Ruas fechadas, lojas e restaurantes inundados, habitações que tiveram de ser abandonas, móveis, sofás, frigoríficos estragados e colocados nas ruas. Este era o panorama visível em Alcácer do Sal há quatro meses quando o rio Sado transbordou devido à conjugação entre um persistente e violento comboio de tempestades - que descarregou devido às chuvas torrenciais consecutivas que ocorreram na altura - a maré alta e as descargas das barragens que acabaram por afetar a cidade e várias zonas do município. Agora, passados 120 dias, a situação é melhor, mas está ainda muito longe “da vida normal”, como disse ao DN a presidente da câmara.Clarisse Campos adiantou que no município “ainda temos vários edifícios afetados, como o posto de turismo, a biblioteca, o museu. Temos os funcionários deslocados, a ocupar gabinetes com outros colegas. Estamos a trabalhar na reabilitação desses espaços. No caso da biblioteca tivemos um apoio da Fundação Gulbenkian de 310 mil euros para a recuperar”.A responsável - eleita nas listas do PS nas autárquicas de outubro de 2025 - refere que ainda “há muitas obras por fazer no concelho. Há vários caminhos municipais com necessidade de serem recuperados e estamos a reabilitar a Ponte de São Romão”.Neste momento o objetivo é “recuperar o tempo perdido. Tivemos mais de 100 trabalhadores a recolher os resíduos que foram depositados na rua como móveis, sofás, frigoríficos. Neste momento estamos a trabalhar nos espaços verdes. Mas sei perfeitamente que ainda vamos levar algum tempo a recuperar a cidade e as freguesias, tendo algumas ficado isoladas. Mas, a destruição maior foi na cidade”.Prejuízos de 109 milhões, 80 só no municípioAs consequências das cheias na cidade, e no concelho, também têm uma fatura financeira. No caso, a câmara estima que no total da região essa verba atingiu os “109 milhões de euros, incluindo os particulares; no município estimamos que fosse de 80 milhões. Desses recebemos dois milhões e 100 mil euros do Fundo Ambiental e o restante de adiantamento pelos 80 milhões”.No caso dos particulares há ainda muitos a aguardar os apoios prometidos, de acordo com Clarisse Campos. “Sabemos que para a questão das habitações já foi transferida uma verba de cerca de 100 mil euros para a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), só para pagar as despesas com as habitações, não só no nosso concelho, mas de outros abrangidos pela CCDR Alentejo”.A presidente da autarquia garante que foram “aprovadas as candidaturas, fizemos as vistorias todas e a CCDR tem estado a pagar. As pessoas queixam-se de algum aumento da burocracia na aprovação das candidaturas. De repente, aquilo para o que bastava umas fotografia para se receber 5000 euros, ou até aos dez mil, não é verdade. O Governo apertou a malha e as CCDR têm uma série de critérios para validar as candidaturas e temos conhecimento de que alguns processos estão a andar para trás e para a frente e não são despachados”. Há, todavia, casos de apoios já prometidos a outros níveis, como é o de uma instituição particular de solidariedade social que “deverá receber 700 mil euros da Segurança Social. Também os agricultores já têm estado a receber apoios”, sublinha. No caso do comércio, Clarisse Campos frisa que neste caso “a grande maioria recebeu zero e os [comerciantes] que não tinham seguro receberam mesmo zero. Ouvi que alguns recorreram ao lay-off, mas estamos a falar de valores que não ultrapassam os mil ou dois mil euros. E estamos a falar de pessoas com prejuízos: por exemplo na restauração há quem tenha perdas de mais de 250 mil euros e alguns tiveram de recorrer a crédito para avançar com o seu trabalho”.Executar quadro comunitárioPerante o impacte da intempérie do início do ano e as consequências no concelho há o risco de algumas iniciativas acabarem por não se concretizar. Situação assumida pela presidente da câmara, mas que lembra existirem “projetos estruturantes que não vão ficar em stand-by, até porque estamos a meio da execução de um quadro comunitário. Há uma série de projetos que já vinham do anterior Executivo, e outros que tínhamos pensado fazer, e que são estruturantes e, por isso, não podemos dar-nos ao luxo de perder o financiamento”.“Não vamos fazer o que queríamos durante quatro anos, mas estamos a trabalhar para que grande parte dos projetos sejam levados a bom porto”, concluiu..Autarcas criticam ministro por "querer passar culpas" sobre atrasos nos apoios à reconstrução de casas.Arruda dos Vinhos estima 20 milhões de euros para reconstruir estradas