Enfermeiro de formação, o alemão Jochen Ganter, de 49 anos, cumpre a sua terceira missão na Ucrânia ao serviço da organização não governamental Médicos Sem Fronteiras, como coordenador de projeto. Na primeira vez, logo no início da invasão, esteve com clínicas móveis na fronteira entre a Ucrânia e a Hungria; na segunda, no centro-oeste, em Vinnytsia, onde se aposta na fisioterapia precoce. E agora, em Kiev, “por causa do frio”. Como o próprio diz, a sua vida “não está a ficar entediante”.Trabalhou noutros contextos humanitários complexos. Quais são as principais diferenças que a guerra na Ucrânia apresenta para a MSF?Em todos os anos em que estou na MSF, foram muitos contextos diferentes, e um não é semelhante ao outro, embora haja algumas semelhanças. Há as crises que fazem parte do nosso ADN clássico e de onde viemos: temos uma crise nutricional, temos campos de refugiados, surtos de cólera, Ébola, etc. São uma emergência médica muito clara e definida, num ambiente a que chamamos pobre em recursos. Em muitos países, podemos ser os únicos a responder. Em muitos contextos, podemos ser o sistema de saúde, o sistema médico; não há outro, ou entrou em colapso. Se olharmos para a escala da guerra de que estamos a falar aqui e para a sociedade em que vivemos, é óbvio que esse é um desafio diferente para nós. Estou em Kiev neste momento e Kiev é uma capital europeia. É incrível, é linda, funciona muito bem. É muito digitalizada, acho que estava em ascensão, mas era altamente desenvolvida. Em muitos outros países onde trabalhamos, não se encontra necessariamente isso. Portanto, o ponto de partida já é diferente. A Ucrânia também era altamente desenvolvida em termos de assistência médica, em termos de hospitais, em termos do que o pessoal é capaz de fazer. Ao mesmo tempo, pelo menos para nós, como organização, é um tipo diferente de guerra. Às vezes tendemos a falar num contexto humanitário de um conflito internacional. Mas [a palavra] conflito não se encaixa. Não estamos a falar de um conflito, estamos a falar de um conflito entre duas partes beligerantes, em grande escala. Portanto, este já é um cenário diferente, em que nos encontramos numa sociedade altamente sofisticada e com uma rede médica, certamente sob pressão, como em toda a Europa. Não sei como é em Portugal, mas se olharmos para a Europa há longas horas de espera nas salas de urgência. Acho que mesmo em Portugal não será tão fácil encontrar um clínico geral ou um especialista, e espera-se seis meses para qualquer coisa. Portanto, se digo altamente sofisticada, com certeza que tinha problemas, que tinha limitações, que estava a lutar contra algumas infraestruturas antigas. No entanto, ao contrário de outros contextos, encontramos um sistema funcional que está sob enorme pressão devido à guerra. Pelo menos se olharmos para Kiev. Se olharmos para as áreas no leste, onde fica a linha de frente, vemos uma situação em que hospitais são atacados, há uma afluência muito maior de pessoas. Vemos muito mais pacientes ou vemos uma mudança de prioridades, mas o facto de haver uma guerra não muda o facto de que já havia idosos e pessoas com doenças crónicas. Digamos que, para nós, é um desafio diferente desde o início. Há o desafio no sentido positivo, de que temos de nos adaptar. Onde temos um valor acrescentado? Onde podemos encaixar-nos melhor? Onde podemos ter o maior impacto para ajudar as pessoas que identificamos como mais necessitadas? Noutros países, pela minha experiência, é muito claro o que há a fazer, se formos ajudar depois de um terramoto. É muito claro se houver um surto de Ébola. Aqui é um cenário diferente. Temos de ser muito flexíveis e muito adaptáveis, mas também criativos.A MSF tem alguma necessidade específica para alguma região da Ucrânia?As necessidades estão a mudar um