Desinformação, desrespeito, individualismo. O que os líderes atuais transmitem aos miúdos

Pais devem assumir uma postura de mediação: explicar o que está a acontecer, mostrar as diferentes opiniões, falar sobre aquilo em que acreditam e ajudar os filhos a pensar. Ambientalistas e psicólogos explicam o que está em causa com as mais recentes declarações dos presidentes dos EUA e do Brasil.

Donald Trump, presidente dos EUA, cancelou a visita à Dinamarca, prevista para 2 e 3 de setembro, porque o governo dinamarquês recusa vender a Gronelândia. No Brasil, o presidente, Jair Bolsonaro, diz que não tem responsabilidade nenhuma nos incêndios que estão a alastrar pela Amazónia e avança com a possibilidade de terem sido as ONG (Organizações Não Governamentais) brasileiras a atear fogo à floresta, enquanto vários institutos relacionam as políticas do governo com o aumento de 83% dos incêndios de 2018 para 2019. Que mensagens estão os mais mediáticos líderes mundiais a passar às gerações mais novas, que se têm mobilizado de forma excecional em nome do clima?

"A primeira questão que se levanta é a passagem de mensagens falsas. À escala nacional e internacional, não deixa de ser dramático um líder não transmitir mensagens e conteúdo científico e tecnicamente rigoroso em relação ao ambiente", diz Francisco Ferreira, presidente da ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável. Por outro lado, prossegue, há "desrespeito" pelas gerações seguintes: "A Amazónia e a Gronelândia são locais que já estão a sofrer as consequências das alterações climáticas. E quem irá sofrer mais são as novas gerações".

Para o professor do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, existe uma "incapacidade de ter um olhar global sobre ambas as áreas". O degelo da Gronelândia, explica, pode, no limite, levar a um aumento do nível médio da água do mar em vários metros. Já a Amazónia, "pode deixar de ser um sumidouro de carbono para ser um emissor". Em causa estão valores "com particular significado pela sua dimensão e importância", pelo que "é ainda mais dramático que cada país, sendo proprietário, possa gerir os valores como quer".

Francisco Ferreira considera, ainda, que estamos perante uma tentativa de "culpabilizar quem denuncia, sem qualquer justificação". Enquanto Bolsonaro levanta suspeitas sobre a ONG, Donald Trump "cria problemas institucionais entre dois países à custa de algo que no século XXI não faz qualquer sentido". Ao mesmo tempo, sublinha, "os mais novos denunciam, fazem greves climáticas". Na opinião do presidente da ZERO, a maioria dos jovens, quer nos respetivos países, quer à escala mundial, "tem educação, formação e visão que aquilo que lhes é dito não corresponde à realidade". Mas existirão outros, assume, como aqueles que habitam nos estados onde a atividade económica depende da Amazónia, "que alinharão com o presidente".

Individualismo e segmentação

"Estes líderes mundiais têm visibilidade, ocupam um lugar de modelo para toda a sociedade a nível mundial", destaca a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva. Como tal, explica, são figuras de referência para toda a sociedade, dos mais novos aos mais crescidos. "Estamos perante dois líderes que têm um conjunto de comportamentos que podem ser preocupantes nas mensagens e influências que passam às crianças e aos adultos".

Destacando que não questiona as competências técnicas dos mesmos, a psicóloga afirma que assistimos a "políticas e comportamentos muito segmentários, a apelar muito ao individualismo: 'o que eu acho é melhor do que o que achas, se não concordas, não há diálogo'". Questiona, por isso, as mensagens que passam em termos de comunicação e de negociação. "E não são as melhores referências em termos de inteligência emocional".

"Estamos perante dois líderes que têm um conjunto de comportamentos que podem ser preocupantes", considera a a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva

Crianças e adultos podem agir de diferentes formas perante as notícias: identificação positiva ou negativa. "Os grandes movimentos e manifestações ecológicas são exemplo de ações que traduzem uma identificação negativa". E a influência é feita de forma "mais ou menos consciente".

Pode pensar-se que as crianças são o grupo mais vulnerável, uma vez que "têm menos recursos cognitivos para distinguir o que é certo e errado". Contudo, ressalva a psicóloga, "têm uma enorme sensibilidade e intuição", que pode ser uma vantagem em relação aos adultos, mais suscetíveis a ter "ideias enviesadas ou a procurar verdades absolutas". Seguindo "líderes que não fomentam a liberdade", há até o risco de "replicarem esses modelos nas suas casas".

Filipa Jardim da Silva considera que os adultos devem estar "muito atentos para diferenciar o que faz sentido adquirir ou filtrar. Se não existirem boas práticas de higiene mental, as influências colam-se a nós. E há um dia em que falamos como aquele líder".

Papel de mediação

Bárbara Ramos Dias, especialista em psicologia do adolescente, defende que "as mensagens dos grandes líderes têm um impacto brutal", pelo que "há muitos adolescentes que as verão como aquilo que devem seguir". Ao mesmo tempo, discursos contraditórios farão com quem fiquem "sem saber o que pensar ou fazer". Por isso, sugere, cabe aos pais o papel de mediação.

"Devem explicar o que está a acontecer, mostrar as diferentes opiniões, aquilo em que acreditam e ajudar os filhos a pensar. Sem instruções quadradas", propõe a autora do livro "Respostas simples às perguntas difíceis dos nossos filhos". Na sua prática clínica, a psicóloga apercebe-se que as gerações mais novas estão "muito sensibilizadas" para as questões ambientais: "Revoltam-se. Querem que os filhos vivem num planeta saudável. Querem conseguir ter filhos".

"As mensagens dos grandes líderes têm um impacto brutal", diz Bárbara Ramos Dias, especialista em psicologia do adolescente

Nos últimos anos, passou a existir uma maior consciencialização dos problemas ambientais. Nuno Sequeira, vice-presidente da Quercus (Associação Nacional de Conservação da Natureza), assegura que "temos hoje uma sociedade mais desperta para as questões ambientais, fruto do trabalho de educação ambiental que se faz há 20 ou 30 anos". Uma mobilização que cresceu bastante nos últimos dois anos e que foi impulsionada pela ativista sueca Greta Thunberg, que neste momento cruza o Atlântico de barco para alterar consciências para estas questões.

Essa consciência, diz o responsável, está relacionada também com o facto de "as pessoas sentirem na pele" as consequências das alterações climáticas: fenómenos extremos, seca, subida do nível médio da água. No entanto, lamenta, os EUA e o Brasil "elegeram governantes céticos em relação a um problema global que são as alterações climáticas e que têm feito muito para descredibilizar governantes anteriores: desmantelam legislação de proteção ambiental, travam medidas de proteção da biodiversidade, não colocam ao dispor meios de proteção ambiental".

Nuno Sequeira critica o facto de os governantes passaram "mensagens erradas", "anti-ambiente". Ao invés de culpar as ONG pelos fogos, o responsável diz que o presidente do Brasil deveria "comprometer-se a disponibilizar meios de combate a incêndios, estabelecer metas para travar a desflorestação e passar a mensagem aos brasileiros que aquele é um património inigualável".

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