Está uma revolução no porto de Lisboa e chama-se "Energy Observer"

Um antigo catamarã à vela de alta competição foi transformado no projeto mais inovador do planeta para dar sustentabilidade à navegação marítima

"Sim, é uma revolução". O velejador francês Victorien Erussard, de 39 anos, fala assim, sem nenhuma hesitação, do catamarã de 30 metros de comprimento que tem capitaneado no último ano numa volta ao mundo que, por estes dias, está em Lisboa (junto à Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos).

Chama-se o barco Energy Observer e a "revolução" de Erussard fala com entusiasmo é energética. O catamarã move-se a motor eléctrico e desloca-se a velocidades entre os nove (velocidade de cruzeiro) e os 22 km/h (velocidade máxima). E isso acontece sem que produza um grama de emissões poluentes ou consuma um litro que de combustíveis fósseis - zero.

Hidrogénio - é esse o nome da revolução. O gás que se obtém através, no caso, da electrólise, um processo que permite extrair hidrogénio a partir da água do mar. Esse hidrogénio devidamente transformado em energia elétrica e armazenado em baterias permite ao "Energy Observer" manter-se em plenamente em funcionamento mesmo quando as suas duas outras fontes energéticas - a solar (com placas colocadas em todo o convés) e a do vento (através de aerogeradores colocados na popa) - não estão disponíveis (à noite e/ou quando não há vento).

O Energy Observer é revolucionário porque não há mais nenhum barco assim no mundo. "É um projeto pioneiro" e, ao mesmo tempo, "o futuro da navegação", garante Erussard - que só tem uma palavra para o problema das alterações climáticas: "Tragédia".

É que, diz ainda o velejador, é possível "dar escala" à navegação a hidrogénio. Dito de outra forma: este barco é apenas um modelo em pequeno do que pode ser feito em grande, para, por exemplo, barcos de transporte de passageiros. E tanto assim é que "já há armadores interessados" na experiência. Mais ainda: a energia do hidrogénio pode, em havendo empenho e investimento, aplicar-se na aeronáutica - sendo que na industria aeroespacial já há muito que é usada.

"É um bom exemplo para o futuro, vermos isto aplicado é muito bom"

Transformar o Energy Observer - um antigo catamarã à vela - naquilo que ele é hoje custou cinco milhões de euros. E segundo o seu skipper, 95% do investimento veio de empresas privadas (uma marca de automóveis, uma seguradora, uma cadeia de hóteis, etc) "que preferiram por o seu dinheiro num projeto de investigação científica em vez de o gastar num evento desportivo".

Associada à viagem do catamarã vem uma exposição que está aberta ao público em Lisboa, em frente ao Campo das Cebolas, até 30 de setembro. Victorien Erussard, pelo seu lado, estará presente no Oceans Meeting, encontro internacional sobre os mares e oceanos que se realizará, também em Lisboa, quinta e sexta-feira.

Quem se associou também à apresentação aos jornalistas portugueses do Energy Observer foi a Câmara Municipal de Lisboa, através do vereador do Ambiente, José Sá Fernandes. "É um bom exemplo para o futuro, vermos isto aplicado é muito bom", disse, recordando que em 2020 Lisboa será "capital verde europeia" (uma decisão da Comissão Europeia) e ainda que a autarquia vai construir uma central de energia solar que abastecerá os futuros autocarros elétricos da Carris.

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