pouco. Se considerarmos a Ucrânia como um todo, as necessidades mais próximas da linha da frente são obviamente diferentes das que se encontram mais a oeste, no centro do país. O que também se pode observar é que, quanto mais perto da linha da frente, mais as pessoas estão expostas a bombardeamentos e ataques, pelo menos em termos de frequência. Obviamente, as necessidades são diferentes lá e também temos de ser flexíveis e adotar abordagens diferentes. Por isso, os nossos programas no leste, por exemplo, baseiam-se muito mais nas necessidades correntes, do género: “Precisam de um cirurgião em algum lugar?” Até ao ano passado, mantínhamos ambulâncias em funcionamento, serviços para apoiar as pessoas no terreno. Por exemplo, mais aqui no centro, mantemos uma clínica de saúde mental onde nos dedicamos muito à perturbação do stress pós-traumático (PSPT), trauma, etc. E em Kiev, agora, que tem sido muito atacada, basicamente, em cada duas noites. E estamos a enfrentar este clima extremo com o frio, em resultado de muitos ataques contra as infraestruturas. Portanto, enquanto mais para o leste, o sistema de saúde está muito mais sob pressão e há um trabalho muito mais prático, o trabalho muda um pouco mais para o centro, onde estamos focados em PSPT e trauma. E digamos que temos uma emergência dentro de uma situação de emergência, que é o tempo frio. Tem sido o inverno mais frio desde 2010.Um dos vossos médicos visitou uma aldeia onde o aquecimento estava disponível apenas uma hora e meia por dia, com temperaturas 20 graus abaixo de zero. Quais são as consequências a longo prazo dessa limitação física e moral?A primeira consequência é, obviamente, estar completamente frio. Quero dizer, se olharmos para a pirâmide de Maslow, algo subestimado que, por vezes, esquecemos, ter comida suficiente e estar quente é uma necessidade tão básica. É uma das necessidades desde o início da vida. Após o nascimento, estamos no berço, somos mantidos aquecidos, alimentados, etc. É difícil dizer, a longo prazo, do ponto de vista médico. Há uma ameaça muito clara e imediata quando está muito frio, especialmente se falamos de pessoas vulneráveis. O que fazemos, em Kiev, é centrar-nos muito em todas as pessoas idosas. Existem serviços disponíveis, pontos de aquecimento, escolas abertas, onde se pode obter uma refeição quente. E quem não consegue chegar à assistência que pode ser prestada? Pensamos de imediato nos idosos, que já não conseguem andar tão bem. E mesmo que consigam, há muitos edifícios altos, bairros com edifícios de 30 andares. Sem elevador, fica-se preso lá. E, com certeza, se não se mantiver aquecido, corre-se o risco de agravar ainda mais a situação em que já se encontra. Uma pessoa mais velha, se sofre de hipertensão, de diabetes, ou com problemas respiratórios, estas condições são exacerbadas pelo frio em geral. Não fica muito quente nas casas. O aquecimento ou é completamente desligado, ou funciona apenas um pouco, e chega a uns 8 a 10 graus. As pessoas tentam proteger-se o máximo possível, com várias camadas de cobertores, se tiverem fogão a gás, mantêm o fogão ligado para criando algum calor, e muitos, incluindo nós, têm distribuído a boa e velha botija de água quente. Isto afeta-nos também. Hoje, no escritório não há aquecimento, estamos a trabalhar com agasalhos e camisolas, ou casacos, e ontem não havia água. O aquecimento pode voltar, mas não é suficiente, não é por muito tempo. Mas quando fala em longo prazo, acho que é mais a situação de quem está na sua casa e não está seguro lá. E inseguro também significa que não há calor. Com o tempo, isso afeta uma pessoa, também tem um impacto mental. Houve tentativas ou ofertas para retirar alguns idosos para lares de idosos, mas as pessoas ficam nas suas casas. As pessoas querem ficar no seu lugar, mas o