daquilo que a sociedade dá".

A maioria dos pais e avós justificaram a saída precoce da escola dos filhos e dos netos por considerarem que já tinham "aprendido o necessário" ou porque já "estavam noiva/os, casada/os, grávidas ou tinham sido recentemente mães/pais".

A "revolução silenciosa" das ciganas

Quer Bruno quer Cátia reconhecem (ainda que lamentem) que são casos raros numa comunidade que historicamente nunca valorizou o ensino. De acordo com o Perfil Escolar da Comunidade Cigana, que caracteriza os alunos matriculados nas escolas públicas do continente no ano letivo 2016-2017, a maioria dos pais e avós justificaram a saída precoce da escola dos filhos e dos netos por consideraram que já tinham "aprendido o necessário" ou porque já "estavam noiva/os, casada/os, grávidas ou tinham sido recentemente mães/pais". Vera Santos reconhece estas justificações, que tantas vezes ouviu proferidas pelos pais, e garante que a resistência familiar à continuação nos estudos é maior para as raparigas, menor para os rapazes.

"Não podemos tipificar uma família cigana. Isso é um grande erro. A comunidade cigana da Figueira da Foz é completamente diferente da comunidade cigana de Lisboa. Em alguns aspetos, uma é bem melhor, muito devido à política de inclusão dessa autarquia."

Na perspetiva de Bruno Gonçalves, "o papel da mulher cigana ainda é formatado" e provavelmente "o mesmo papel da mulher não cigana há 40 anos". Recorda que depois do êxodo rural, "na sociedade maioritária", a mulher "começou a ganhar o seu espaço, a lutar pelos seus direitos e privilégios", enquanto o mesmo apenas está a revelar-se agora para a mulher cigana. Bruno apelida-o mesmo de "revolução silenciosa". "Há mulheres ciganas que cada vez mais lutam pelos estudos. São processos muito lentos, como foi na sociedade maioritária, mas acredito que as necessidades económicas dão força a este movimento", explica.

Tradicionalmente, "as mulheres ciganas foram criadas para ser mães, esposas e donas de casa" e "as mentalidades são coisas muito difíceis de mudar", lamenta. Ainda mais quando tal acontece "numa comunidade (historicamente) muito perseguida". Mas Bruno acredita ser possível e recorda até o exemplo de países como Espanha. "É o mais parecido connosco em termos políticos, também passaram por uma ditadura, mas culturalmente é um pouco mais bem aceite. E, neste momento, as mulheres ciganas espanholas, em algumas regiões, são alguns dos principais rostos sociais e políticos do país. Temos três mulheres candidatas às eleições europeias."

Ainda assim, alerta que a força e a rapidez desta revolução dá-se de diferentes formas em diferentes zonas do país. "Não podemos tipificar uma família cigana. Isso é um grande erro. A comunidade cigana da Figueira da Foz é completamente diferente da comunidade cigana de Lisboa. Em alguns aspetos, uma é bem melhor, muito devido à política de inclusão dessa autarquia", faz questão de sublinhar.

Os números que a Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial (CICDR) registou nos últimos anos dá conta de que a maioria das queixas incide nas comunidades cigana, negra e brasileira. E foi precisamente perante esta conclusão que a Subcomissão para a Igualdade e não Discriminação decidiu abrir as portas do Parlamento para as ouvir. Os ciganos pedem maior participação e representação política, mais segurança e justiça, acesso a melhores condições de habitação, educação integrada e a erradicação da discriminação no trabalho e nos serviços de saúde. Até julho, esta comissão irá concluir um relatório sobre racismo, xenofobia e discriminação étnico-racial em Portugal.