O atendimento clínico continua a ser o principal motivo de reclamação no setor privado.
O atendimento clínico continua a ser o principal motivo de reclamação no setor privado.Foto: Canva

Reclamações disparam no setor privado da saúde. Mais 30% do que no ano passado e 76% do total de queixas

Reclamações descem nas urgências, onde a Obstetrícia é a especialidade que motiva mais queixas.
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As reclamações dos utentes sobre serviços de saúde aumentaram 23% nos primeiros nove meses de 2026, para um total de 4700 queixas, sendo que esse crescimento é sobretudo acentuado no setor privado, que acumula 3.564 reclamações, revela o "Barómetro O Estado da Saúde em Portugal, da Consumers Trust Labs", realizado com base nas reclamações registadas no Portal da Queixa.

As reclamações no setor privado aumentaram 30% em relação ao período homólogo e passam a representar 76% do total. Já o setor público representa 24% das queixas e sofreu um aumento de mais de 4% no número de reclamações, de acordo com um comunicado enviado esta terça-feira, 22 de setembro, às redações.

Embora três em cada quatro reclamações registadas no setor da saúde em digam respeito ao setor privado, as reclamações sobre hospitais privados diminuíram 2,37%, de 885 para 864. O crescimento está sobretudo relacionado com a subcategoria Produtos de saúde e bem-estar, que passou de 551 para 1.047 reclamações (um aumento de 61%) e já representa 29,38% das reclamações da saúde privada, contra 24,24% dos hospitais.

O atendimento clínico continua a ser o principal motivo de reclamação no setor privado (32,55% das queixas), seguindo-se questões financeiras e de cobrança (23,26%) e os problemas de acesso e prazos (23,06%).

Entre os hospitais privados, a CUF representa 35,42% das reclamações, seguida da Lusíadas Saúde (29,51%), do Hospital da Luz (18,98%) e da Trofa Saúde (13,08%). Juntas, estas quatro entidades concentram 96,99% das reclamações da subcategoria.

Este crescimento de reclamações é acompanhado por um menor indicador de satisfação no conjunto da saúde privada, cuja avaliação média por parte dos consumidores desceu de 3,31 para 3,18 pontos, numa escala de 1 a 10. Se nos cingirmos apenas à subcategoria hospitais privados, a avaliação média até subiu de 2,99 para 3,22 pontos.

Os dados sugerem, por isso, que o aumento das reclamações no setor privado não está concentrado na experiência hospitalar, mas sim nos serviços e nos modelos de prestação de cuidados.

No setor público, o atendimento clínico continua a liderar nas reclamações (41,81%), embora apresente um valor percentual inferior ao do ano passado (54,38%) e tenha melhorado a avaliação média de 3,00 para 3,21 pontos.

A entidade mais visada pelas queixas é o Serviço Nacional de Saúde (SNS), que concentra quase metade das reclamações.

Os hospitais públicos registam 554 reclamações, menos 1,95% do que no período homólogo, sendo que essas queixas estão muito distribuídas. O Hospital de Braga é a entidade com maior peso percentual (8,66%), seguido do Hospital Beatriz Ângelo (5,23%) e do Hospital Garcia de Orta (5,05%).

As reclamações relativas a serviços de urgência diminuíram 8,79%, sendo que nos privados essa descida é mais acentuada (30,77%), passando a representar um total de 23,68% das reclamações nos serviços públicos, contra 7,13% nos privados.

Entre as várias especialidades, a Obstetrícia é a mais reclamada (32,23%), sendo o peso semelhante nas urgências públicas (31,60%) e nas privadas (34,92%).

No que concerne a farmácias e parafarmácias, foram feitas 268 reclamações, mais 11,20% do que no período homólogo. Os problemas relacionados com acesso e prazos, nomeadamente entregas, representam 35,07% das queixas, seguidos da qualidade do atendimento farmacêutico (23,51%) e das questões financeiras e de cobrança (21,64%). Ainda assim, esta é a subcategoria onde a satisfação mais melhora, com a avaliação média a subir de 3,47 para 4,03 pontos.

Para o fundador do Portal da Queixa, Pedro Lourenço, os resultados mostram que a análise da resposta do sistema de saúde não pode limitar-se ao volume de reclamações dos hospitais.

“Se cada vez mais portugueses recorrem ao setor privado para ultrapassar dificuldades de acesso ao SNS, importa perceber se essa resposta consegue acompanhar não apenas a procura, mas também as expectativas dos consumidores. A qualidade da experiência começa no acesso e prolonga-se pela marcação, informação, faturação, atendimento e capacidade de resposta. É essa experiência global que também está refletida nas reclamações", afirmou, citado pela nota enviada às redações.

"Os dados deste barómetro mostram comportamentos diferentes entre setores, mas também revelam que a pressão sobre a saúde não se resume às portas dos hospitais. A capacidade de resposta mede-se cada vez mais pela consistência de todo o percurso do utente", acrescentou.

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