Estima-se que um em cada cinco portugueses sofrem de ansiedade e depressão no país com o maior consumo de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos da OCDE. Mas, e se, afinal, aquilo que conhecemos até aqui como doença mental, com todo o estigma associado, não for uma doença, mas sim o sintoma de uma disfunção metabólica? E se a causa dessa desregulação também ao nível mitocondrial puder ser tratada com aporte nutritivo personalizado, modulação hormonal, dieta específica e alteração no estilo de vida?Parece revolucionário e é, mas traduz a abordagem que especialistas norte-americanos na área da psiquiatria, neurociência e medicina nutritiva e bioquímica têm vindo a testar ao longo dos últimos anos nos seus pacientes e em ensaios clínicos, com bons resultados.O mais espantoso é que, com a dieta cetogénica, por exemplo, “há resultados satisfatórios” em condições mais complexas como epilepsia, TDAH (Transtorno do Défice de Atenção com Hiperatividade), autismo, doença bipolar ou esquizofrenia, garantem especialistas como William Walsh (doutorado em bioquímica, especialista em medicina nutritiva e fundador do Walsh Research Institute, que já formou médicos de 80 países) ou Christopher Palmer (doutorado em psiquiatra e professor associado na Harvard Medical School, autor de The Brain Energy). A dieta cetogénica consiste em ingerir maior proporção de gorduras boas (o cérebro precisa dela, pois consome 20% de toda a energia produzida), proteína em dose moderada e baixo teor de carbohidratos.Esta foi uma porta que se abriu desde que a ciência comprovou a ligação entre a função cerebral e o que acontece no intestino, ao ponto de este ser já considerado o ‘segundo cérebro’, pois é onde são produzidos neurotransmissores fundamentais para o cérebro, como a serotonina ou a dopamina, só para citar alguns.Resultados expressivosEm Portugal tratar a saúde mental com a ajuda da nutrição, suplementação e hormonas ainda é um tema tabu na comunidade médica (vários especialistas esquivaram-se mesmo a assumir uma posição ao DN), mas há quem tenha iniciado esse caminho solitário há vários anos e quem o esteja a encetar mais recentemente. É o caso da psiquiatra Gisela Borges, com mais de duas décadas de prática _ parte dela no Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos _a grande maioria do tempo habituada a prescrever ansiolíticos, estabilizadores de humor ou antidepressivos aos seus pacientes, e muitas vezes, sem resultados satisfatórios.“Há uns quatro anos, após frequentar um curso de modulação hormonal com a Dra. Ivone Mirpuri, e de começar a conhecer a investigação de Cristopher Palmer e de outros investigadores, abriu-se um portal para uma outra dimensão”, assume ao DN. Gisela Borges já experienciou as transformações nos seus próprios pacientes. “Uma mulher estava com quadro depressivo há dez anos na sequência de um divórcio, a tomar dose alta de antidepressivos, na menopausa há três ou quatro anos, mas sem melhoras. Neste quadro achei que valia a pena tentar a abordagem que aprendi no curso e recomendei-lhe a reposição hormonal de progesterona, estradiol, testosterona e vitamina B-12” (que caem a pique na menopausa e são reconhecidamente suscetíveis de causar grandes transtornos e disfunções metabólicas). “Foi absolutamente impressionante a transformação, os sintomas desapareceram e ficou uma mulher totalmente reabilitada”, conta a psiquiatra ao DN, ciente de que os resultados a obrigam agora a olhar para cada paciente “numa perspetiva muito diferente”. Mas, admite, “é uma abordagem mais exigente, que exige estudo”.Outro caso que a médica descreve corrobora igualmente o que a medicina funcional e integrativa tem vindo a defender há vários anos: “Uma outra paciente na casa dos 70 anos estava com sintomas de depressão severa há quatro, cinco anos, com a agravante de que era cuidadora do marido que tinha sofrido um AVC”. Depois de ter experimentado várias associações de fármacos e de nada estar a funcionar, “investiguei a tiroide _ a senhora estava medicada para hipotiroidismo, mas não conseguia otimizar a T4 para fazer a conversão em T3 (uma hormona tiroidea que tive de mandar vir da Alemanha) _então, em articulação com o colega endocrinologista que a seguia ajustámos a medicação”. E o esforço valeu a pena: “Foi uma diferença do dia para noite, a senhora veio dizer-me que já se reconhecia finalmente a si própria ao fim de muito tempo sob efeito de antidepressivos”. Causas orgânicas explicam 95% dos casosIvone Mirpuri, médica especialista em modulação hormonal, está habituada a assistir a mudanças disruptivas como aquelas na saúde dos seus pacientes há mais de uma década, pois, excetuando as causas psicogénicas, “95% das situações de ansiedade e depressão tem causas orgânicas”, assevera, em entrevista ao DN.