População local pede responsabilidades pelo incêndio em Carrazeda de Ansiães. Proteção Civil vai avaliar a resposta ao fogo
A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) garante estar a avaliar a resposta ao incêndio que, entre 15 e 19 de agosto, atingiu os concelhos de Torre de Moncorvo e Carrazeda de Ansiães e deixou cerca de 4000 hectares de mato e área agrícola ardidos, provocando a contestação de habitantes locais.
“Está em curso a análise da ocorrência registada no concelho de Carrazeda de Ansiães, através de ‘debriefings’ [reuniões] com as entidades envolvidas na operação”, informou a Proteção Civil, numa resposta à agência Lusa. O processo permitirá “avaliar a resposta operacional, o dispositivo mobilizado e identificar eventuais lições aprendidas e oportunidades de melhoria”, acrescenta a ANEPC.
Os habitantes das aldeias das aldeias de Vilarinho da Castanheira e de Pinhal do Douro, organizados no movimento “Isto Não Fica Assim”, acusam a Proteção Civil de desconhecer o território e de ter deixado algumas frentes do incêndio sem resposta. “O desconhecimento era total da zona. O comando não conhecia”, afirmou à Lusa o porta-voz Pedro Correia, que perdeu 100 oliveiras, algumas centenárias, e reservas de turismo, num prejuízo estimado em quatro mil euros.
Correia diz ter alertado, durante a madrugada de 16 de agosto, para uma frente junto aos moinhos de água de Vilarinho da Castanheira. “A zona dos moinhos acabou por arder, não arderam os edifícios por sorte, porque o fogo chegou mesmo às paredes”, relatou, acrescentando que uma sugestão para deslocar máquinas de rasto para zonas de passagem habitual do fogo foi “ignorada”.
O porta-voz do movimento garante que havia meios no terreno, mas que alguns estavam “parados” e que o “aparato”, na prática, “não servia de nada”. A crítica, contudo, não é dirigida aos bombeiros, esclarece. “Não temos nada a dizer dos bombeiros. Os bombeiros foram os responsáveis para que a tragédia não fosse ainda maior”, sublinhou Correia.
A ANEPC recusou comentar as acusações enquanto decorre a avaliação, considerando “prematuro pronunciar-se sobre este assunto" e "aguardando a conclusão desta análise, que dará origem a um relatório global.”
O incêndio, que começou em Cabeça Boa, no concelho de Torre de Moncorvo, alastrou a Carrazeda de Ansiães, atingindo várias freguesias. Em Vilarinho da Castanheira, a população estima que cerca de 90% da freguesia tenha sido afetada. Perderam-se oliveiras, amendoeiras, vinhas, sobreiros, pinheiros e pastagens, além de alojamentos turísticos.
“O fogo foi uma calamidade e precisamos que nos ajudem com os prejuízos”, disse Nuno Freixinho, presidente da Junta de Freguesia de Vilarinho da Castanheira.
O movimento já reuniu cerca de 500 assinaturas num abaixo-assinado, que pretende entregar na próxima semana ao ministro da Administração Interna. Exige compensações pelos prejuízos e medidas preventivas, como a criação de corta-fogos e a plantação de sobreiros e outras árvores mais resistentes. Se não obtiver resposta do Governo, promete uma manifestação ainda este mês.
* Com Lusa

