Fintar a covid-19. Idosos recuperam e trazem histórias de esperança

Os idosos estão entre os grupos mais vulneráveis ao novo coronavírus. Deficiências imunológicas, maior prevalência de doenças crónicas, e, por conseguinte, idas mais frequentes ao hospital, estão entre as explicações. Mas começam a surgir cada vez mais relatos de pacientes que debelaram o vírus, simbolizando esperança para milhares de doentes.

Os últimos números de covid-19 em Portugal dão conta de 187 óbitos, 120 dos quais com 80 ou mais anos. No boletim diário desta quarta-feira, há ainda a reportar 8.251 casos confirmados. Pela positiva, de assinalar os 43 pacientes que recuperaram da infeção.

Relatórios da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Direção-Geral de Saúde (DGS) colocam os mais velhos entre os mais suscetíveis e a encabeçar as estatísticas de letalidade. Mais de 80% dos óbitos por covid-19 em Portugal ocorre em pessoas com idades acima dos 70 anos. Mas há boas notícias que provam que as estatísticas podem falhar.

Por cá, existem motivos de regozijo, sobretudo depois de na terça-feira o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, ter falado no caso de uma idosa de 93 anos, com um quadro clínico grave, que recuperou da covid-19. Mais do que números, é um sinal de esperança em tempos de inquietude. A paciente, residente na Grande Lisboa, recuperou após 11 dias de internamento. Já se encontra em casa, onde vive com o marido.

Da China chegam relatos de um homem de 100 anos que recuperou do coronavírus e recebeu alta hospitalar, segundo a agência estatal chinesa Xinhua. O idoso fazia parte de um grupo de mais de 80 pacientes infetados com covid-19 que receberam alta de um hospital em Wuhan, a capital da província de Hubei, o epicentro do surto. O homem nasceu em fevereiro de 1920 e tinha acabado de completar o seu 100º aniversário.

Foi internado a 24 de fevereiro depois de um diagnóstico positivo ao novo coronavírus. Além de ter a doença de Alzheimer, sofre também de hipertensão e doença coronária. Devido ao seu quadro clínico, os médicos tentaram de tudo, incluindo um tratamento antiviral, medicina tradicional chinesa e terapia à base de plasma de um paciente em convalescença.

Outras duas pacientes de um lar no epicentro da crise do novo coronavírus nos EUA também recuperaram, após terem dado positivo nos testes. Numa rara boa notícia nos dias que correm, o porta-voz do Departamento de Saúde de Seattle anunciou que dois idosos infetados do Life Care Centre de Kirkland já tinham sido submetidos ao segundo teste de despistagem e que, após terem recebido tratamento hospitalar, constam já das estatísticas dos casos recuperados. Pouco depois, foi anunciado mais um caso de recuperação deste lar, onde mais de 62% dos 130 residentes - um quarto viria a morrer - foram infetados em meados de fevereiro. Geneva Wood, de 90 anos, é agora mais um farol de esperança para os milhares de americanos com o vírus; e para os milhões que o temem. Wood, que tem cinco filhos, 11 netos, 12 bisnetos e três trinetos, deu positivo ao coronavírus a 6 de março.

"Nunca sobrestimem o poder do pensamento e das orações. Continuem. Está a resultar!", afirmou a sua filha, Kate Neidigh, destacando que a união da família e o amor que têm uns pelos outros foi a força motriz para a sua recuperação de Geneva Wood

Outro relato mais do que bem-vindo em tempos de desânimo vem de Itália. Um paciente com 79 anos diagnosticado com o novo coronavírus recuperou totalmente após ter sido tratado com Remdesivir, um medicamento antiviral desenvolvido pela Gilead Sciences para tratar o surto de Ébola. Segundo as autoridades sanitárias, o paciente começou a ser medicado a 7 de março e, após dois testes negativos e 12 dias de internamento, recebeu alta médica. Trata-se de um fármaco experimental apontado como uma arma contra o covid-19. O Infarmed já autorizou três pedidos em Portugal para a utilização do Remdesivir.

Continuando em Itália, mas desta vez na cidade de Rimini, na costa adriática, a região do país mais afetada pela epidemia do SARS-Cov-19, um homem com 101 anos recebeu alta hospitalar e foi autorizado a ir para casa, engrandecendo agora a coluna dos casos recuperados. Identificado como Senhor P., esta foi a segunda epidemia que enfrentou. Nascido em 1919, no meio do pico da gripe espanhola, a pandemia do vírus influenza que infetou cerca de um terço da população, este é um caso notável de sobrevivência.

O homem foi admitido no hospital a meio de março depois de apresentar sintomas e de testar positivo para o covid-19. Duas semanas depois, foi dado como recuperado e pode voltar para casa de familiares. O Senhor P. tornou-se num símbolo de esperança, sobretudo quando considerada a elevada taxa de letalidade que este vírus está a ter na população italiana com mais de 70 anos - mais de 80% das mortes no país foram registadas em pessoas desta faixa etária. Este cidadão italiano de 101 anos faz agora parte do grupo de pessoas acima dos 90 anos que sobreviveu à infeção.

Também a Coreia do Sul viu na quinta-feira passada a sua paciente mais velha deixar o hospital, quando uma mulher de 97 anos de Cheongdo (cidade próxima de Daegu, o pior surto do vírus no país) foi dada como recuperada.

