Abrir a torneira e ter água disponível e potável é um ato tão normal para nós que nem sempre pensamos na logística que tal gesto envolve. Todos os dias, milhares de profissionais trabalham para que isso aconteça. "Quando abrimos a torneira ou utilizamos o sistema de saneamento, há por detrás um trabalho contínuo de equipas multidisciplinares que asseguram um serviço essencial à saúde pública, à proteção do ambiente e ao funcionamento das cidades", diz ao DN Luís Lourenço, diretor de recursos humanos do Grupo INDAQUA, que emprega mais de 900 profissionais no setor.De acordo com o especialista, são "profissionais altamente qualificados, muitas vezes pouco visíveis para o público, mas absolutamente determinantes para que o ciclo urbano da água funcione com qualidade, segurança e sustentabilidade". São operadores de estações de tratamento de água e de águas residuais, técnicos de exploração de redes, equipas de manutenção e deteção de fugas. Há ainda técnicos de laboratório que garantem o controlo da qualidade da água e equipas de engenharia que planeiam e acompanham investimentos e melhorias nas infraestruturas.Mas, se as pessoas não se apercebem deste trabalho, isso é também um bom sinal, explica Luís Lourenço. "Se a população não se aperceber da operação destes dois serviços, é um ótimo sinal. Significa que tudo funciona para o consumidor: que tem rede de água e saneamento disponíveis, que está ligado a elas e que essas redes são 100% funcionais, com qualidade, segurança e continuidade de serviço. É sinal de que estamos a fazer bem o nosso trabalho", ressalva.Tal como noutros setores, há dificuldade em contratar mão de obra. "As funções mais desafiantes de preencher são, sobretudo, aquelas que exigem competências técnicas especializadas e experiência operacional em infraestruturas críticas", destaca o profissional. É o caso de operadores, técnicos de manutenção eletromecânica, de instrumentação e automação, bem como profissionais com experiência na exploração e manutenção de redes de abastecimento e saneamento."São funções muito específicas e exigentes – quer fisicamente, quer por necessitarem de formação técnica sólida, bem como de conhecimento prático adquirido ao longo de vários anos de trabalho no setor", detalha. A empresa também identifica "alguma escassez de determinados perfis de engenharia, nomeadamente nas áreas da engenharia do ambiente, hidráulica, eletrotécnica e automação, sobretudo quando combinam conhecimento técnico com experiência em operação de sistemas de água e saneamento".Também à semelhança de outras áreas, a digitalização cria novos postos de trabalho. "A crescente digitalização do setor tem igualmente aumentado a procura por profissionais com competências em análise de dados, sistemas de telemetria, gestão de ativos e soluções tecnológicas aplicadas à gestão das infraestruturas", sublinha.Renovação geracionalLuiz Lourenço considera que faltam jovens nestas carreiras por duas razões: a formação e a falta de interesse. "Sentimos que estas profissões nem sempre estão suficientemente presentes nas escolhas profissionais dos mais jovens", explica.O setor tem "uma visibilidade social relativamente reduzida, quando comparada com outras áreas mais mediáticas ou associadas à tecnologia digital". Ao mesmo tempo, considera que "existe efetivamente alguma escassez de formação técnica específica orientada para as necessidades operacionais do setor da água", destacando que o trabalho exige "uma curva de aprendizagem significativa".Trata-se também de um reflexo da falta de valorização das carreiras técnicas. "Durante muito tempo, o percurso académico tradicional foi visto como a via preferencial, em detrimento das profissões técnicas, menos reconhecidas, apesar de exigirem elevado nível de qualificação e responsabilidade".Ainda assim, refere que "nos últimos anos têm sido dados alguns passos relevantes no reforço do ensino profissional e na valorização de percursos formativos mais orientados para a prática", o que é positivo para setores como o da água.A empresa já observa que muitos trabalhadores estão a aproximar-se da idade da reforma, o que reforça a necessidade de renovação geracional. "Tal como acontece em muitos setores ligados a infraestruturas e serviços essenciais, uma parte significativa dos profissionais tem muitos anos de experiência e está progressivamente a aproximar-se da idade da reforma", conta.Este é, por isso, um dos maiores desafios do setor. "É fundamental garantir a transmissão desse conhecimento para as novas gerações, através de processos estruturados de integração, formação e acompanhamento no terreno", afirma. É ainda imperativo "continuar a atrair novos profissionais para o setor, assegurando uma renovação progressiva das equipas e evitando a perda de know-how crítico".Sobre a mão de obra imigrante, o diretor de recursos humanos afirma que não tem atualmente um peso relevante. "A maioria dos profissionais que asseguram a operação são trabalhadores locais, com conhecimento do território onde operam, o que é particularmente relevante num serviço que exige proximidade e rapidez de resposta".Ainda assim, o cenário pode evoluir. "A mão de obra imigrante pode ter um papel complementar importante, sobretudo em funções de caráter mais operacional ou em contextos em que existe maior dificuldade em recrutar profissionais", contextualiza.No futuro, poderá ser ainda mais essencial. "O contributo destes trabalhadores poderá assumir-se particularmente relevante no reforço da capacidade das equipas e na resposta a necessidades específicas do mercado de trabalho", conclui.amanda.lima@dn.pt.Mulheres gastam 250 milhões de horas por dia a recolher água, alerta especialista.Mais de dois mil milhões de pessoas estão sem acesso seguro a água potável