Da caixa de supermercado para a faculdade de medicina com 19,4 valores

Totó, nerd ou marrão. Estes são alguns dos adjetivos utilizados pelos adolescentes quando se referem aos melhores alunos da escola. Beatriz Araújo não encaixa no perfil. Terminou o secundário com nota 20 a todas as disciplinas, mas fugiu ao estereótipo do aluno de excelência. Trabalhou como caixa no Pingo Doce ao longo de todo o 12º ano. (Texto publicado originalmente a 19 de setembro de 2019)

A portuense de 19 anos, estudante no Colégio Júlio Dinis, trabalha desde os 15. Sai com os amigos à noite sempre que não está "de serviço", tem namorado e, em vez de ter explicações para melhorar os resultados, foi ela quem fez o papel de explicadora para aumentar o orçamento familiar. A somar a esta "normalidade", a jovem tem um percurso de vida atribulado, com uma mudança para outro continente e uma luta para pagar as contas, sem ser "um encargo" para os pais. Beatriz tem noção de que a sua história é "diferente" da de outros alunos com notas elevadas. "Sei que levar a vida que levei e ter essas notas não é comum, nem fácil. É difícil não ter essa noção quando se estuda no contexto de um colégio privado e se percebe a dinâmica das coisas. Não venho de uma família abastada e os meus pais não são médicos ou engenheiros. Na verdade, mal terminaram o ensino secundário. Além disso, tive de aprender a conciliar o trabalho com a vida de estudante, o que não é uma realidade muito frequente", conta ao DN.

"Sei que levar a vida que levei e ter essas notas não é comum, nem fácil. É difícil não ter essa noção quando se estuda no contexto de um colégio privado"

Ao longo do ano letivo passado, Beatriz Araújo estudou de segunda a sexta, dando explicações a alunos mais novos, e manteve-se atrás da caixa de um supermercado ao fim-de-semana. "Não vou mentir, entre passar o fim de semana inteiro na caixa do Pingo Doce, dar explicações três horas por semana e passar algumas tardes no escritório da Bluebird, tudo se resume a menos horas de sono do que o aconselhado e muita força de vontade", confessa.

Na contabilidade dos seus afazeres, a jovem não conta os momentos em que ajudava os colegas de turma. "É uma aluna que não viveu apenas para os resultados individuais, mas esteve atenta aos que a rodeavam, demonstrando disponibilidade e paciência para ajudar os colegas com mais dificuldades", relembra o professor de matemática, Vasco Ribeiro. Já Pedro Mourão, docente de Física Química, destaca a versatilidade da aluna como a base do seu sucesso: "a Beatriz é muito curiosa, tendo mostrado interesse por diversas áreas da Ciência como por exemplo a Física, Astronomia, Física das Partículas, Química, Matemática. É, sem dúvida, uma aluna completa".

O sonho da medicina

O empenho da jovem levou-a a conseguir entrar no curso de medicina da Universidade do Porto com média de 19,4. No exame nacional de matemática, a estudante teve 19,5. Nas disciplinas de Física Química e Biologia - provas de acesso a par de matemática - obteve 19 e 18,5, respetivamente. Valores que se somam às notas de frequência antes dos exames: 20 a todas as disciplinas. Após a realização das provas, apenas a nota de português baixou de 20 para 19. "Manchou um pouco a pauta, mas foi culpa minha. Enganei-me numa pergunta de escolha múltipla no exame de português e não consegui manter o meu 20", conta.

"Não cheguei aqui apenas pelo meu trabalho. Tive a sorte de estudar num colégio que é um lugar como duvido haver outro. Aqui criam-se ligações entre alunos e professores que dificilmente se encontram noutro lugar"

A agora estudante de medicina, acalentou o sonho desde a infância, embora tenha tentado "contrariar a escolha". "As pessoas dizem sempre a quem tem notas altas que devem ir para medicina e isso incomodava-me. Houve uma fase em que, para ser do contra, dizia que iria tirar outro curso, mas acabei por decidir com o meu coração", explica. Para poder escolher livremente, Beatriz Araújo quis garantir que teria nota para qualquer curso e foi o que conseguiu, mas diz ter contado com muito apoio. "Não cheguei aqui apenas pelo meu trabalho. Tive a sorte de estudar num colégio que é um lugar como duvido haver outro. Aqui criam-se ligações entre alunos e professores que dificilmente se encontram noutro lugar", sublinha. Foram os docentes, relembra, que lhe deram a mão nos momentos mais difíceis do seu percurso atribulado.

Viveu no Brasil e o regresso a Portugal foi "difícil"

Foi na adolescência que Beatriz Araújo viveu o drama da emigração. O pai teve de se mudar para o Brasil. Seguiu-se-lhe a mãe. A jovem ficou com o irmão a cargo dos avós. Um período "doloroso", que recorda com amargura. "Foi muito duro e sentia muitas saudades. Algum tempo depois da minha mãe ir embora disse que também queria ir. Nessa altura, o meu pai tinha um bom emprego em São Paulo e pude ir para um colégio privado. Adaptei-me bem, mas quando estava a começar a fazer amigos, o meu pai perdeu o emprego e tivemos de nos mudar para o nordeste brasileiro. Fui para o ensino público e sofri. Não pelas condições físicas da escola, mas porque não aprendia nada de novo e sentia que ir ou não à escola era igual", conta.