E os casos de recuperação de idosos acumulam-se. Do Irão, outra boa notícia. Mais uma idosa recuperou. Uma mulher com 103 anos debelou a doença. De acordo com a agência IRNA, que não identificou a pessoa, a paciente estava hospitalizada há uma semana na cidade de Semnan , no norte do país, e já teve alta, após total recuperação. Foi a segunda pessoa desta faixa etária mais vulnerável a sobreviver ao vírus no Irão. A primeira foi um paciente de 91 anos, da cidade de Kerman, no leste do Irão. Apesar do seu quadro clínico complicado, com hipertensão e asma, teve uma recuperação exemplar, após três dias de hospitalização. Desconhece-se o tratamento.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que o novo coronavírus mata mais de 3,4% dos infetados, sendo a faixa etária acima dos 80 a mais vulnerável, com um índice de mortalidade estimado em 21,9%


Também de França multiplicam-se os relatos de idosos que venceram o vírus. Casos que trazem alento face aos balanços diários dramáticos da epidemia. Em França, apenas 35% dos pacientes com o novo coronavírus têm mais de 65 anos, mas quase 80% das mortes registadas até esta quarta-feira ultrapassam os 75 anos. Mas os testemunhos de pessoas mais velhas que deixaram os hospitais curadas começaram a crescer na semana passada. Os ex-pacientes estão entre os primeiros infetados no país, em fevereiro.

Georges, de 86 anos, é um deles. Morador de Crépy-en-Valois, no departamento de Oise, um dos primeiros focos do coronavírus no país, começou a apresentar sintomas a 16 de fevereiro. O diagnóstico inicial foi de uma bronquite e foi hospitalizado num quarto duplo. O quadro clínico agravou-se, a infeção por coronavírus foi confirmada, e Georges foi isolado. Ficou internado durante 15 dias e hoje, já em casa, diz fazer parte dos privilegiados que sobreviveram a esta pandemia.

Outro caso notável de recuperação foi o de Daniel, de 88 anos, o primeiro residente de Ardennes, no norte de França, a ser diagnosticado com Covid-19. Também a emocionar o país está a história de recuperação de um casal de idosos. Henri Marchais, de 90 anos, e a mulher, Monique, de 88, ficaram doentes e foram internados juntos, no mesmo quarto, no hospital Bichat de Paris. Juntos venceram a doença. Já em casa, continuam a acatar o distanciamento social, enquanto aguardam ansiosamente a oportunidade de poder abraçar e beijar de novo os 26 netos e bisnetos.

Relatórios com base nos primeiros 72.314 pacientes diagnosticados na China permitiram constatar uma acentuada variação na taxa de mortalidade por faixa etária. A doença parece ser cada vez mais letal quanto maior for a faixa etária

As lições que devemos aprender com os pacientes mais velhos

Face a estes casos de sucesso, torna-se cada vez mais premente entender as variáveis que colocam os idosos em maior risco, para que se possam desenvolver estratégias para proteger a sociedade como um todo.

A função imunológica diminui com o avançar da idade, tornando-nos mais suscetíveis a doenças mais graves. À medida que envelhecemos, os mecanismos de defesa desgastam-se. Não só o organismo tem mais dificuldade em combater novas infeções, como o covid-19, como também é mais provável que se seja afetado por doenças crónicas que tornam o sistema imunitário mais fraco.

Como o nosso corpo se deteriora no combate a agentes invasores

Nos idosos, o número de glóbulos brancos (leucócitos) - que ajudam a combater infecções - pode decrescer. As células também se tornam menos hábeis em identificar novos agentes patogénicos. No caso do covid-19, o vírus também pode danificar as células imunológicas que, de outra forma, seriam capazes de debelar a doença. E quanto menos células, mais severa será a patologia.

"A função imunológica vai enfraquecendo com o avançar dos anos", segundo Sean Leng, geriatra e professor de medicina na Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins (EUA). "Estudos ao longo dos anos mostraram que, na maioria das pessoas, a função imunológica é bastante boa quando têm 60 ou mesmo 70 anos. Mas esta começa a desacelerar rapidamente após os 75 ou 80 anos. "

Quando é desencadeada uma resposta à infeção, o sistema imunológico de um idoso tem mais probabilidades de reagir de forma exagerada - e perigosa. Um fenómeno conhecido como "cascata de citocina", uma reação imune potencialmente fatal. As citocinas são proteínas que servem como sinais para o corpo acelerar o seu mecanismo de combate a infeções.

Porém, quando ocorre esta "cascata", as citocinas são produzidas em excesso, provocando inflamações graves, febres altas e falência de órgãos. Por outras palavras, não é apenas uma resposta lenta a infeções que pode por em risco os idosos; a reação exagerada do sistema imunológico a um agente invasor também pode matar", sublinha Leng.

A causa de morte do novo coronavírus é, em primeiro lugar, insuficiência respiratória e, em seguida, provavelmente a cascata de citocina, acrescenta a especialista. A boa notícia, como relataram dois médicos da Universidade do Alabama, em Birmingham, ao site de notícias Vox, é que existem tratamentos para esta reação imune, o que poderá ajudar a salvar um número significativo da população mais idosa neste surto.

Por outro lado, os idosos também têm maior prevalência de doenças crónicas. A mais comum é a hipertensão, seguida da cardiopatia isquémica e diabetes. Juntamente com sistemas imunológicos enfraquecidos, estas doenças subjacentes podem ser um entrave ao combate de infeções. É importante perceber que o problema não é a idade, mas sim envelhecer com doenças crónicas, que podem degradar os órgãos e torná-los mais vulneráveis a infeções. Além disso, os tratamentos para essas condições clínicas podem suprimir o sistema imunológico, deixando o organismo mais suscetível a agentes patogénicos.

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