Wu Zetian: a única imperatriz da China e a sua estela sem inscrições
No século VII, quando Wu Zetian viveu, a dinastia Tang tinha sido fundada havia apenas pouco mais de vinte anos, e a capital, Chang’an, já era uma das maiores cidades do mundo. Aos catorze anos, devido à sua beleza notável, foi convocada para o palácio e recebeu o título de cairen (dama de talento) – um dos graus inferiores entre as esposas e concubinas do imperador.
O imperador Taizong concedeu-lhe o nome “Wu Mei” (literalmente a Encantadora Wu), mas isso não contribuiu para uma elevação do seu estatuto. Em 649, o imperador Taizong faleceu e, segundo as regras palacianas, as esposas e concubinas que não tivessem tido filhos deviam entrar num templo e abraçar a vida monástica. Wu Zetian foi enviada para um templo budista em Chang’an, onde deveria ter passado o resto da vida. Mas o novo imperador, Li Zhi, chamou-a de volta ao palácio. Filho do imperador Taizong, Li Zhi já a conhecia antes de ascender ao trono. Aos trinta e um anos, Wu Zetian tornou-se imperatriz.
A identidade de imperatriz consorte aproximou-a do poder, mas foi a doença do marido que a empurrou verdadeiramente para o seu centro. Li Zhi sofria de uma doença prolongada que todos os dias o impedia de dar despacho à totalidade dos documentos apresentados pelos funcionários imperiais. Por isso, mandou Wu Zetian sentar-se atrás dele, separada por uma cortina, para decidirem em conjunto os assuntos de Estado, sendo os dois chamados conjuntamente de “Dois Soberanos Sagrados”. “Soberano Sagrado” era o tratamento respeitoso que os súbditos usavam para o imperador, pelo que esta designação significava que Wu Zetian já era considerada como estando ao nível do imperador.
A cortina era uma exigência do protocolo da época – as mulheres não podiam aparecer formalmente na sala do trono e, mesmo participando nas decisões, só o podiam fazer por trás de uma cortina. A sala do trono continuava a ser onde os homens discutiam os assuntos de Estado e a presença de uma mulher ali, mesmo atrás da cortina, era suficiente para inquietar muitos ministros.
Nesses mais de vinte anos atrás da cortina, ela percebeu como o país funcionava: de onde vinha o dinheiro, como se escolhiam os funcionários, como se faziam as guerras. Depois da morte de Li Zhi, ela fez subir ao trono, um após o outro, dois dos seus filhos, mas os assuntos importantes da corte continuaram sempre a ser decididos por ela. No ano de 690, Wu Zetian, com sessenta e sete anos, proclamou-se imperatriz e mudou o nome oficial do Estado para “Zhou”, o que equivalia a anunciar o fim da antiga dinastia. Ela não herdou um trono: criou um para si própria.
Na Europa, as rainhas não eram raras — em Portugal, por exemplo, D. Maria I subiu ao trono no século XVIII. A diferença é que D. Maria ascendeu ao poder dentro de um sistema de sucessão já existente, ao passo que, no sistema que Wu Zetian enfrentava, simplesmente não havia lugar reservado para uma mulher como imperadora – até o nome do Estado foi ela própria que o mudou no dia em que subiu ao trono.
Depois de se proclamar imperatriz, a primeira coisa que reformou foi o sistema de seleção dos funcionários imperiais. O exame imperial era, na época, o sistema de seleção dos funcionários do Império Chinês. Ela determinou que a última fase fosse presidida pessoalmente pelo imperador: os candidatos entravam no palácio e respondiam às perguntas presencialmente, no que se chamava “exame de salão”. Criou ainda o “exame militar”, para testar artes marciais e selecionar talentos militares. Antes disso, os cargos importantes eram quase todos controlados por grandes famílias que os transmitiam de geração em geração, mas, depois das suas reformas, letrados sem ligações a grandes famílias começaram a entrar em massa ao serviço da corte.
Wu Zetian também aliviou os impostos e promoveu obras hidráulicas. Porém, o poder também tinha o seu lado sombrio. A imperatriz instituiu a “caixa de cobre” para receber denúncias secretas, incentivando a delação e nomeou um conjunto de funcionários que recorriam a métodos cruéis para lidar com quem se lhe opunha.
Em 705, Wu Zetian faleceu, com oitenta e dois anos. Contando desde a sua participação nos assuntos de Estado por trás da cortina, deteve o poder supremo durante mais de quarenta anos. No leito de morte, renunciou ao título de imperatriz, recuperou a condição de imperatriz consorte e foi sepultada junto do marido, o imperador Gaozong da dinastia Tang. O seu mausoléu, chamado Qianling, não foi construído com terra acumulada, mas sim como um palácio subterrâneo escavado no interior do monte Liang. Visto de longe, três picos ligam-se entre si e os habitantes locais descrevem a sua forma como a de uma mulher deitada.
Hoje, quem visita Qianling vê duas estelas altas, uma a leste e outra a oeste. A do lado oeste regista os feitos de Li Zhi, com inscrição redigida por Wu Zetian. A do lado leste pertence-lhe a ela. Inicialmente, o corpo da pedra estava vazio, sem uma única palavra, e só mais de quatrocentos anos após a sua morte é que começaram a surgir, gravadas por literatos, notas sobre a reparação do mausoléu e poemas em sua memória. Quanto à razão para não ter mandado gravar nada quando a estela foi erguida, Wu Zetian não deixou explicação. Alguns dizem que os seus feitos foram demasiado grandiosos para caberem em palavras; outros dizem que as controvérsias à sua volta eram demasiado profundas e que ela não quis fazer um juízo sobre si própria; outros ainda dizem que deixou os seus méritos e faltas para serem julgados pelas gerações futuras.
Passados mais de mil e trezentos anos, quando os visitantes chegam diante da estela e veem as inscrições deixadas pelas gerações que vieram depois dela, a maioria acaba por lhe dar, no seu íntimo, uma avaliação. Talvez seja precisamente esse vazio inicial que, mais do que qualquer inscrição, torna mais fácil ser recordada pela posteridade.

