Quase quatro em cada dez jovens trabalhadores em Portugal têm vínculos precários.
Quase quatro em cada dez jovens trabalhadores em Portugal têm vínculos precários.CARLOS M. ALMEIDA/LUSA

Portugal entre os países da União Europeia com mais jovens em trabalho precário

Quase 40% dos trabalhadores portugueses com menos de 30 anos têm contratos temporários, colocando o país como o quarto com maior precariedade jovem na União Europeia. Estudo da Pordata mostra um mercado de trabalho marcado por vínculos instáveis, salários abaixo da média europeia e uma das cargas horárias semanais mais elevadas da UE.
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Portugal é um dos países da União Europeia com maior precariedade entre os jovens, com quase quatro em cada dez trabalhadores com menos de 30 anos a terem contratos temporários. Os dados, divulgados pela Pordata a propósito do Dia do Trabalhador, colocam o país na quarta posição entre os Estados-membros com mais trabalho precário jovem, num cenário que combina elevada participação no mercado laboral com vínculos instáveis e salários abaixo da média europeia.

No conjunto da União Europeia, o trabalho temporário abrange cerca de um terço dos 36 milhões de jovens trabalhadores. Em Portugal, essa proporção atinge quase quatro em cada dez jovens trabalhadores (39%), evidenciando uma inserção no mercado de trabalho marcada por instabilidade contratual, apenas atrás do que acontece nos Países Baixos (51,1%), em França (39,2%) e na Polónia (39,1%).

Apesar deste nível elevado de precariedade, Portugal apresenta até uma das mais altas taxas de emprego jovem na União Europeia. Em 2025, 82,8% dos indivíduos entre os 25 e os 29 anos estavam empregados, acima da média europeia de 76,9%, o que coloca o país na sétima posição entre os 27 Estados-membros. Ou seja, a integração dos jovens no mercado de trabalho é relativamente elevada, mas acontece à custa de uma alta percentagem de vínculos precários.

No conjunto do mercado de trabalho, Portugal também apresenta níveis de precariedade superiores à média europeia. Em 2025, 15,1% dos trabalhadores por conta de outrem tinham contratos temporários, acima dos 13% registados na União Europeia. Este valor coloca Portugal entre os cinco países com maior incidência deste tipo de vínculo, a par de Espanha, França, Polónia e Países Baixos.

A precariedade é particularmente elevada entre trabalhadores estrangeiros. Em Portugal, 34% dos estrangeiros empregados têm contratos temporários, quase o triplo dos 14% registados entre trabalhadores nacionais. Na União Europeia, a diferença é menor: 19,2% dos estrangeiros têm vínculos temporários, face a 12% dos nacionais.

Salário médio bem abaixo da média europeia, com mais carga horária

A diferença de Portugal face à média europeia é notória ao nível dos salários. Em 2024, o salário médio mensal ajustado a tempo completo era de 2.068,2 euros em Portugal, menos 1.249 euros do que a média da União Europeia, fixada nos 3.317,3 euros. Já o salário mínimo nacional foi de 870 euros brutos em 2025 e subiu para 920 euros em 2026, correspondendo a 1.015 euros mensais quando considerados os 14 pagamentos anuais.

Outro traço distintivo do mercado de trabalho português é a elevada carga horária. Em 2025, a média semanal foi de 39,7 horas, mais 2,7 horas do que a média europeia de 37 horas. Portugal surge assim como o quinto país da União Europeia com maior carga horária, atrás da Grécia (41 horas), Polónia (40 horas), Roménia (40 horas) e Bulgária (39,9 horas). Em contraste, países como os Países Baixos (31,5 horas), Dinamarca (33,6 horas) e Alemanha (34,8 horas) apresentam médias significativamente mais baixas.

O recurso ao teletrabalho também permanece abaixo da média europeia. Em Portugal, 21,3% dos trabalhadores estavam em regime remoto ou híbrido, menos 1,8 pontos percentuais do que a média da União Europeia (23,1%). Os dados indicam que os países com salários mais elevados tendem a apresentar maior prevalência desta modalidade.

 Outro indicador relevante é a incidência do trabalho a tempo parcial. Em Portugal, apenas 8,1% dos trabalhadores estão neste regime, menos de metade da média europeia de 18,8%. A disparidade é ainda mais evidente quando comparada com países como os Países Baixos, onde 43,8% dos trabalhadores têm horários parciais.

Menos qualificações e menor produtividade

No que diz respeito à qualificação, Portugal apresenta também um défice face ao contexto europeu: 35,2% dos trabalhadores em Portugal têm ensino superior, menos 4,3 pontos percentuais do que a média da União Europeia (39,5%). Ainda assim, o país registou uma melhoria significativa, com um aumento de cerca de 10 pontos percentuais desde 2016.

Ao nível de produtividade, os resultados também não são positivos para os trabalhadores portugueses. Segundo a Pordata, na UE, cada trabalhador contribui com cerca de 74 mil euros para o produto interno bruto (dados de 2024). Irlanda (194 mil euros), Luxemburgo (152 mil euros) e Bélgica (110 mil euros), são os três países onde a produtividade do trabalho é mais elevada. Já Portugal aparece na parte inferior do ranking europeu, com uma produtividade média de 48 mil euros por trabalhador.

Este indicador “negativo” para Portugal é fortemente influenciado por valores especialmente baixos em setores-chave nos países mais ricos, como indústrias extrativas e serviços técnicos especializados, explica a Pordata, que assinala, ainda assim, que Portugal se destaca na produtividade em três setores: produção e distribuição de energia, atividades financeiras e de seguros e na área do alojamento e restauração.

A desigualdade de género no acesso ao emprego mantém-se, embora menos acentuada do que noutros Estados-membros. Em Portugal, a diferença entre homens e mulheres é de 5,4 pontos percentuais, enquanto em países como Itália, Grécia e Roménia ultrapassa os 15 pontos percentuais.

Por fim, a proporção de trabalhadores por conta própria é ligeiramente superior ao padrão europeu: 14,7% em Portugal face a 13,7% na União Europeia.

No total, a União Europeia conta com cerca de 208 milhões de trabalhadores, dos quais mais de cinco milhões estão em Portugal.

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