"Toda a gente tem de fazer o que puder para estar do lado certo da história"

Ativista sueca viajou a bordo do catamarã "La Vagabonde" e entrou às 12:44 na Doca de Santo Amaro, em Lisboa, após 21 dias a cruzar o Atlântico. Jovem revela que vai ficar "uns dias" na capital portuguesa. Mas sexta-feira já deverá estar em Madrid, para a manifestação internacional que vai decorrer à margem da cimeira das Nações Unidas sobre o clima.

"Sinto-me honrada por ter chegado à bonita Lisboa e a Portugal. É muito bom sermos recebidos de forma tão calorosa". Depois de 21 dias a cruzar o Atlântico, Greta Thunberg chegou a terra firme ao início da tarde desta terça-feira e aproveitou as primeiras palavras da conferência de imprensa para agradecer a viagem... e a receção. A ativista sueca chegou a Lisboa a bordo do La Vagabonde, que entrou na doca de Santo Amaro, em Lisboa, às 12:44. Inicialmente prevista para as oito da manhã, a chegada atrasou devido ao vento e correntes desfavoráveis que não ajudaram a fase final da travessia. Mas a espera não desmobilizou ninguém, pelo contrário: a "plateia" foi aumentando aio longo da manhã e a jovem de 16 anos foi recebida por mais de uma centena de pessoas, ao som de "welcome Greta" e de "Greta's voice is our voice".

E Greta fez novamente ouvir a sua voz. "Toda a gente tem de fazer o que puder para estar do lado certo da história", afirmou, durante uma breve conferência de imprensa, minutos após a chegada. Garantiu que vai ficar "alguns dias" em Lisboa, antes de partir para Madrid, onde decorre a 25ª conferência da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (COP25). Mas não deverão ser mais que dois, dado que na sexta-feira decorre na capital espanhola uma manifestação internacional por uma maior ação no sentido de travar o aquecimento global, e que deverá contar com a presença da jovem ativista.

Como tem feito até aqui, Greta Thunberg promete continuar a pressionar os líderes mundiais e fazer-se ouvir na capital espanhola: "Não vou parar. Vamos à COP, vamos continuar a luta lá para garantir que as vozes das pessoas, dos jovens, sejam ouvidas atrás daquelas paredes".

"Enfrentamos uma urgência global e precisamos de ter uma abordagem para salvar a humanidade, lutando não só por nós, mas pelos nossos filhos e netos, por todos os seres humanos", reforçou a ativista sueca, que deixou um apelo: "Espero que cada um de vocês seja ativo e comece a lutar pelo seu futuro".

Vinte e um dias numa viagem "turbulenta" pelo Atlântico norte

Mas Greta não falou só do futuro. Começou, aliás, pelo passado, pelos 21 dias que passou o Atlântico. Antes dela já tinha falado Riley Whitelum, o dono do catamarã, que falou numa "viagem difícil" e "turbulenta" - "não é recomendado atravessar o Atlântico norte nesta altura do ano". Já Greta Thunberg disse "estar muito agradecida por ter tido esta experiência" e "descontraída" depois de uma viagem em que se está "isolado durante três semanas, num espaço tão limitado e com coisas tão limitadas para fazer". É m"aravilhoso" chegar a terra, mas a cabeça "ainda não está habituada", diria ainda, revelando que enjoos só no primeiro dia da viagem.

Cansada, mas grata pela experiência a bordo do catamarã, a jovem sublinhou que é "fantástico" estar "de volta à Europa - "Atravessei uma aventura, sabe bem voltar. Eu e todos os outros ambientalistas vamos continuar a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, iremos continuar a viajar, para pressionar as pessoas que têm o poder, para que coloquem as prioridades no devido lugar e deem prioridade máxima a este assunto".

Já em resposta a uma questão de um jornalista, sobre as críticas que lhe apontam de ser apenas uma miúda zangada, Greta Thunberg referiu "que as pessoas estão a subestimar a força dos miúdos zangados". "Nós estamos zangados, frustrados, mas é por uma boa razão", acrescentou, lembrando que o que está a exigir aos líderes mundiais é que sejam dados passos claros para lutar contra as alterações climáticas: "As pessoas com poder têm de ouvir a ciência. Não nos compete a nós [jovens] apresentar qualquer tipo de plano para garantir o nosso futuro".

