Zita Martins e a nova missão espacial europeia: "Queremos ir mais além"

Sonda só será lançada em 2029, mas até lá há todo um trabalho a ser feito. Ao DN, Zita Martins, cientista portuguesa que participa no projeto, afirma que "esta é diferente de todas as outras missões", sobretudo na forma como será realizada.

No fundo, cometas são pedaços sujos de gelo", explica Zita Martins, astrobióloga e professora associada no Instituto Superior Técnico (IST). E é precisamente o estudo de cometas que a levou a ser contratada pela Agência Espacial Europeia (ESA, do inglês European Space Agency) para tentar obter respostas sobre a origem do sistema solar. Chama-se Comet Interceptor ("Intercetador de Cometa", em tradução livre) e será lançada em 2029.

"Queremos ir mais longe, muito mais além", admite a cientista. Isto porque a maior parte dos cometas do sistema solar vem da chamada cintura de Kuiper, que fica para lá de Plutão. Com a missão agora anunciada, o alcance será ainda maior: a nuvem de Oort, localizada a 50 mil unidades astronómicas do Sol (ou, comparando, 50 mil vezes a distância entre a Terra e a estrela central do nosso sistema planetário). A distância, claro, não é ao acaso: ao chegar a um cometa que esteja tão afastado "as probabilidades de ter o gelo intacto são maiores e pode estar preservado", o que pode dar várias respostas aos cientistas.

Para lá chegar, a sonda (ou, como lhe chama Zita Martins, "a nave espacial") ficará estacionada no Ponto Lagrangiano 2 - um ponto de equilíbrio entre o Sol e a Terra -, de onde será depois lançada ao fim de "cinco ou seis anos". "Juntando a essa nave espacial o trabalho dos telescópios aqui na Terra, vamos observar o Espaço e quando tivermos certeza do objeto, a nave espacial parte", explica a astrobióloga, que acrescenta: "É algo que também é diferente em relação a outras missões, porque não há um alvo definido à partida". Uma vez perto do cometa, a nave soltará duas sondas (num total de três), que rodearão o objeto de estudo, permitindo, até, "chegar a imagens a três dimensões."

Esta não é, no entanto, a primeira colaboração de Zita Martins com agências espaciais estrangeiras, tendo já cooperado com a NASA (como cientista visitante) ou, mais recentemente, no projeto Hayabusa2, da JAXA, a agência espacial do Japão. Aliás, a própria Comet Interceptor será lançada "às cavalitas de outra missão, a ARIEL, também da ESA", da qual a cientista portuguesa também faz parte e que irá estudar a forma como os sistemas planetários se formam e evoluem.

"Costumo dizer que tenho vários chapéus"

Aos 43 anos, Zita Martins tem conquistado uma reputação considerável no panorama científico português e internacional. Acima de tudo considera-se cientista mas... não é só. Além de ter criado uma unidade curricular de Astrobiologia (lecionada no mestrado em Química), a cientista confessa que essa é uma das coisas que mais gosto lhe deu até ao momento. "Vivi fora 16 anos e há quatro anos voltei para o IST e foi uma das oportunidades que tive", explicou, acrescentando que essa criação lhe deu "uma felicidade enorme".

Mas a docência e a investigação não são a única dimensão da sua vida. Depois de lhe ter sido atribuída a medalha da Ordem Militar de Sant"Iago da Espada, em 2015, por "méritos excecionais e pendentes" na ciência, a astrobióloga foi também nomeada, em 2021, consultora do Presidente da República na área da Ciência e Ensino Superior. "Costumo dizer que tenho vários chapéus além do ensino e da investigação", assume a cientista que é, ainda, codiretora do programa MIT Portugal, uma parceria entre o MIT (dos Estados Unidos) e diversas instituições do sistema científico e tecnológico português que tem como objetivo desenvolver investigação na área dos sistemas de engenharia.

"A comunidade científica quer melhor financiamento"

Tendo regressado a Portugal há quatro anos, o percurso de Zita Martins foi "um bocadinho fora do comum", como a própria admite. Licenciando-se em Química no IST, foi nos Países Baixos que se doutorou com uma tese sobre a análise química de moléculas orgânicas em meteoritos carbonáceos. Aquando do regresso a Portugal, deparou-se com uma "grande necessidade" de criar uma instituição que agregasse e reunisse as diversas ideias na área do Espaço - algo que foi colmatado com a criação da Agência Espacial Portuguesa. "Portugal tinha a massa cinzenta mas não havia um representante oficial ao nível de reuniões da ESA, por exemplo ", explica Zita Martins, que esclarece: "Não se trata de receber dinheiro, não somos privilegiados. Mas tem de haver um apoio oficial [às missões] e é importante ter uma agência espacial. Foi um passo fundamental que permitiu agregar toda a comunidade que estava dispersa". Ainda assim, os cortes na ciência continuam a ser uma realidade.

Não gosto de pôr etiqueta, mas contacto muitas vezes com jovens e, até como mulher, acho importante que as pessoas vejam que é possível ter uma mulher a fazer ciência.

No Orçamento do Estado para 2022, por exemplo, estavam previstos menos 32 milhões de euros para Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) em relação a 2021. Para Zita Martins, ainda há um caminho a percorrer. "Obviamente que ainda há muito a fazer em termos de ciência no nosso país não só no que toca ao Espaço. A comunidade científica quer estabilidade e mais e melhor financiamento. Há um longo caminho a ser feito, é óbvio que sim", considera.

Com o seu currículo e percurso profissional, Zita Martins tem deixado a sua marca na ciência portuguesa. Será, por isso, um modelo para as gerações mais jovens? "Não gosto de pôr etiquetas, mas contacto muitas vezes com jovens e, até como mulher, acho importante que as pessoas vejam que é possível ter uma mulher a fazer ciência", conclui.

rui.godinho@dn.pt

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