A baixa de Alcácer do Sal ficou inundada na madrugada de 4 de fevereiro.
A baixa de Alcácer do Sal ficou inundada na madrugada de 4 de fevereiro.Foto: Gerardo Santos

Quatro meses após as cheias, Alcácer “ainda está longe da vida normal”

Na madrugada de 4 de fevereiro o Sado transbordou provocando enorme impacte no comércio, habitações, estradas e serviços municipais. A autarquia estima em 109 milhões de euros o total dos prejuízos.
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Ruas fechadas, lojas e restaurantes inundados, habitações que tiveram de ser abandonas, móveis, sofás, frigoríficos estragados e colocados nas ruas. Este era o panorama visível em Alcácer do Sal há quatro meses quando o rio Sado transbordou devido à conjugação entre um persistente e violento comboio de tempestades - que descarregou devido às chuvas torrenciais consecutivas que ocorreram na altura - a maré alta e as descargas das barragens que acabaram por afetar a cidade e várias zonas do município. Agora, passados 120 dias, a situação é melhor, mas está ainda muito longe “da vida normal”, como disse ao DN a presidente da câmara.

Clarisse Campos adiantou que no município “ainda temos vários edifícios afetados, como o posto de turismo, a biblioteca, o museu. Temos os funcionários deslocados, a ocupar gabinetes com outros colegas. Estamos a trabalhar na reabilitação desses espaços. No caso da biblioteca tivemos um apoio da Fundação Gulbenkian de 310 mil euros para a recuperar”.

A responsável - eleita nas listas do PS nas autárquicas de outubro de 2025 - refere que ainda “há muitas obras por fazer no concelho. Há vários caminhos municipais com necessidade de serem recuperados e estamos a reabilitar a Ponte de São Romão”.

Neste momento o objetivo é “recuperar o tempo perdido. Tivemos mais de 100 trabalhadores a recolher os resíduos que foram depositados na rua como móveis, sofás, frigoríficos. Neste momento estamos a trabalhar nos espaços verdes. Mas sei perfeitamente que ainda vamos levar algum tempo a recuperar a cidade e as freguesias, tendo algumas ficado isoladas. Mas, a destruição maior foi na cidade”.

Prejuízos de 109 milhões, 80 só no município

As consequências das cheias na cidade, e no concelho, também têm uma fatura financeira. No caso, a câmara estima que no total da região essa verba atingiu os “109 milhões de euros, incluindo os particulares; no município estimamos que fosse de 80 milhões. Desses recebemos dois milhões e 100 mil euros do Fundo Ambiental e o restante de adiantamento pelos 80 milhões”.

No caso dos particulares há ainda muitos a aguardar os apoios prometidos, de acordo com Clarisse Campos. “Sabemos que para a questão das habitações já foi transferida uma verba de cerca de um milhão e 400 mil euros para a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDRA), só para pagar as despesas com as habitações, não só no nosso concelho, mas de outros abrangidos pela CCDR Alentejo”.

A presidente da autarquia garante que foram “aprovadas as candidaturas, fizemos as vistorias todas e a CCDRA tem estado a pagar. As pessoas queixam-se de algum aumento da burocracia na aprovação das candidaturas. De repente, aquilo para o que bastava umas fotografia para se receber 5000 euros, ou até aos dez mil, não é verdade. O Governo apertou a malha e as CCDR têm uma série de critérios para validar as candidaturas e temos conhecimento de que alguns processos estão a andar para trás e para a frente e não são despachados”.

Há, todavia, casos de apoios já prometidos a outros níveis, como é o de uma instituição particular de solidariedade social que “deverá receber 700 mil euros da Segurança Social. Também os agricultores já têm estado a receber apoios”, sublinha. No caso do comércio, Clarisse Campos frisa que neste caso “a grande maioria recebeu zero e os [comerciantes] que não tinham seguro receberam mesmo zero. Ouvi que alguns recorreram ao lay-off, mas estamos a falar de valores que não ultrapassam os mil ou dois mil euros. E estamos a falar de pessoas com prejuízos: por exemplo na restauração há quem tenha perdas de mais de 250 mil euros e alguns tiveram de recorrer a crédito para avançar com o seu trabalho”.

Executar quadro comunitário

Perante o impacte da intempérie do início do ano e as consequências no concelho há o risco de algumas iniciativas acabarem por não se concretizar. Situação assumida pela presidente da câmara, mas que lembra existirem “projetos estruturantes que não vão ficar em stand-by, até porque estamos a meio da execução de um quadro comunitário. Há uma série de projetos que já vinham do anterior Executivo, e outros que tínhamos pensado fazer, e que são estruturantes e, por isso, não podemos dar-nos ao luxo de perder o financiamento”.

“Não vamos fazer o que queríamos durante quatro anos, mas estamos a trabalhar para que grande parte dos projetos sejam levados a bom porto”, concluiu.

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