Questionada sobre o novo aeroporto do Montijo, Greta Thunberg disse não estar na posse de toda a informação, mas defendeu que é preciso olhar para a questão de uma perspetiva mais abrangente, olhando não só para hoje, mas também para as consequências que representa para o futuro". E deixou uma pergunta no ar: "Será que vai fazer mais bem do que mal?".

Greta Thunberg tem, no entanto, a certeza de que "nenhum país está a fazer o suficiente". "Podemos fazer muito mais do que estamos a fazer neste momento", considerou.

Pouco antes das 14:30, Greta Thunberg deixou a Doca de Santo Amaro, sob um coro de aplausos, num carro elétrico da Câmara Municipal de Lisboa e em direção a um dos hotéis da capital, onde irá descansar, antes de viajar até à cimeira do clima. "Dava-nos jeito descansar um pouco. Sinto-me bem, preciso de refletir, quero continuar. Sinto-me com energia", afirmou, determinada.

Antes, e pouco depois de sair do catamarã, a adolescente sueca foi recebida pelo presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina. O autarca referiu que é um "grande privilégio" ter a ativista em Portugal, sendo ela "uma das vozes mais notáveis a lutar por todos nós". "Precisamos de uma voz ainda mais potente da sua parte. Precisamos de agir em conjunto para ganhar esta batalha", disse ainda Medina.

Além do autarca, falaram Matilde Alvim e Beatriz Barroso, em nome da greve climática estudantil em Portugal - movimento iniciado pela jovem de 16 anos -, deixando um agradecimento a Greta: "Obrigado por seres radical no discurso, não pares, vamos mudar o sistema".

Cinco horas à espera de Greta

Manhã cedo, eram algumas dezenas os ativistas que esperavam Greta. Com tambores a rufar e palavras de ordem em defesa do ambiente, a assistência foi aumentando ao longo da manhã, concentrada junto a um palco montado na doca de Santo Amaro, onde Greta viria a discursar. E, se a audiência aumentou, o número e o tema dos cartazes também se foi multiplicando. A luta ambiental tem muitas faces, e uma delas foi a que trouxe Greta Thunberg a Lisboa por via marítima, o mesmo transporte que usou para ir da Europa aos Estados Unidos - "Low cost now, high cost tomorrow" [baixo custo hoje, alto custo amanhã] foi uma das frases a merecer mais destaque, como cartaz e como palavra de ordem, um manifesto contra a pegada ambiental causada pela aviação.

Com a organização a cargo das associações ambientalistas Zero e Climáximo, além da Greve Climática Portugal, as causas que ali se juntaram nesta terça-feira eram muito diversas. Prova disso eram os muitos slogans que se podiam ler: "A verdadeira COP é na rua", SOS Amazónia, "o choro da Terra é o choro dos pobres" eram algumas das frases que se viam em cartazes mais ou menos artesanais.

Henrique Frazão é um dos jovens que participou na organização, e que diisse ao DN esperar que este seja mais do que um ato simbólico, porque o combate às alterações climáticas precisa de muito mais do que isso. "Há 30 anos que os cientistas estão a dizer aos políticos que é preciso agir. Se o fizermos agora já estamos a agir bastante tarde, mas mais vale tarde que nunca", argumentou, sublinhando que este é "um problema sistémico" que não se resolve apenas pela ação individual: "Precisamos de uma mudança no sistema. Se as pessoas optam por ir a Paris de avião por 50 euros é porque a aviação tem benefícios nos impostos, o uso de combustíveis fósseis também... Há uma série de decisões, antes das nossas [do cidadão comum] que implicam que as melhores alternativas sejam as mais caras", diz ao DN.

Entre gente de todas as idades presente na Doca de Alcântara, destaque para os jovens, e para um verdadeiro batalhão de jornalistas, não só portugueses - estiveram, por exemplo, vários espanhóis presentes.

Além das dezenas de ambientalistas estiveram representantes do PS e PSD, PCP, do Bloco de Esquerda (entre o presidente da comissão parlamentar de Ambiente, José Maria Cardoso), do PEV, bem como o deputado André Silva, do PAN, e a deputada única do Livre, Joacine Katar Moreira.

Greta Thunberg chegou a Lisboa "escoltada" por vários barcos que se juntaram ao catamarã à vela "La Vagabonde" na fase final da viagem, depois de uma travessia que começou a 13 de novembro e se deparou com condições climatéricas difíceisa. "Apanhou boleia" de Riley Whitelum e Elayna Carausu, um jovem casal australiano de "youtubers" que há cinco anos empreendeu uma viagem de circum-navegação no catamarã.

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