Se a minha mãe passa a vida nas redes sociais, a fazer scroll no Instagram até durante o almoço, porque é que nós não podemos? Só por causa da idade?”, questiona a jovem Ana*, de 16 anos. O mesmo pensa João*, de 15 anos, que cresceu a ver os irmãos mais velhos, o pai e a mãe a usar as redes sociais o tempo todo. “Porque é que a nossa geração é que vai levar com a proibição?”, questiona o estudante. Os jovens ouvidos pelo DN não concordam com a restrição de acesso, aprovada na generalidade pelo Parlamento na semana passada. De acordo com o texto da lei, “crianças com idade igual ou superior a 13 anos apenas podem aceder a plataformas, serviços, jogos e aplicações abrangidos pela presente lei mediante a respetiva aceitação informada e o consentimento expresso e verificado dos titulares das responsabilidades parentais”. Já aos menores de 13 anos não será permitido aceder às plataformas.Tiago, de 14 anos, afirma que “não conversa com os amigos sobre esse assunto”, mas que não concorda com a medida. O estudante começou a usar redes sociais aos 12 anos e acede ao TikTok, WhatsApp e Spotify. Os conteúdos preferidos são temas relacionados com animais e jogos. Tiago acha que a proibição pode não resultar, tal como já acontece com os telemóveis nas escolas. “Na escola já proibiram os telemóveis, mas muita gente usa sem as auxiliares verem. Eu não sinto muita falta, mas acho que deviam deixar usar os telemóveis no intervalo”, destaca.João*, que usa atualmente o Instagram e o TikTok, relata que, aos dez anos, teve autorização para aceder ao YouTube no computador. Aos 12, recebeu um smartphone como prenda de aniversário, passando então a aceder às redes sociais. No entanto, já sabia o que era uma rede social, por ver toda a família com o telemóvel nas mãos. É por isso que não concorda com a restrição proposta pelo Governo. “Porque é que só faz mal para nós? Há adultos viciados em redes sociais também”, comenta.E como seria a vida dos jovens sem redes sociais? Lis Pereira, hoje com 21 anos, começou a usar redes sociais aos 12 e faz o exercício de pensar como teria sido. “Em relação ao YouTube, teria ficado chateada, porque gostava bastante de consumir conteúdos de youtubers quando era pequena. Já em relação ao Facebook, a plataforma mais famosa da época, não me importaria de todo”, reflete. Mas analisa que os tempos eram outros. “Quando eu era mais nova, as plataformas não tinham ganho toda a fama que têm agora e, como nenhum dos meus amigos fazia parte do Facebook, eu também não tinha muito interesse. Sinto que o facto de todos terem redes sociais hoje em dia influencia muito o excesso de consumo”, contextualiza.Atualmente, a jovem acede com frequência ao Instagram e ao YouTube. Sobre a proibição, não acha que vá resultar. “Acho que é uma medida feita para mostrar alguma ação ou preocupação do Governo, mas não creio que solucione nada, pois é algo social, e proibir algo nunca impediu ninguém”, comenta, citando o exemplo do álcool e do tabaco, proibidos, mas consumidos à mesma por menores. “Acredito que a melhor solução seria a supervisão parental constante e conversas abertas sobre os perigos e cuidados a ter com estas plataformas. Não só com os próprios jovens que as consomem, mas também com os pais que, por vezes, não percebem quão perigosas as plataformas realmente são”, analisa.Num exercício contrário, a influencer de maternidade Michelly Serotnik, mãe de duas filhas com menos de três anos, imagina como será o futuro das filhas com o acesso às redes sociais. “Os meus maiores receios relativamente às redes sociais são três: a exposição precoce, a adultização e o impacto na saúde mental. Hoje vemos conteúdos com sexualização, violência, desafios perigosos e uma cultura de comparação constante. O algoritmo não distingue infância de adolescência, e isso preocupa-me”, revela ao DN a mãe, que mostra a sua rotina diária a mais de 70 mil seguidoras e seguidores. As filhas assistem ao YouTube Kids, mas com supervisão, que já provou ser necessária. Ao mesmo tempo, entende que apenas limitar não é suficiente. “Proteger a infância no mundo digital é uma responsabilidade coletiva. Os pais educam e supervisionam, as escolas orientam e formam, as plataformas regulam e protegem. Não é à toa que se diz que é preciso uma comunidade para criar os filhos, mas a sociedade atual anda tão individualista que prefere procurar culpados em vez de ajudar”, reflete. E não deixa de lado o alerta às mães e pais. “É necessária a consciencialização dos pais e cuidadores. Muitos limitam-se a entregar o telemóvel ao filho”, sublinha.Responsabilidade coletivaPara Renato Gomes Carvalho, membro da direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses, é preciso ensinar pelo exemplo. “Há um problema na nossa sociedade na forma como estamos organizados relativamente ao lazer. As crianças e os jovens utilizam muitas redes sociais e plataformas online, mas, se tiverem oportunidade de andar na rua, de estar ao ar livre com os pais ou responsáveis, de serem estimulados e de fazer coisas interessantes, gostam de o fazer”, explica. Ou seja, defende que esta é também uma responsabilidade das pessoas adultas.“É uma reflexão muito útil. Temos de criar oportunidades para estarmos com as nossas crianças e jovens em ambientes diferentes - na natureza, no desporto, ao ar livre -, enfim, andar na rua, correr, saltar”, analisa. Mas reconhece que não é simples. “Do ponto de vista da legislação laboral, é preciso permitir que as pessoas tenham maior capacidade de compatibilizar a vida profissional com a vida pessoal e familiar. São soluções e enquadramentos até mais interessantes, que ajudam a lidar com um problema que vai além da proibição”, vinca o psicólogo. O profissional partilha a mesma opinião dos jovens ouvidos pelo DN: os adultos precisam de dar o exemplo. “Temos também de olhar para os adultos. As crianças observam os adultos, estão habituadas a determinados comportamentos e seguem os padrões de quem está à sua volta. Em comportamento humano, não se pode dizer ‘faz o que eu digo, não faças o que eu faço’, isso não resulta”, afirma. “As crianças aprendem e todos nós aprendemos por observação, por modelagem e por hábito. Se estou num ambiente em que toda a gente está agarrada ao telemóvel, é muito provável que eu também acabe por adotar esse padrão”, alerta.Cristina Vaz Almeida, presidente da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde, vê a situação da mesma forma. “As crianças são esponjas, têm que aprender bons exemplos. E por isso, retirar um telemóvel e os adultos agarrados ao telemóvel é uma incoerência, é uma incoerência absoluta”, analisa. Tanto Renato Gomes de Carvalho como Cristina Vaz Almeida defendem que é necessário ensinar, oferecer literacia digital. “A educação dos pais a educação parental as competências parentais também são essenciais, mas também ensinar as potencialidades das redes sociais, que também são muito úteis”, reflete Almeida. As duas entidades pretendem contribuir no Parlamento com pareceres sobre a proposta de lei, que será discutida na especialidade. *Os nomes foram trocados por questões de privacidade dos jovensamanda.lima@dn.pt.PSD e PS aprovam proibição das redes sociais a menores de 13 anos."Ódio online mata offline" é a nova campanha da PJ contra radicalização