Emanuel, o aluno de 19 que teve de abandonar o Técnico e ir para a Madeira

Tem 20 anos, mas uma história já feita de algumas dificuldades. Saiu da Venezuela para a Madeira por causa da situação complicada do país; saiu de Lisboa, onde tinha entrado no Técnico, porque não tinha maneira de pagar a estada. Quer construir pontes.

O caso ainda não tinha nome, apenas um número: 18,94 era a nota com que o último (e neste caso o único) aluno entrou no curso de Engenharia Civil na Universidade da Madeira. E por isso mesmo catapultou aquela instituição para o primeiro lugar da lista dos cursos com nota de entrada mais alta. Agora, este número já tem um nome e uma cara: Juan Emanuel Baptista, 20 anos, nascido na Venezuela, filho de pais portugueses.

Ao telefone com o DN, conta a sua história, que apesar de breve já é feita de muitas mudanças e alguns reveses. Emanuel Baptista nasceu e viveu quase toda a sua vida no estado venezuelano de Miranda, numa pequena localidade. Com a mãe e os avós, todos madeirenses, acabou por mudar-se para Caracas onde esteve quatro anos, até que a situação política e económica do país os fez fazer as malas e regressar à Madeira.

"Vim com a minha avó em 2015, viemos os dois primeiro, e só depois chegou a minha mãe com o meu avô." Na Venezuela está ainda o pai e dois meios-irmãos. "Vir para a Camacha não foi assim um choque tão grande, porque eu não tinha vivido assim tanto tempo em Caracas, estava habituado a uma terra pequena e pacata."

Emanuel fez os dois últimos anos do secundário no Funchal e sempre teve boas notas, apesar de ainda falar com um sotaque muito cerrado, percebe português perfeitamente.

Com as notas elevadas, com o sonho de ser engenheiro civil, fascinado por pontes (a sua favorita é a Ponte da Normandia), Emanuel Baptista tinha tudo para ingressar na mais conceituada universidade na área das engenharias do país: o Instituto Superior Técnico, em Lisboa. E esse sonho concretizou-se.

Emanuel fez as malas, meteu-se no avião, e aterrou em Lisboa no ano passado. Subiu a escadaria do Técnico e começou a estudar, crente de que a bolsa a que se candidatou rapidamente chegaria para poder pagar o alojamento em Lisboa. Mas não foi bem assim. Aliás, não foi mesmo nada assim.

"Foi revoltante"

"Pedi a bolsa assim que entrei, mas só comecei a receber informações sobre o processo depois de ter passado todo o primeiro semestre. Falei com professores, falei com o Técnico, mas eles não podiam fazer muito mais enquanto o processo não estivesse concluído." E até lá, fosse essa data qual fosse, Emanuel não tinha dinheiro para pagar um quarto.

"Um quarto a 400 euros era impossível para mim", conta. Então Emanuel teve de tomar uma decisão. Foi ver a residência universitária do Técnico, mas o facto de ter de partilhar um espaço pequeno com uma pessoa que não conhecia era impossível para ele. "Sou muito tímido e preciso do meu espaço. Portanto fiz a minha escolha e voltei para a Madeira."

Diz Emanuel que se sentiu "revoltado" ao início, pelo facto de ter trabalhado tanto para poder estudar numa das melhores universidades do país e ter desistido por razões financeiras. "Foi uma situação muito revoltante ao início e de uma grande impotência, porque eu não podia mesmo fazer nada."

Então regressou à Camacha, fez o segundo semestre na Universidade da Madeira e neste ano acabou por concorrer novamente por questões quase burocráticas. Na verdade Emanuel só espera as equivalências para seguir já para o segundo ano. Não vai ficar a estudar sozinho, pode viver com a mãe e os avós e continuar a sonhar ser construtor de pontes.

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