“Trabalho há 16 anos em modulação hormonal e tive oportunidade de verificar inúmeras vezes como a correção hormonal e dos nutrientes em défice melhoravam toda a parte emocional do utente, e retirávamos a terapêutica que vinha introduzida em mais de 90% destes utentes. Sei a importância de um corpo equilibrado para obviar o aparecimento destas situações”. Por isso, sustenta que “a ansiedade e a depressão são sintomas graves, mas não uma doença”.Para a patologista clínica, aqueles sintomas “são reflexo do estado de desequilíbrio hormonal e nutricional em 95% das situações, e isto reflecte-se em todos os sistemas no nosso corpo, com sintomatologia diversa que tem de ser reconhecida por médicos de todas as especialidades”. Por isso, Ivone Mirpuri defende que “todos os médicos têm de saber de modulação hormonal”. Mas essa está longe de ser a realidade, lamenta. “A maioria dos médicos continuam facilmente a sobremedicar estes utentes, tornando-os muitas vezes dependentes, pouco produtivos e infelizes, com enormes cutos pessoais, sociais e económicos para o Estado”. E, prossegue: “A saúde da sociedade depende dos médicos, mas a maioria não se atualiza e tem apenas uma atitude de correção do sinal e do sintoma, uma vez que foi assim que aprenderam”. As críticas contundentes da clínica dirigem-se também aos programas curriculares das universidades de medicina “desactualizados e enviesados onde nada se ensina sobre isto”. Isso mesmo atestam as centenas de médicos, de várias especialidades, que já passaram pelas várias edições do seu curso de modulação hormonal, que terá uma versão dedicada à ansiedade e depressão.O DN questionou o Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos para conhecer a sua posição sobre a abordagem nutricional e hormonal à doença mental, mas não obteve resposta. Ficou também sem resposta a pergunta sobre se os exames à tiroide e às hormonas sexuais (essenciais no período da perimenopausa e menopausa) deveriam ser prévios à prescrição de psicofármacos e também se os programas curriculares deveriam ser atualizados em função das novas descobertas sobre a relação entre dieta e saúde mental.Da Ordem dos Nutricionistas (ON), a postura foi diferente. Em declarações ao DN, Manuela Nogueira, membro de direção da ON e diretora do Serviço de Nutrição da ULS do Alto Ave (Guimarães), considerou que “há uma relação direta entre nutrição e saúde e o que sabemos é que existem alterações metabólicas ao nível do intestino que podem afetar o cérebro. Há já um patamar científico robusto sobre isso”. Quanto ao papel de certas dietas, como a cetogénica, para o tratamento de doenças do foro mental, a nutricionista refere que “existem vários estudos a indicar benefícios nos casos de epilepsia e autismo” e indícios também para a bipolaridade, mas ressalva que “na saúde mental há muitas variáveis, o ser humano é um laboratório por si só e há respostas variáveis ao mesmo estímulo”.Essa é, aliás, uma ressalva feita igualmente pelo psiquiatra Cristopher Palmer, que usou com sucesso a dieta cetogénica em pacientes com doença bipolar e esquizofrenia que não respondiam aos tratamentos clássicos. O autor, que usa a dieta que mimetiza, na prática, os efeitos do jejum intermitente, refere que ela resulta em alguns casos, não necessariamente em todos. Tal como acontece, de resto, com as medicações convencionais.Para a nutricionista Manuela Nogueira, “a dieta mediterrânica continua a ser a referência de saúde, na medida em que é a mais equilibrada, rica em antioxidantes com nutrientes importantes também para o cérebro, como o ómega 3 dos peixes, do azeite e dos frutos secos”. Essa é também a recomendação de Ivone Mirpuri, defensora do equilíbrio.Em causa está um tema que bem merceria ser tratado como emergência nacional, pois estima-se que cerca de 43% da população portuguesa venha a enfrentar doença mental ao longo da vida, de acordo com José Temótio, coordenador do Centro de Psiquiatria da ULS do Baixo Mondego. E o que estudos também indicam é que existe uma comorbilidade elevada nos pacientes com doença mental (consumidores de psicofármacos), ou seja, têm várias outras doenças associadas, o que não surpreende se em causa está uma disfunção metabólica.Ivone Mirpuri sustenta que, muitas vezes, estes fármacos, que “podem ter efeitos secundários indesejáveis ou mesmo sérios são desnecessários”. Para além da reposição hormonal na menopausa ou o tratamento da tiroide, dá o exemplo da doença pirrólica – que se manifesta com ansiedade, mudanças de humor, baixa resistência ao stress e agressividade _ “e pode ser tratada de forma muito simples, usando vitamina B6 e zinco”, porque resulta da sua escassez.Em Portugal quase metade da população sofre de duas ou mais doenças crónicas, o que é considerada uma taxa de comorbilidade elevada em termos europeus. Um dado que, por si só, deveria fazer soar os alarmes..Jochen Ganter: “Tomar uma chávena de chá quente com idosos também é saúde mental”