Diz que os pais não acreditaram nos relatos feitos e pensavam que na origem das críticas estava a vontade de regressar a Portugal. "A dada altura o meu pai foi chamado para uma reunião e percebeu que era verdade. Estava no 9º ano e o meu secundário ia ficar comprometido", recorda. Pouco depois o pai da aluna foi assaltado - encostaram-lhe uma arma à cabeça - e a família regressou: "Voltamos sem nada. A minha mãe tinha deixado o emprego para ir para o Brasil e o meu pai não tinha uma empresa à espera dele. Já não tínhamos casa também".

"Não encontro no dicionário palavras para expressar a gratidão que sinto por ter tido o prazer de aprender com pessoas que transcendem a condição de professor"

Beatriz voltou para casa dos avós, vivendo, de novo, separada dos pais. "Foi um dos momentos mais difíceis a nível emocional e académico. Não estava a par da matéria e estava triste. Foram os professores, principalmente as professoras Mariana Fernandes e Sandra Paulo, que me ajudaram a ultrapassar as dificuldades. E o diretor do colégio, Marco Carvalho, a quem devo muito. Costumo dizer que me considero uma pessoa esperta e trabalhadora, mas que percorri o meu caminho pela mão dos melhores profissionais e, sobretudo, dos melhores seres humanos. Não encontro no dicionário palavras para expressar a gratidão que sinto por ter tido o prazer de aprender com pessoas que transcendem a condição de professor. São tutores, são guias, são amigos. Nunca deixaram de me consolar nos fracassos, motivar nas lutas, congratular nas vitórias e isso fez uma parte da aluna que fui e sou", afirma.

Foi nessa fase, ainda com 15 anos, que Beatriz começou a trabalhar como freelancer para não ser um encargo para a família. "Comecei por fazer trabalhos para a Bluebird, empresa para a qual o meu pai foi trabalhar de algum tempo depois de termos regressado. Depois passei a dar também explicações", recorda.

De acordo com o estudo "Estudantes à saída do secundário em 2017-2018" da Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), divulgado em janeiro de 2019, "os percursos (académicos) sem desvios acontecem de forma mais expressiva nos alunos que estudam em exclusivo (86,2%) face aos trabalhadores estudantes (74,7%)". Os referidos desvios são também mais significativos no caso dos alunos que passam por uma mudança de país, com um aumento de 4,5% nos desvios (retenções e mudanças de curso).

Dos cerca de 67 mil alunos que concluíram o ensino secundário em 2017, 63,2% continuaram a estudar em exclusivo, 22% estavam exclusivamente a trabalhar, 6,8% estudavam e trabalhavam ao mesmo tempo e, por último, 6,4% estavam à procura de trabalho e não estavam a estudar. Segundo o mesmo estudo, a percentagem dos alunos que afirmam ter entrado no mercado de trabalho enquanto ainda estudam devido a dificuldades económicas equivale a mais de um quarto do universo total de trabalhadores-estudantes (27,2%).

"A Beatriz é acima de tudo a prova de que o jovem comum pode ascender à excelência, a Beatriz é uma aluna que divide o seu tempo entre o trabalho e o estudo"

É esta a realidade da aluna Beatriz Araújo e que a torna, segundo os seus professores, um caso "quase único" por conseguir concluir o ensino secundário com notas de "excelência" tendo em conta a sua realidade e história de vida. Vítor Pinto, professor de ciências da aluna no 3º ciclo, sublinha, por isso, o seu valor. "A Beatriz é acima de tudo a prova de que o jovem comum pode ascender à excelência, a Beatriz é uma aluna que divide o seu tempo entre o trabalho e o estudo. Não alicerça o seu estudo em explicações individuais e reconhece o valor do trabalho, não atribuindo um peso negativo a esse trabalho (que lhe vai retirar tempo para estudar), mas como algo que lhe vai dar latitude na sua visão do mundo e que lhe dá força para lutar pelos seus objetivos", diz.

O facto de ser trabalhadora-estudante é encarado por Beatriz Araújo como uma mais-valia, confessando mesmo que, ainda que pudesse abdicar de trabalhar, não o faria. "Foi difícil por vezes pegar nos livros e focar a mente na matéria, ao invés de sucumbir ao cansaço, mas ser trabalhadora-estudante ajudou-me a valorizar o meu percurso académico de uma forma diferente, e isso sim deu-me motivação para insistir no estudo constante", conclui. A jovem estudante mudou há poucas semanas de emprego. Está a trabalhar numa loja de um shopping, porque lhe permite ter "um horário mais estável" e já planeou o seu futuro a longo prazo. Quer ser cirurgiã, embora receie a dificuldade em conciliar a especialidade com uma vida familiar equilibrada. "Quero muito ser mãe um dia e ser cirurgiã seria difícil de conciliar com a maternidade. Por isso não sei se irei por esse caminho, mas era essa a minha vontade", refere. Seja este ou outro o "caminho", segundo o professor Vítor Pinto, tudo indica que o futuro da jovem será brilhante porque "a Beatriz apresenta uma forma de estar na vida que se diferencia muito de outros alunos com notas de excelência".

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