O juiz que preside ao julgamento sobre a segurança das redes sociais em Los Angeles ameaçou esta quarta-feira, 18 de fevereiro, deter por desrespeito ao tribunal (contempt of court) qualquer pessoa que utilize óculos inteligentes durante o depoimento do CEO da Meta, Mark Zuckerberg, avancou a cadeia televisiva norte-americana CNBC.O aviso foi feito durante a audiência de julgamento do cofundador do Facebook e dono do Instagram num tribunal da Califórnia que está desde o início da tarde desta quarta-feira a depor num caso inédito que decidirá se as redes sociais são deliberadamente viciantes para as crianças.“Se alguém o fez, [gravou parte dos depoimentos] deve apagar o registo ou será considerado culpado de desrespeito pelo tribunal”, afirmou o magistrado de forma categórica. “Isto é muito sério.” O aviso surgiu após Zuckerberg ter entrado no tribunal escoltado por uma equipa cujos membros utilizavam os óculos Ray-Ban Meta, que possuem câmaras integradas. As gravações são estritamente proibidas na sala de audiências.O "Momento Big Tobacco" das redes sociaisEste testemunho ocorre num julgamento histórico que está a ser comparado ao momento "Big Tobacco" da indústria tecnológica. O processo centra-se na denúncia de uma jovem que alega ter ficado viciada no Instagram e no YouTube, resultando em danos graves para a sua saúde mental.A Meta tem negado as acusações, sustentando que a questão central para o júri, segundo a CNBC, é determinar se o Instagram foi um fator substancial nas dificuldades de saúde mental da queixosa. Em tribunal, Zuckerberg admitiu que alguns utilizadores mentem sobre a idade ao inscreverem-se, respondendo a documentos que indicam que quatro milhões de crianças com menos de 13 anos utilizam a plataforma nos EUA.Confronto sobre segurança e controlo da empresaDurante o interrogatório, os advogados da acusação questionaram a eficácia dos termos de serviço da Meta. “Espera que uma criança de 9 anos leia todas as letras miudinhas?”, perguntou um advogado, pondo em causa a afirmação de Zuckerberg de que menores de 13 anos não são permitidos.A audiência também abordou a estrutura de poder da Meta. Zuckerberg confirmou que detém um controlo quase absoluto, admitindo que, se o conselho de administração o tentasse despedir, ele teria poder de voto para eleger um novo conselho e reintegrar-se. Num momento de franqueza, o CEO confessou ainda ser “muito mau” a lidar com os media.Depoimentos de Outros ExecutivosNa semana passada, Adam Mosseri, líder do Instagram, também testemunhou, afirmando que, embora o uso excessivo possa ser problemático, não o considera uma dependência clínica. “É uma questão pessoal”, afirmou Mosseri, acrescentando que o conceito de “demasiado tempo” é relativo.Enquanto o TikTok e a Snap optaram por acordos extrajudiciais antes do início deste julgamento, a Meta e a Google continuam a enfrentar as alegações de que desenharam as suas plataformas para causar vício e ocultaram os riscos para os jovens utilizadores.Chegada ao tribunalO diretor-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, chegou ao tribunal de Los Angeles esta quarta-feira, 18 de fevereiro, sob o olhar atento de dezenas de famílias e ativistas, marcando o início de um dos testemunhos mais antecipados da história recente de Silicon Valley.Este julgamento, considerado um "caso modelo" (bellwether trial, como são apelidados este tipo de casos nos EUA), centra-se na acusação de que as plataformas da Meta e da Google foram desenhadas como "casinos digitais" para viciar deliberadamente os cérebros de jovens utilizadores.À entrada do tribunal, o ambiente era de emoção e protesto. Vários pais, alguns segurando fotografias de filhos que sofreram crises de saúde mental ou que faleceram em consequência de desafios e conteúdos perigosos nas redes, aguardavam a chegada do magnata. "Perdemos os nossos filhos e já não há nada que possamos fazer quanto a isso. Mas podemos informar outras famílias de que estas plataformas são perigosas e que precisam de limites", afirmou um dos pais presentes à porta da audiência.Para estas famílias, a presença de Zuckerberg no banco das testemunhas representa uma rara oportunidade de confronto direto com o homem que lidera o império das redes sociais, após anos de denúncias sobre os efeitos nocivos do "scroll" infinito e dos algoritmos de recomendação.O que está em causa: design em vez do conteúdoAo contrário de outros processos, este julgamento foca-se no design das aplicações e não no conteúdo publicado pelos utilizadores. A acusação, liderada pelos advogados de uma jovem de 20 anos, identificada como Kaley G.M., sustenta que o Instagram e o YouTube são "produtos defeituosos".Argumentam que funcionalidades como as notificações constantes, a reprodução automática de vídeos e os filtros de beleza foram especificamente "engenhados" para manter as crianças ligadas durante horas, ignorando avisos internos sobre os riscos de depressão, ansiedade e distúrbios alimentares.Durante o seu depoimento perante o júri, Zuckerberg defendeu as políticas de segurança da Meta, embora tenha sido confrontado com documentos internos que sugerem que a empresa priorizou o crescimento e a retenção de utilizadores em detrimento do bem-estar dos menores.O CEO da Meta reiterou que a empresa trabalha continuamente para melhorar as ferramentas de controlo parental, mas sublinhou que existe sempre um "equilíbrio complexo entre segurança e liberdade de expressão". Por sua vez, a defesa da Meta argumentou em tribunal que os problemas de saúde mental da queixosa tinham raízes em questões familiares e pessoais preexistentes, e que as redes sociais serviram apenas como um "mecanismo de escape".Este julgamento em Los Angeles é o primeiro de mais de 1600 processos consolidados nos Estados Unidos. Se o júri decidir contra a Meta e a Google, o veredito poderá forçar mudanças drásticas na arquitetura das redes sociais e abrir as portas a indemnizações multimilionárias, alterando para sempre a responsabilidade legal das Big Tech perante os seus utilizadores mais novos..Meta acorda de um sonho virtual com 70 mil milhões de perdas. Zuckerberg “desliga” o Metaverso e vira-se para a Superinteligência.Proibir redes sociais aos adolescentes? “Mas a minha mãe passa a vida agarrada ao telemóvel”