lugar torna-se hostil, porque é extremamente frio. É um círculo vicioso. Não há eletricidade, o que significa que a água não pode ser bombeada para 30 andares, porque não funciona por gravidade, neste caso. Se falarmos de águas residuais, elas descem por gravidade, mas a certa altura têm de ser bombeadas para a canalização. Isto além dos alarmes noturnos: não podem descer as escadas até ao abrigo, ou não podem sair facilmente. Tudo isso junto, certamente tem um impacto no seu bem-estar mental, porque é como se abalasse os alicerces do que consideramos uma casa.Nas negociações entre a Rússia e a Ucrânia, em Genebra, confirmou-se que a guerra parece longe de terminar. De que forma os cidadãos europeus podem apoiar o vosso trabalho?Essa é uma pergunta muito complicada. Para mim, é difícil dizer qualquer coisa política. Vejo a guerra aqui, vejo o impacto, mas vejo-a tanto quanto há dois anos, quando estive no Darfur. É a mesma situação. Para nós, é como em qualquer lugar onde as pessoas, civis, são afetadas. Isso é muito difícil. Eu tenho um emprego em que o meu objetivo é ficar desempregado. Mas se eu olhar para o mundo, neste momento, isso não vai acontecer tão cedo. Estou focado principalmente no impacto neste momento. E acho que o apoio existe, não é como noutros lugares. As necessidades continuam. E a cada dia que a guerra continua, não está a melhorar. Quero dizer, mesmo que acabe em breve, como esperamos, o país vai carregar um fardo nos próximos anos. E é por isso que nós, por exemplo, além de cuidar da PSPT e do trauma, cuidamos das pessoas, entregamos coisas para as manter aquecidas, cuidamos da sua saúde, ligamo-las aos serviços, levamo-lhes até uma chávena de chá quente. Parece absurdo, mas passar meia hora a tomar uma chávena de chá quente com idosos, isso também se chama saúde mental.Se a guerra acabasse agora, a saúde mental seria a primeira prioridade?Não, o inverno ainda está a decorrer. A prioridade aqui é estabilizar a eletricidade, estabilizar o aquecimento. Isso é algo que não se pode planear, e é aí que nós, como seres humanos, somos muito humildes, porque, felizmente, não podemos mudar o tempo. Com certeza há muito para reparar e consertar. [Da nossa parte] há um pacote que estará disponível nos próximos anos, seja, por exemplo, de fisioterapia, ou de saúde mental. É algo em que tem de se trabalhar para superar e construir o futuro..Atuação no terrenoA ONG Médicos Sem Fronteiras tem atualmente 381 pessoas ao seu serviço na Ucrânia, em duas zonas de atividade: junto da linha da frente, com clínicas móveis, serviço de ambulâncias e suporte aos hospitais locais; longe da linha da frente, com apoio à criação de sistemas de reabilitação pós-cirúrgica, na saúde mental e tratamento de perturbação do stress pós-traumático (PSPT); e com a equipa móvel na região de Kiev, ao dar apoio energético e de aquecimento, assim como na deslocação às casas de idosos e de pessoas com deficiência. Mais de 425 mil consultasEntre 2022 e 2025, a MSF realizou mais de 370 mil consultas médicas em postos móveis e acima de 55 mil consultas de saúde mental. Isto apesar de as equipas da MSF terem sido forçadas a abandonar sete hospitais e dezenas de locais de clínicas móveis, desde junho de 2022, devido à violência.Dados de 2025- 12.904 admissões em serviços de urgência; - 1053 cirurgias;- 552 internamentos em UCI; - 10.722 transportes de ambulância, 60% dos quais com ferimentos de guerra;- 3580 consultas de PSPT em Vinnytsia. Nas clínicas móveis: - 45.322 consultas médicas; - 3612 consultas de saúde mental; - 3211 consultas de saúde sexual e reprodutiva; - 8673 rastreios de tuberculose.Houve ainda 9500 consultas a deslocados internos, mais do dobro do realizado no ano anterior (4327)..A operação russa de quatro dias leva quatro anos, e sem fim à vista