"Olho para a minha casa e choro porque não sei quando poderei voltar”. Com emoção, Natália Costa vê a casa ao longe, isolada, porque a ponte que lhe dá acesso desabou. Atrás da moradia, o acúmulo de terra pode deslizar a qualquer momento. A localidade é o Lapão, no interior de Arruda dos Vinhos, onde os deslizamentos de terra provocados pelas tempestades causaram estragos em casas e estradas.Pelo menos uma dezena de moradores está a viver com amigos ou familiares. É o caso de Natália, que, em mais de 40 anos de vida, afirma nunca ter visto nada sequer semelhante. Está em casa da sogra, onde dorme no sofá. Mas esse não é o problema. “Eu sinto é pelos meus filhos, que estão revoltados. Eles sempre viveram no campo, é muito difícil para eles”, conta ao DN. Para voltar a ter a casa da família, o esforço não poderá ser apenas de Natália. A ponte que lhe dá acesso precisa de ser reparada, além do risco de deslizamento de terras que persiste. Depois, ainda precisará de dinheiro para as obras na moradia. “Vamos tentar alguns apoios”, relata..Alguns metros adiante, parece que houve um terramoto. A estrada apresenta grandes crateras e terra revirada. Passar por ali de carro é impossível. Mesmo a pé, requer cuidados. Mais de um mês depois das chuvas, a imagem é uma lembrança da força da natureza. A Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos tem vindo a fazer reparações, mas, ali, a obra é de grande dimensão, com necessidade de reconstrução total..Enquanto o DN passava por uma das estradas destruídas, uma comitiva da CDU visitava o local. Miroslava ŞCiurov, deputada municipal, destaca que estão a vistoriar a zona e a ouvir as pessoas sobre as suas necessidades. Há preocupação com moradores que tiveram as casas afetadas, além das estradas cortadas.Em entrevista ao DN, o presidente da câmara, Carlos Alves, explica que o município está a fazer o que pode. “Temos estado a fazer algumas intervenções executadas pelo município, naquelas vias que estavam intransitáveis e que provocavam perturbações na circulação de pessoas e bens. Fizemos intervenções mais imediatas, mais urgentes”, destaca. No entanto, nalguns locais não há meios sem apoio do Governo central. “É preciso que haja um esforço financeiro do Governo, nomeadamente para as situações mais complexas e de maior dimensão, além de uma avaliação geotécnica”, pontua. O autarca avalia que o custo está “na ordem dos 22 milhões de euros”. Carlos Alves ressalta que tem participado em reuniões sobre o tema, nomeadamente com a associação de municípios. No caso de Arruda dos Vinhos, o autarca explica ainda que existe a particularidade de a zona ter vários tipos de acessos, como estradas municipais, rurais e nacionais.O que Carlos Alves espera é que os apoios cheguem rapidamente. “Nós já temos aprovado um pacote de medidas neste momento, mas, obviamente, tem de haver aqui um músculo financeiro que tem de crescer por parte do Governo central, sem o qual não conseguimos avançar. Esperamos que não demore”, destaca.Recorda-se, o município foi um dos que teve de adiar em uma semana as eleições presidenciais. Conforme mostrou uma reportagem do DN, os moradores “entendiam” a necessidade do adiantamento, mas “não gostam”. Arruda dos Vinhos chegou a ter 22 estradas cortadas, além de outras dez com o trânsito condicionado.Plataforma de financiamento coletivoNesta quarta-feira, 11 de março, às 16h00, será realizada uma cerimónia online para a apresentação da “Plataforma de Financiamento Colaborativo Reconstruir a Região Centro”, com o lema “Reconstruir a região Centro juntos!”. Paulo Fernandes, coordenador da Estrutura de Missão, vai fazer parte da abertura com boas-vindas. Ricardo Gonçalves, que também integra esta task force e João Pedro Pio, da PPL crowdfunding, vão fazer a apresentação desta plataforma. O objetivo é “reforçar a estratégia de resposta às áreas afetadas pelo mau tempo e financiar coletivamente projetos com impacto direto nos territórios”.A iniciativa pretende “mobilizar a sociedade para apresentar projetos nas comunidades e, simultaneamente criar um canal transparente que permite envolver grandes doadores - fundações, empresas e mecenas”, lê-se no site do Governo. Destina-se exclusivamente ao financiamento de projetos de utilização coletiva, não sendo possível candidatar intervenções de natureza privada ou destinadas à reparação de prejuízos individuais. “Constitui um mecanismo complementar aos apoios públicos já mobilizados, não sendo admissível a duplicação de financiamento para as mesmas despesas”, complementa o executivo.Paulo Fernandes, citado num comunicado, destaca que a ferramenta também vai funcionar como “planeamento, cocriação e transparência” e que “visa envolver a comunidade e investidores institucionais no financiamento direto de projetos com impacto no território”. Dinamizar os negócios e a economia local e reforçar a resiliência do território são outros dos objetivos da plataforma.Com apoio da Caixa Geral de Depósitos, esta iniciativa está isenta de comissão. “Cada contributo é um passo na reconstrução. Cada gesto é um sinal de esperança”, é um dos slogans desta campanha. Apesar de o lançamento oficial estar marcado para hoje, as submissões já podem ser realizadas aqui..amanda.lima@dn.pt.Barómetro DN/Aximage: 78% aprovam atuação das Forças Armadas nas depressões.Kristin: Apoios não chegam para cobrir custos de reconstrução e número de famílias a pedir ajuda dispara