Houve alguns momentos no debate entre André Ventura e Mariana Mortágua, tão tenso quanto seria de esperar, em que João Adelino Faria poderá ter pensado que tinha muito mais do que duas pessoas à sua frente no estúdio da RTP3. Os dois líderes partidários recorreram a uma legião de pessoas, vivas ou mortas, para ataques recíprocos e que atravessaram os vários temas que o moderador lhes lançou..Alguns primeiros minutos de relativa acalmia, ainda que Mortágua defendesse que o regresso dos vistos gold, proposto pelo Chega, era uma medida destinada a suprir a procura imobiliária de "milionários" e a apaziguar "interesses imobiliários que financiam o partido de André Ventura", enquanto o interlocutor contrapunha às "ideias venezuelano-comunistas" a ideia de que a economia nacional "perdia 4,8 mil milhões de euros só em turismo residencial", o primeiro ausente a ser invocado foi o ex-vereador bloquista Ricardo Robles..Ventura apontou "hipocrisia e cara de pau" a Mortágua por falar em interesses imobiliários depois de o seu correligionário ter feito negócio com um imóvel comprado à Segurança Social, tal como depois recordaria o negócio de alojamento local detido parcialmente pela ex-coordenadora bloquista Catarina Martins. Não tardou que dissesse "tenho orgulho em não ter terroristas nas nossas listas", numa referência a elementos das FP-25 de Abril que já se candidataram pelo Bloco de Esquerda, ao que Mortágua retorquiu que o Chega tem como candidato um membro da "principal organização terrorista" que existiu em Portugal, que a seu ver foi o MDLP, colando o deputado Diogo Pacheco de Amorim - mas sem nunca o nomear - à morte do Padre Max, num atentado bombista ocorrido em 1976. "Nunca foi condenado em tribunal", respondeu Ventura, acrescentando que o mesmo não sucedeu aos "assassinos que mataram bebés"..Mariana Mortágua também acusou André Ventura de pretender "borlas fiscais" às grandes empresas, através da descida do IRC em seis pontos percentuais. "As suas propostas defendem milionários", acusou, enumerando as poupanças que garantiu decorrerem da medida, com 50 milhões de euros para o Santander, 25 milhões de euros para o BCP, 80 milhões de euros para a EDP e 160 milhões de euros para a Galp. A isto, o líder do Chega reafirmou que um IRC mais baixo visa "atrair mais investimento" e acusou a interlocutora de "querer destruir a economia e o emprego, para o Estado ficar a mandar em tudo"..No campo da imigração, novamente sem surpresas, Ventura fez a defesa de um modelo de quotas anuais, para responder a necessidades da economia portuguesa, apontando inspiração em modelos de países como a Austrália, o Canadá e a Suíça. E acusou o Bloco de Esquerda de "levar a que o Governo extinguisse o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras" e a impor o "regime disparatado dos vistos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Por seu lado, o Chega quer reverter esse regime, impedindo a entrada de imigrantes desses países sem contrato de trabalho ou meios de subsistência..A coordenadora do Bloco de Esquerda defendeu que o controlo da imigração defendido pelo interlocutor "significaria o caos na agricultura, nas pescas e na construção". E também na Segurança Social, salientando que por cada euro que os imigrantes recebem pagam sete em contribuições. "Estão a pagar as pensões dos nossos idosos", disse..Tal referência serviu de mote para Mariana Mortágua regressar ao episódio do sobressalto da sua avó devido ao Novo Regime de Arrendamento Urbano, acusando a direita de "querer repor a Lei Cristas", que para si foi uma "lei cruel". Tendo ficado claro nos dias anteriores que a pessoa em questão não poderia ter menos de 65 anos em 2012, pelo que nunca poderia ser despejada em nenhuma circunstância aquando do "descongelamento" das rendas, a coordenadora bloquista admitiu finalmente que a avó tinha 80 anos quando recebeu a carta do senhorio, ficando a saber que aos 85 anos - depois do período transitório, ao fim do qual estava prevista a existência de um subsídio - "a renda podia saltar". Ventura voltou a acusá-la de mentir, tal como disse que a sua posição acerca da imigração é a da "malta que vive no Príncipe Real e acha que está tudo bem"..Para o final do debate ficou a garantia de Ventura que, caso chegue ao poder, cortará 400 milhões de euros destinados ao que diz ser a promoção de ideologia de género. Sempre referindo que defende a igualdade de género e o combate à violência doméstica, mencionou casos em que se faz "doutrinação nas nossas escolas" - convidando os telespectadores a verem exemplos na sua conta de Instagram -, enquanto Mariana Mortágua o acusou de dissimular cortes nos abonos de família e às vítimas de violência doméstica. "Vocês estão ao lado dos violadores e agressores de mulheres", retorquiu Ventura..Ainda houve tempo para a acusação de que o corte de mil milhões de euros em "desperdícios" no sistema de ensino, advogados pelo Chega, implicariam o despedimento de 67 mil professores aquando da redução de currículos, o que foi prontamente negado pelo líder partidário. Mais certeira terá sido a alegação, por parte de Mariana Mortágua, de que o Bloco de Esquerda "está mais próximo de determinação a governação" que sair das próximas legislativas, tendo em conta a garantia de Luís Montenegro de que não fará acordos com o Chega. A bloquista recordou que o parceiro de debate chamou "prostitutas políticas" àqueles que poderiam eventualmente ser os seus parceiros. Ao que André Ventura terminou com a acusação de que o Bloco de Esquerda "é a muleta do PS".