Na noite de segunda-feira, 20 de julho, ficou registada a primeira detenção de sempre de um apelidado mineiro do lixo, no Bairro de Campo de Ourique, em Lisboa, que revirava contentores para recolher embalagens passíveis de reembolso pelo sistema Volta. A revelação foi feita em exclusivo ao Diário de Notícias pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), quando o DN quis saber se a autarquia tinha previstas medidas de reforço da higiene urbana a partir de 10 de agosto – data em que todas as embalagens de bebidas passam a ter depósito do sistema Volta –, usando o município este primeiro caso de polícia para defender que a entidade gestora, a SDR Portugal, passe a cofinanciar os custos operacionais extraordinários das equipas de limpeza e a reposição de equipamentos destruídos.Chamada ao local, a Polícia de Segurança Pública (PSP) deteve, em flagrante delito, um indivíduo por despejo de lixo e vandalismo na via pública, quando este virava contentores para recolher garrafas de plástico e latas passíveis de reembolso. O caso é apontado pela autarquia liderada por Carlos Moedas como a prova inequívoca das consequências negativas trazidas pela implementação do sistema Volta..A partir de 10 de agosto, 100% das embalagens de plástico e latas até 3L à venda no país terão a marca Volta. Na prática, todas as garrafas que forem parar ao lixo passam a valer 0,10€, o que ameaça intensificar drasticamente a “caça ao vasilhame”.. Segundo fonte oficial da CML ao DN, “os acontecimentos recentes, como o episódio da noite de 20 de julho em Campo de Ourique, onde um indivíduo foi detido pela PSP após ter despejado contentores na via pública, à procura de embalagens passíveis de reembolso, evidenciam os desafios que este fenómeno pode gerar para a higiene urbana”.A câmara sublinha que a rápida atuação das forças policiais e dos serviços camarários não anula os estragos provocados, nem o rombo nas contas do município. “Apesar da rápida intervenção dos serviços municipais, este episódio demonstra os impactos associados a estes comportamentos, nomeadamente a dispersão de resíduos, a necessidade de intervenções extraordinárias, a mobilização adicional de recursos e a articulação com as forças de segurança”, afiança a autarquia.A fatura das limpezas e o marco crítico de 10 de agostoA posição de Lisboa evoluiu de uma crítica discursiva – na qual o presidente da câmara chegou a afirmar na TV que o sistema “vai ter de acabar” – para uma proposta concreta de partilha de encargos. Para o município, o modelo em vigor transfere para as autarquias custos operacionais que deveriam ser assumidos pela própria cadeia de recolha de resíduos.“A implementação do sistema Volta acarreta ainda um conjunto de encargos adicionais, nomeadamente a necessidade de reforçar ações de limpeza, reposição de contentores, recolha de resíduos dispersos e afetação de equipas”, detalha a CML na resposta enviada ao DN.Perante o desgaste operacional, a autarquia lança o repto à gestora do sistema: “Neste contexto, considera-se desejável que o sistema Volta venha a reconhecer e comparticipar os custos operacionais adicionais suportados pelos municípios, garantindo assim a sustentabilidade do sistema e conciliando os benefícios ambientais com a preservação da limpeza e da qualidade do espaço público.”A pressão autárquica ganha especial urgência devido ao calendário. A 10 de agosto termina oficialmente o período de transição de quatro meses estabelecido para o setor das bebidas. Até agora, o mercado ainda permitia a circulação e venda de garrafas e latas antigas, sem a marcação Volta e sem a taxa de 10 cêntimos.A partir dessa data, 100% das embalagens de plástico e latas até três litros colocadas à venda no país terão obrigatoriamente a marca do sistema. Na prática, todas as garrafas que forem parar ao lixo passam a ter valor comercial direto, o que ameaça intensificar drasticamente a “caça ao vasilhame” se não forem aplicadas medidas de contenção.O silêncio da gestoraConfrontada pelo DN, ainda na segunda-feira, dia 20, sobre se estaria disposta a estabelecer uma parceria financeira com as câmaras e juntas de freguesia para apoiar estes custos extraordinários nesta fase de arranque, a SDR Portugal preferiu não responder diretamente às perguntas, remetendo em exclusivo para o balanço divulgado no dia anterior.No documento, a empresa gestora fez questão de anunciar ter atingido o marco histórico de 100 milhões de embalagens recolhidas em apenas três meses, mas desvalorizou os distúrbios nas ruas, classificando a busca informal de embalagens como um fenómeno “residual e temporário”. A SDR lembrou ainda que a limpeza do espaço público é uma “competência exclusiva das autarquias”..Volta atinge 100 milhões de embalagens sob fogo cruzado: gestora minimiza 'caos' e responde a Moedas