Quem dá boleia a Greta? Da velha Europa aos "youtubers" do século XXI

Há cinco anos que um jovem casal australiano de "youtubers" vende a sua viagem de sonho à volta do mundo. Foram eles quem deu boleia até Lisboa a Greta Thunberg

Greta Thunberg chegou à América num veleiro de competição, o Malizia II, pertencente a um membro da família real do Mónaco, Pierre Casiraghi, filho da princesa Carolina e sobrinho do príncipe reinante, Alberto. Uma viagem feita a expensas de um símbolo do que resta da velha Europa das monarquias.

Não podia ser maior o contraste com quem lhe deu boleia de volta, dos EUA para a Europa. Riley Whitelum e Elayna Carausu são um jovem casal australiano de "youtubers" que há cinco anos que vende na net, em troca de donativos recolhidos online, uma vida de sonho e de paisagens paradisíacas.

Com um filho hoje com três anos, Lenny, criado a bordo, Riley e Elayna, circumnavegam o globo num catamarã à vela, "La Vagabonde", comprado por ele com as poupanças feitas em oito anos de duros trabalhos. Das suas aventuras vão produzindo vídeos para o "You Tube" - já mais de duzentos. A quem gosta desses vídeos e de seguir a odisseia pedem donativos, através de uma plataforma de crowdfunding.

O canal do casal no YouTube já tem quase de 1,2 milhões de seguidores - e Riley e Elayna procuram sempre manter viva a interação. No site incluiu-se também um mapa em permanente atualização com a viagem do La Vagabonde. Os doadores têm acesso aos vídeos uma semana antes destes serem disponibilizados online. Serão portanto os doadores os primeiros a ver vídeos com Greta a bordo. Desta vez, Riley e Elayna fizeram-se acompanhar de uma velejadora profissional, Nikki Andersson

O compromisso é de produção de um vídeo por semana - mas há muito mais. Na sua página de Facebook já têm uma loja onde vendem roupa e outros produtos. Tem sido nessa página que têm dado conta da travessia Atlântica que fizeram com Greta Thunberg a bordo. Não escondendo que os últimos dias foram difíceis (mar revolto, ventos muitos fortes).

No site, Riley explica como conseguiu comprar o La Vagabonde: "Não, eu não tinha pais ricos que me compraram um barco para navegar pelo mundo. Durante oito longos anos, trabalhei no mar em plataformas de petróleo e nas minas da Austrália Ocidental, economizando cada dólar possível para poder pagar um iate decente."

Depois Riley fez-se ao mar sem praticamente nenhuma experiência como velejador e na Grécia conheceu Elayna. Entretanto, já estão percorridas mais de 80 mil milhas náuticas (128 mil km), cobrindo o Mediterrâneo, o Atlântico, as Caraíbas e o Pacífico. O "La Vagabonde" chega esta terça-feira de manhã a Lisboa.

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