Ribeirão Preto. A Silicon Valley brasileira da reprodução assistida
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Ribeirão Preto. A Silicon Valley brasileira da reprodução assistida

Cidade a 400 km de São Paulo é responsável por um a cada seis embriões congelados do Brasil. Para tentar saber os motivos, o DN visitou a maior clínica da região.
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"Aos 33 anos precisei de fazer uma cirurgia para retirada de uma trompa e de um ovário, mesmo sem nunca ter tentado engravidar até então, o impacto da operação trouxe um desespero imediato, pois eu já sabia que poderia afetar as minhas possibilidades de ser mãe”, conta Ludmila Costa ao DN. 

A gestora de marketing, de 45 anos, foi uma de entre milhares de mulheres que recorreram a clínicas da cidade de Ribeirão Preto, o novo hub no Brasil, na América do Sul, na América Latina e até no mundo da reprodução assistida e fertilização in vitro.

Dados do sistema da Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Brasil (Anvisa) demonstram que o país ultrapassou a marca dos 689 mil embriões, o que o coloca, de acordo com os dados disponíveis, no topo mundial, só atrás dos Estados Unidos, país que tem, no entanto, mais cerca de 150 milhões de habitantes. Na Europa, dada a abordagem legal diferente de país para país, não é possível ter números confiáveis mas em Portugal estima-se, segundo relatórios oficiais, que haja 73 mil.

Dentro do Brasil, o estado de São Paulo, o mais populoso e o mais rico do país, lidera sem surpresa com 363 mil desses embriões registados. Mas dentro do estado despertou a curiosidade de especialistas em saúde e medicina e também da imprensa local, como a CBN, a emissora de rádio do grupo Globo, o caso de Ribeirão Preto, que, com cerca de 700 mil habitantes, é responsável por quase um terço, 31%, desse total.

Da mesma forma que o Silicon Valley, na Califórnia, é o epicentro global da tecnologia e inovação, ao abrigar as sedes de Apple, Google ou Meta, a cidade mais conhecida até hoje por ser uma das capitais do agronegócio começa a ser chamada de “Vale do Silício” da reprodução assistida nacional – e até internacional, uma vez que tem, sozinha, stocks comparáveis a países médios europeus.

Entre os fatores que contribuem para essa liderança está, além do perfil socioeconómico da região, considerado elevado para o Brasil, a presença da Universidade de São Paulo e de outras faculdades na cidade, o que favoreceu a criação de clínicas especializadas e a formação de profissionais do setor. Ribeirão Preto tornou-se até “um destino turístico reprodutivo”, de acordo com uma outra reportagem, da TV Record.

“Após a liberação médica para tentar engravidar, vieram as tentativas naturais, acompanhadas de frustrações”, continua Ludmila Costa acerca da sua jornada. “Mas diante dos resultados negativos, recebi a notícia que mudaria completamente a minha trajetória: a maior possibilidade de engravidar seria por meio da fertilização in vitro”.

Ludmila Costa e o filho, Logan.
Ludmila Costa e o filho, Logan.FOTO: Direitos reservados

“Eu sabia que era um tratamento complexo e de alto custo mas não tinha a dimensão real do que enfrentaria, comecei a pesquisar clínicas em todo o Brasil, passei por consultas, conheci diferentes propostas, mas foi na Semear Fertilidade que encontrei algo diferente, porque já era muito bem conceituada no meio médico, mas principalmente pela proposta de tornar o tratamento mais acessível”, conta Ludmila, que morava num outro estado, Minas Gerais, quando descobriu a clínica ideal em Ribeirão Preto.

A Semear Fertilidade, aliás, é responsável por guardar perto de 100 mil embriões, o que representa cerca de 86% de todo o volume de Ribeirão Preto, o Silicon Valley brasileiro da reprodução. “Destacamo-nos em Ribeirão Preto pela excelência técnica, inovação constante e um modelo de cuidado verdadeiramente humanizado”, conta Marcelo Carbonieri, CEO da Semear Fertilidade, ao DN. “O nosso compromisso é unir ciência e acolhimento para oferecer resultados consistentes, mesmo nos casos mais complexos, contribuindo para posicionar a cidade como um dos principais polos de reprodução assistida do país”.

Os pacientes das clínicas mudaram de perfil nos últimos anos: historicamente associada a mulheres que enfrentam dificuldades para engravidar, como Ludmila, a reprodução assistida passou a ser utilizada também como ferramenta de planeamento familiar. Muitas mulheres armazenam óvulos e embriões por tempo indeterminado, preservando a qualidade das células e ampliando as probabilidades de gestação num momento considerado mais adequado pela futura mãe e driblando, dessa forma, o chamado “relógio biológico”. No Brasil, houve um aumento de 40% nas gestações acima dos 40 entre 2010 e 2022 e a média de idades das mães, hoje em dia, é 28,1 anos, enquanto no ano 2000 era de 26,3. Na Europa, supera os 30 anos.

Por outro lado, há um aumento exponencial de casais com relações homoafetivas a procurarem as clínicas de reprodução assistida de Ribeirão Preto e outras – os casais femininos procuram inseminação com doador e os masculinos as chamadas barrigas de substituição. E há os casos crescentes de mulheres que decidem ser mães sem parceiro e ainda os casos de prevenção médica de pessoas que vão passar por tratamentos que afetam a fertilidade, como quimioterapia, e casais com diagnóstico genético de risco.

Em paralelo, o crescimento do número de embriões congelados também está ligado ao avanço da tecnologia na área, nomeadamente nos processos laboratoriais que aumentam as taxas de fertilização e o desenvolvimento dos embriões. Um dos progressos mais citados é a evolução das técnicas de congelamento, especialmente a vitrificação, que oferece maior segurança nos processos de congelar e descongelar o material biológico.

Marcelo Carbonieri, CEO da Semear Fertilidade.
Marcelo Carbonieri, CEO da Semear Fertilidade.FOTO: Direitos reservados

O hub de Ribeirão Preto abriga o Centro de Fertilidade de Ribeirão Preto, já com 30 anos de atividade, o Human Reproduction Center Professor Franco Junior, a Matrix, a MaisFert, a Clínica Sesma, entre outras, incluindo a citada Semear Fertilidade, onde Ludmila tentou engravidar.

“Em 2017, fiz a minha primeira fertilização in vitro, a expectativa era enorme mas, por ter apenas um ovário, tive poucos embriões, e o resultado foi negativo”, prossegue ela. “Retomei as tentativas em 2018, passei por mais quatro ciclos de fertilização in vitro, cinco captações de óvulos, sete transferências e dez embriões transferidos mas o meu primeiro resultado positivo foi uma gestação ectópica [fora da cavidade uterina], que levou à retirada da minha outra trompa, e o segundo positivo foi uma gestação química [aborto espontâneo muito precoce]”.

“O terceiro e último positivo”, conclui a gestora de marketing, “foi quando engravidei do meu filho, Logan, a 10 de dezembro de 2019, aos 39 anos, e me tornei mãe”. Mais uma mãe de Ribeirão Preto, o Silicon Valley da reprodução assistida.

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